Verão 1993: Tatos inocentes

É verão em Barcelona. Enquanto fogos explodem colorindo o céu e crianças correm ao ar livre, Frida (Laia Artigas), uma garotinha de seis anos, entra em seu apartamento e observa as caixas e pacotes ao redor. Ela está de mudança. As mulheres da residência guardam os últimos objetos enquanto o tio cantarola alguma música catalã ao violão. A menina pouco interage, mas seus olhos expressam uma aflição confusa. É para esse olhar que a diretora Carla Simón recorre para construir um retrato íntimo, delicado e inteligente de uma infância que precisa superar um acontecimento traumático, ainda que não consiga bem compreendê-lo.

Vencedor do grande prêmio da Mostra Geração do Festival de Berlim e representante da Espanha para o Oscar, este Verão 1993 (Verano 1993, 2017) é o primeiro longa-metragem de Simón. Na trama, a pequena protagonista acabou de perder os pais e o jovem casal de tios e sua prima mais nova a recebem como filha em uma casa de campo no interior da Espanha. Mais que acostumar-se e integrar-se à nova família, Frida ainda precisa encarar um estilo de vida bucólico que em nada se relaciona com aquele que tinha em Barcelona, quando junto dos pais e dos avós. Neste rito de passagem, a menina se esforça para provar-se e ter a atenção da nova família, mas é evidente que também se mostre perdida e magoada em sua nova condição.

A cineasta espanhola busca em pequenos gestos do cotidiano o embasamento para que o espectador compreenda Frida e sua complexidade. Para apresentar o estranhamento do novo lar, por exemplo, Simón explora a expressão assustada da protagonista ao perceber a forma truculenta como agem e como são tratadas as galinhas no pátio de casa. Os tranquilos momentos com a prima pequena e os sorrisos que tira dos tios transmitem seu processo de integração. A saudade fica clara quando a garota deixa aos pés de uma santa um maço de cigarros, ou quando telefona para a mãe mesmo sem obter resposta. Assim como a sua inevitável revolta é percebida ao atirar um objeto janela afora e em pequenas mentiras, se nota sua malícia. É numa sucessão de sinais ingênuos, mas cheios de significado, que a narrativa se constrói. O filme alcança a proeza de se desenvolver com clareza a partir de uma proposta baseada na atmosfera.

Como o centro de interesse é a pequena Frida, acompanhar não apenas suas ações, mas também a forma como percebe o mundo é uma escolha que se revela certeira. Na maior parte do tempo é ela quem o espectador acompanha em atividades corriqueiras. Não apenas os enquadramentos, mas a expressão de seu corpo e a mise en scène seguidamente a exibem de maneira isolada. Há momentos onde a sensação é palpável, como quando, ao cair durante uma brincadeira, a menina sangra, fazendo com que as crianças ao redor sejam afastadas pelos próprios pais. Frida não entende por completo o pudor ao seu sangue, mas o espectador sim. Suas frequentes visitas ao médico e a morte prematura da mãe em decorrência da AIDS explicam aquela reação de preconceito, tão presente nos anos 90, quando a doença não era completamente compreendida.

Por passagens como essa, fica claro que o público de Verão 1993 definitivamente não é o infantil. Este é um filme adulto, carregado pela perspectiva de uma garotinha. A câmera na mão, precisa em seguir Frida e observá-la, mantem-se baixa na maior parte do tempo, como se na altura da pequena. Tal escolha evidencia o foco narrativo, que sim tem forte carga biográfica da cineasta, ponto que também conta em favor do domínio que tem sobre seu trabalho de inequívoca harmonia. Até eventuais planos que saem de foco soam planejados, como se expressassem as incertezas da protagonista.

Esperto também em optar por uma estética realista, o filme abre mão de artificialidades como trilha musical e não se deixa seduzir por sentimentalismos. Por conter tamanha naturalidade em seu tratamento, um olhar ou um simples movimento bastam para que comunique ao espectador, à sua maneira, o íntimo da protagonista. E em se tratando de um estudo de personagem, criar um elo entre a subjetividade do público e a de Frida é necessidade primordial.

E, em sua generosidade, o trabalho de Simón também contempla com nuances seus personagens secundários, representados pela nova família. Em especial Marga (Bruna Cusí), a tia, que se esforça para criar um espaço de conforto para a sobrinha órfã ao mesmo tempo em que não esconde sua indignação frente a determinadas atitudes. A petulância de Frida não é esporádica e suas malcriações têm efeito direto sobre a prima Anna. É também para Marga um desafio tê-la ali. Ainda que demonstre por ela grande afeto, seu olhar sobre aquele corpo estranho em um ambiente que até então era de harmonia revela muitas vezes aflição. É uma filha desconhecida que caiu de paraquedas em seu lar.

Impossível que não se destaque também o poder de cena da jovem atriz Laia Artigas. É admirável como carrega com tanta verossimilhança uma personagem sobre a qual o filme tem completa dependência. Sua genuína inocência é hipnótica ao demonstrar necessidades da narrativa que vão desde gargalhadas intensas aos profundos instantes de melancolia. Remonta às performances de Ana Torrent em trabalhos como O espírito da Colmeia (1973) e Cría Cuervos (1976). Aliás, ambos os trabalhos abraçam esta estreia de Carla Simón na direção. Por mais que não haja aqui a conotação política evidente nestas obras – a Guerra Civil e o franquismo estão presentes nos filmes de Erice e Saura –, Verão 1993 se junta a eles ao explorar um processo de transição da infância em contato tão próximo com a morte. Em seu inesperado e dilacerante plano final, a cineasta se prova entendedora da alma de sua personagem, atributo raro que o cinema espanhol faz tão bem quando debruçado sobre a sensibilidade pueril.

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