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Um jogo de duas

No cartaz desta 24ª edição do Queer Lisboa e 6ª do Queer Porto, estão estampadas algumas palavras. Algumas delas são “bodies” (corpos), “play” (jogo) e “memory”(memória) que reverberam pelo filme de Filippo Meneghetti, Deux (2019), exibido na edição portuense do evento. Sua dupla de protagonista, as “duas” do título, são ninguém menos que as grandiosas atrizes Barbara Sukowa e Martine Chevallier. Como bem apresentadas pela programadora Constanza Carvalho Homem: Chevallier e Sukowa são dois monstros da arte da interpretação europeia que com performances delicadas e repletas de detalhismo constroem esta trama de um amor lésbico na “terceira idade” com uma intensidade exemplar.

Mas onde entram as palavras do cartaz do festival no filme? Logo no começo de sua produção, Meneghetti nos mostra duas meninas a brincar de pique-esconde. É quando uma delas esconde-se atrás de uma das árvores do parque e a outra garota, que podia encontrá-la, simplesmente não a vê. Existe aí um quê de mágico, misterioso e também de emblemático para a narrativa do filme. A menina desaparece das vistas de sua companheira de jogo como se num estalar de dedos. É assim que caminhará a história de amor de Nina (Sukowa) e Madeleine (Chevallier) em um surpreendente jogo de esconder, seja dos corpos na escuridão da intimidade ou no arrastar daqueles que se ama pelas muitas memórias afetivas.

Felizmente, não é mais novidade a representatividade de LGBTQs idosos no cinema, ao menos, alternativo. Já houve produções como a argentina As Herdeiras (2018), brasileiras como Greta (2019) e norte-americanas como O Amor é Estranho (2014), entre outros. Deux se junta a este feliz filão ao tratar da história destas duas mulheres e o preconceito acentuado que sofrem exatamente pela idade e por não tentarem mais se moldar ao seu passado heterossexual. O “armário”do qual Madeleine precisa sair é um dos mais complexos. Envolve bem mais do que somente ela, mas sua família que são seus filhos e neto. A maneira como será vista é o que a paraliza metaforicamente e também fisicamente, em certo ponto. Como em um ultimato, Nina propõe que Madeleine deixe pra trás a vida na França e venda o apartamento que possuem e assim possam comprar outro imóvel em Roma e lá viver.

A cidade italiana é emblemática para o casal, pois foi lá que se conheceram. Acontece que Madeleine não consegue assumir o relacionamento e sua sexualidade frente à família e protela a venda do apartamento sem Nina saber. Quando ela descobre a mudança de planos, uma briga entre as duas causa um infarto em Madeleine, fazendo com que sua mobilidade seja afetada e não volte a falar. O amor, a memória e contato dos corpos trazem o romantismo e o re-acesso de Nina à Madeleine aos poucos. Tudo se torna mais complexo, ainda mais quando a iminente descoberta é feita pela filha da personagem, o que marginaliza ainda mais não somente Madeleine como também Nina, que acaba proibida de ver sua mulher.

Apesar de em alguns momentos o filme ser econômico ao mostrar cenas de sexo e intimidade maior entre as personagens, a capacidade de Meneghetti em colocar o espectador como um aliado que teme pela desconstrução daquela relação e as complicações que podem trazer é muito bem feita. E o diretor faz um bom uso da técnica para conseguir isso. Seja pela trilha sonora na medida, pela criação de ícones de tensão no ambiente cênico através do som e as diversas cenas com ações paralelas, ele cria belas camadas de ação, paralelismos, triangulações. Existe um suspense e um caos iminente, assustador por diversas vezes e que pode acabar com aquele amor incondicional a qualquer momento. É aí que é preciso destacar os olhares, o controle de cena das duas protagonistas nisso tudo. Se nos movimentamos pelo filme através de Sukowa, é nos olhares e sutilezas de Chevalier que a história se constrói emocionalmente, se fortifica e evolui. É um belíssimo trabalho corporal que somente atrizes tão bem consolidadas no teatro poderiam entregar. E mais que corpo e memória testemunhamos um jogo de cena imperdível.

Parte da cobertura do Queer Porto #6 realizada em outubro de 2020.

Por Renato Cabral

Mestrando em Estudos de Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Portugal. É graduado em Cinema e Animação pela UFPel e editor do Calvero. É membro da ABRACCINE - Associação de Brasileira de Críticos de Cinema e da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.

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