Tentei: silêncio incendiário

O cinema dos processos, da meditação lenta pela escolha do registro temporal integral, que talvez tenha em Jeanne Dielman (Chantal Akerman, 1975) sua expressão máxima e, consequentemente, trabalhe em um viés bastante feminista, ainda tem presença lacunar no cenário brasileiro. Elon Não Acredita na Morte (Ricardo Alves Júnior, 2016), que foi uma recente incursão de sucesso no “gênero”, funciona sob mecanismos bastante similares a Tentei (2017), curta-metragem de Laís Melo: a narrativa elusiva, a câmera na mão rente ao corpo, e a carga dramática depositada na expressão corporal. Em uma performance de total entrega, Patricia Saravy conduz, pelo poder de seus olhares, um tour de force composto de perturbadoras sugestões.

Glória, 34, nua da cintura pra baixo, acorda, se veste e retira uma mochila do armário, furtivamente. Pelo ritual matinal e suas errâncias ao longo da casa, entendemos sua situação. Ela escreve um bilhete que nunca lemos e sai de casa carregando a mochila. Estamos com ela em sua viagem de ônibus e na sala de espera da delegacia da mulher. Em sua entrevista, na qual se estabelece concretamente que ela veio denunciar seu marido por agressão e estupro, ela é forçada a revisitar seu trauma e enfrentar sua impotência. A frontalidade no registro da burocracia não só remete a Elon mas aos particulares recentes romenos. Interrompida no meio, a entrevista dá lugar ao retorno de Glória para casa, onde alivia-se pelo bilhete não ter sido lido. A explosão de raiva, tristeza e culpa que encerra a projeção é de potente humanidade e, ao mesmo tempo, incendiário questionamento. Como espectadores, somos denunciados em nossa incapacidade de agir e, por consequência, Glória nos nega a invasão, tampando a câmera violentamente com uma peça de roupa.

Melo demonstra louvável domínio da linguagem, e se insere no melhor escalão de filmes políticos por se apropriar da forma como potencializadora de discurso. É um cinema que não subestima seu público e, pelo contrário, o desafia ativamente, funcionando pelas forças internas do plano e nas potencialidades do não dito – pois a cultura do estupro precisa ser debatida, e quem tem que falar somos nós.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *