Entrevista: Eliane Caffé

Paulistana premiada internacionalmente com curtas e longas-metragens desde o final dos anos 80, a diretora Eliane Caffé conversou com a Calvero durante a 20ª Mostra de Tiradentes sobre a sua última realização, o elogiado Era o Hotel Cambridge. Na história, um grupo de refugiados recém-chegados ao país dividem com um grupo de sem-tetos um velho edifício abandonado no centro de São Paulo. Junto da tensão constante do possível despejo, os moradores apresentam suas problemáticas pessoais e ainda, precisam aprender a conviver uns com os outros compartilhando as dificuldades da vida nas ruas. O filme, premiado tanto pelo júri popular quanto pelo júri da crítica no último Festival do Rio, foi exibido na mostra mineira e já tem estreia agendada para a primeira quinzena de março. Confira o bate-papo.

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As armadilhas do melodrama em A luz entre oceanos

Constantemente se esforçando para manter lacrimejantes os olhos do espectador, A luz entre oceanos (The Light Between Oceans, 2016), novo trabalho do americano Derek Cianfrance, não esconde em nenhum momento as suas intenções. Ao ser assumidamente melodramático, o longa não evita de sucumbir a certos excessos na narrativa, mas é também mais uma prova da habilidade do cineasta em dirigir seus atores.

Baseado no best-seller de M. L. Stedman, Tom, um veterano ainda em recuperação dos traumas sofridos na Primeira Guerra Mundial, se dedica ao seu novo trabalho como faroleiro. Se sua intenção antes era de abraçar a solidão e livrar-se dos fantasmas do passado, esta acaba se esvaindo ao conhecer Isabel, uma jovem enérgica e cheia de planos que mora no povoado do outro lado da baía. O casamento acontece e, em uma tarde qualquer na monotonia em torno do farol, um barco surge no mar carregando um homem morto e uma criança recém nascida. Mantendo este segredo, o casal adota o bebê como filha própria. Anos mais tarde, porém, eles conhecem Hannah, uma jovem ainda amargurada pelo sumiço do marido e da filha pequena no oceano.

Michael Fassbender stars as Tom Sherbourne and Alicia Vikander as his wife Isabel in DreamWorks Pictures' poignant drama THE LIGHT BETWEEN OCEANS, written and directed by Derek Cianfrance based on the acclaimed novel by M.L. Stedman. Davi Russo ©DreamWorks II Distribution Co., LLC. All Rights Reserved.

Em seu primeiro ato, a produção é lindamente interpretada por Michael Fassbender e Alicia Vikander. Neste momento, Ciafrance se dedica a construir a relação entre o casal protagonista. Os artifícios empregados nesta passagem se esforçam ao máximo para manter o sorriso no rosto do público. Primeiros encontros, conversas e beijos são fotografados quase sempre sob a luz do pôr do sol. As lentes em contra-plongée captam a química entre os atores de maneira sensível, sempre usando do vento da costa ao seu favor para manter os cabelos da atriz em movimento. Há um emprego de inserts que vão das ondas do mar às flores ali presentes que tornam a atmosfera ainda mais idílica. São decisões óbvias, mas este primeiro momento funciona justamente por assumir esse tom açucarado digno de folhetim romântico.

Contudo, a aposta em todos os exageros inerentes ao melodrama começa a surtir efeitos negativos. O emprego da trilha sonora de Alexander Desplat comprova isso. Surgindo em momentos nos quais sozinhos, sem a trilha, já teriam força suficiente, a música invade o filme de maneira incômoda e é constantemente inevitável percebê-la como desnecessária.

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O roteiro, adaptado pelo próprio Cianfrance, não evita certos moralismos e, por mais que o espectador compreenda o caráter quase utópico daquela atmosfera, certas passagens acabam soando desmedidas. Frases como “Só é preciso perdoar uma vez. Para ressentir-se é preciso fazê-lo o dia todo, todos os dias” surgem provavelmente da fonte original. Contudo, quando empregadas na tela, trazem a dureza da artificialidade. É como se um personagem completamente ordinário, de repente, virasse um sábio milenar a proclamar ensinamentos.

O roteiro ainda abusa do recurso das inúmeras cartas enviadas entre os personagens, seguindo a linha da voz em off acompanhada de trilha sonora. Em determinado momento, inclusive, a voz traz uma mensagem de amor e esperança enquanto as imagens trazem sucessivos flashbacks vistos pelo espectador no início da projeção. É como se Cianfrance desse um sinal com uma mensagem direta: chorem.

E bem, é muito provável que o espectador acabe se emocionando de fato. É notável o controle que o cineasta pretende ter sobre o sentimento do público ao assistir a este seu novo trabalho. Se seus anteriores, os ótimos Namorados para sempre (2010) e O lugar onde tudo termina (2012) definitivamente passeavam pelo melodrama, não o faziam de maneira tão explícita. De qualquer maneira, o que se mantém aqui é sua arte de saber dirigir atores. Claro que em se tratando de Michael Fassbender, Alicia Vikander e Rachel Weisz tal tarefa não é das mais complicadas. Mas no saldo final, mesmo com tantas ressalvas, o que ainda faz A luz entre oceanos funcionar é a verdade do seu elenco.

A trajetória das Divinas Divas

Nas décadas de 60 e 70, em pleno período da ditadura militar no Brasil, fizeram história as primeiras artistas travestis a se apresentaram no Rio de Janeiro. As pioneiras Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios construíram uma vasta trajetória no cenário artístico daquela época. Em 2014, elas se reencontraram para a celebrar seus 50 anos de carreira no Teatro Rival, na Cinelândia, com um novo espetáculo. No documentário Divinas Divas (2016), estreia da atriz Leandra Leal como diretora, esta reunião é base para um generoso retrato destas figuras.

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O roteiro, que inclui nomes como o de Lucas Paraizo, dá espaço para que cada uma das divas conte sua história. Entre elas há casos de não aceitação da família, humilhações da censura, carreira internacional e amores eternos. Durante os ensaios para o espetáculo, as lentes captam a cumplicidade entre elas, as lembranças compartilhadas e também as ásperas batalhas de ego. Constantemente carregado pelo humor rápido das protagonistas, o documentário também explora momentos trágicos, como quando, ainda jovem, Marquesa é internada para “curar-se” do seu comportamento, ou aqueles de grande emoção, vide a história de amor de mais de 45 anos vivida por Jane di Castro e seu marido Otávio.

Se elas se mostram completamente confortáveis diante da câmera e contam suas vidas em grande entrega, isso muito se deve ao fato de estarem frente a frente com Leandra Leal. Herdeira direta do Teatro Rival, a atriz e diretora esteve presente nos bastidores dos espetáculos desde muito pequena e cresceu rodeada das artistas que agora registra. Não há dúvidas de que essa conexão enriquece o documentário em termos de conteúdo. Seguidamente, as divas respondem às perguntas diretamente para Leandra, mencionando seu nome. A cineasta também não se corta, suas perguntas estão aí, o público escuta sua voz nas entrevistas.

Mais do que isso, o filme adota o formato “álbum de família”, onde Leandra se coloca também como personagem. Em narrações em off sempre carregadas de um sensível saudosismo, Leandra leva à tela suas lembranças de infância e intimidades que moldaram suas percepções, como o fato de o pai e o padrinho serem homossexuais. Nestes momentos nostálgicos, é possível compreender os porquês que motivaram a realização deste projeto. Demonstrando grande afeto pelo que registra, talvez o único porém do filme seja justamente este apego ao material, onde o tempo se faz sentir em um ou outro momento. Nada que comprometa a experiência, contudo.

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É juntando a força de suas protagonistas à conexão entre elas e a cineasta que Divinas Divas resulta em um documentário digno. Seja partindo delas ou de Leandra, as palavras se referem a um tempo passado, mas constantemente fazem relação com o presente trazendo, portanto, reflexões políticas contundentes, como a própria realidade atual das travestis ou a simples, e ainda tão difícil, compreensão do outro.

Ainda registrado pela fotografia competente de David Pacheco, que se apropria das cores e brilhos em suas imagens, o filme presenteia o público com várias manifestações performáticas gravadas no palco do Rival. Há um belíssimo plano sequência que segue as artistas desde a praça da Cinelândia até os bastidores do teatro e tem destaque na projeção. Projeção esta que se encerrou aos intermináveis aplausos durante o domingo à tarde no Cine Odeon.

As vantagens de se permitir em Você e os Seus

Está tudo aí: o personagem diretor de cinema, as bebidas alcoólicas e os infindáveis diálogos, geralmente bem inspirados. Estão também as relações afetivas bagunçadas, um emprego característico de zooms e a fragilidade masculina astutamente exposta. Assim como em outros títulos de sua filmografia, tais elementos estão presentes neste novo trabalho do sul coreano Hong Sang-soo.

Em Você e os Seus (Yourself and yours, 2016), Young-soo descobre em uma conversa com um amigo rumores de que sua namorada, Minjung, saiu para beber com outro homem na noite anterior. Intrigado, o rapaz questiona a namorada, que havia concordado em controlar a ingestão de álcool como regra dentro do relacionamento de ambos. A moça nega tudo e questiona a sua confiança. Eles acabam dando um tempo na relação. O espectador a partir daí é testemunha de uma busca frustrada de Young-soo por Minjung, enquanto ela sai para beber com sujeitos desconhecidos que insistem em afirmar que a conhecem.

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Sang-soo, aqui, não apresenta a mesma ousadia do seu trabalho anterior, Certo Agora, Errado Antes (2015). O formato não inova e a direção é o que se espera do cineasta: uma dinâmica característica de planos fixos salpicados por pans, tiltszooms nada discretos. E isso não é um problema, muito pelo contrário. Mas é o roteiro que tem maior força.

É mais uma vez muito delicada a maneira como Sang-soo estuda seus protagonistas. Mesmo envoltos por uma comicidade já característica do cineasta, ambos os personagens são construídos em facetas tridimensionais. Ele, completamente obcecado por reatar o namoro, chega muito próximo da auto-ridicularização. Não um ridículo forçado, contudo. É bem humorada a forma como o personagem demonstra seu desespero e, além da sua personalidade irritantemente controladora, fica claro ao espectador um outro motivo que leva Young-soo àquele estado: sua mãe está muito doente e provavelmente a namorada lhe daria suporte neste momento.

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Acontece que Minjung está experimentando sua liberdade. Ela está se permitindo ser outras pessoas, não por imposição própria, mas simplesmente por seguir o fluxo do seu emocional. Só que isso não acontece de maneira óbvia. A moça sofre de um tipo bem específico de perda de memória recente, provavelmente devido ao seu grande apreço por álcool. Ela simplesmente esquece, do dia para noite, de pessoas com quem compartilhou alguns copos de cerveja poucas horas atrás. Inclusive, chega ao ponto de esquecer do próprio ex-namorado. Porém, até o final da projeção, não é possível decretar se os seus esquecimentos são realmente fisiológicos ou se ela mente descaradamente bem. E isso realmente não importa, já que o humor resultante dos sucessivos constrangimentos é constante.

Mais do que isso, mesmo que pontualmente Sang-soo se perca em um ou outro diálogo esticado excessivamente, há nesse processo uma reflexão muito elegante sobre relações afetivas. Em determinado momento, cansada de tantas perguntas do namorado, a personagem de You-Young Lee, em ótima performance,  o repreende. “Não tente saber de tudo”, ela diz. Nessa desconstrução do amor pautado pelo excesso de controles, há um claro convite à reflexão. Cabe a um processo tão orgânico e subjetivo a imposição de um código de conduta? É justamente quando as regras caem e a individualidade é permitida que o namoro parece alcançar sua fluidez neste novo, e otimista, trabalho do cineasta.

Eu, Daniel Blake: opressão e empatia

Dirigido pelo britânico Ken Loach (de Kes, 1969), Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blank, 2016) fala sobre a opressora e indiferente burocracia do governo em relação aos cidadãos mais necessitados. É curioso assistir à uma produção como esta em uma cidade tão grande e de contrastes sociais como o Rio de Janeiro, onde “o sistema é o vilão” e as implicações políticas do personagem-título refletem muito bem a nossa realidade. O impacto dessa clareza é tamanho que logo após a sessão diversos gritos de “Fora Temer” foram escutados pela sala, incluindo um discurso improvisado de uma espectadora sobre “como eles não se importam conosco.”

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Na trama, um senhor carpinteiro se machuca no trabalho e precisa enfrentar filas e formulários para buscar sua pensão, seguro desemprego e exames médicos. Um dia, enquanto espera, ele presencia uma mãe de dois filhos sendo maltratada e expulsa do prédio da assistência social e resolve intervir. Isso cria uma amizade entre os dois baseada na própria assistência. Algo como “se o governo não vai ajudar, então vamos nos ajudar”.  Felizmente, para ambos, isso dá muito certo.

Ser vencedor da Palma D’Ouro em Cannes neste ano gera enormes expectativas quanto ao filme, ainda mais em uma sessão lotada em festival. Não apenas em relação a qualidade do filme, mas também quanto ao segmento em que está inserido: o elitizado “cinema de arte”. Na primeira cena, o diretor já quebra um pouco desse preconceito. Enquanto rolam os créditos iniciais escutamos  apenas a conversa de Daniel com uma atendente do governo, onde se apresenta bastante humor. Eventualmente a demora e burocracia dos protocolos pelos quais o personagem é submetido começa a perder a graça, afinal paciência tem limite. Não vivenciamos isto apenas como espectador que assiste com distância aos eventos, mas como alguém que sente empatia pelo personagem. Afinal, é complicado aguentar cada vez mais complicações desnecessárias. Sabemos disso.

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Filmes como os de Loach são poderosos, pois fazem o espectador refletir além das questões que ele toca e isso se estende até mesmo sobre o cinema em si. Normalmente vamos à uma sala para ser distraído, de preferência em busca de uma realidade que não nos faça olhar para nós mesmos. Porém Daniel Blake expõe temáticas inerentes à sua plateia. À esta do Festival ainda mais, pois toca em feridas presentes até hoje na sociedade brasileira, como a desigualdade, a pobreza e o desemprego. 

Em uma de suas cenas emblemáticas, uma das funcionárias do governo, também uma senhora de idade como Dan, é simpática e o atende brevemente. Mas isso não faz parte do protocolo e ela é prontamente reprimida por um superior. Castigada por ajudar em um trabalho que lida com pessoas, porém onde se importar com elas é uma espécie de defeito, concluímos que a empatia é a palavra-chave no filme de Loach. Esse altruísmo criado a partir dos personagens é muito bem trabalhado sem nunca chegar ao exagero melodramático. Mesmo que ao fim da sessão o que mais se escutava eram pessoas muitíssimo emocionadas.

*Texto integrante da Cobertura Festival do Rio 2016

A anti-catarse de Manchester à beira-mar

Mais uma vez recorrendo ao tema das relações familiares neste seu terceiro longa como diretor, Manchester à Beira-mar (Manchester by the Sea, 2016), o americano Kenneth Lonergan volta a subverter as regras da narrativa hollywoodiana e escreve um protagonista que parece ter sido criado especialmente para Casey Affleck.

A trama gira em torno de Lee Chandler (Affleck), um faz-tudo que trabalha em um complexo de apartamentos em Boston. Seus dias se resumem a resolver vazamentos, consertar instalações elétricas e auxiliar na manutenção dos prédios. À noite, ele sai para encher a cara pelos bares da cidade e, não raro, sair aos socos com um estranho qualquer. Quando seu irmão mais velho (Kyle Chandler) morre prematuramente, Lee volta à sua cidade natal e descobre que é nomeado tutor de seu sobrinho (Lucas Hedges). Antes solitário, Lee agora precisa conviver com o adolescente, rever a ex-esposa (Michelle Williams) e ainda lidar com o funeral do seu irmão. Mas os espaços e as pessoas ao seu redor trazem à tona um passado de sofrimento que marcou pra sempre a vida do personagem.

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Optando por revelar o íntimo do protagonista mais pelo silêncio do que pelos diálogos, Lonergan procura humanizar Lee em seus olhares e em seu comportamento truculento. Quando o personagem fala, parece falar pra dentro, quando chora, logo se recompõe, se está prestes a encarar um diálogo mais profundo, escapa. Essa opção tem um propósito. Melhor, uma razão. Em determinado momento do longa é revelado ao espectador o trauma sofrido por Lee, algo tão aterrador que imediatamente é possível compreender seu estranho comportamento.

Assim, é muito feliz a escolha de Casey Affleck como protagonista. A fala baixa e lenta, quase sonolenta, e o controle do ator sobre o olhar aqui são potencializados. Suas expressões que muitas vezes parecem completamente vazias mostram claro domínio do personagem em uma atuação de caráter mais introjetado. O elenco de apoio é dirigido de maneira a também manter certa contenção ao revelar emoções, algo imprescindível para a organicidade que o filme atinge.

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E é exatamente nesse tom e nessa recusa de Lonergan em entregar o que se convém chamar de clichê que estão as marcas de Manchester à beira mar. O longa não se permite buscar a redenção dos personagens ou jogá-los em processos catárticos. Ao invés de longos monólogos e choros registrados em close, o trabalho alcança o seu lado humano através de estranhamentos e silêncios. Há ainda um bem vindo humor, tão natural quanto insólito, que auxilia na tradução não só do íntimo dos personagens, mas também do caráter ordinário das vidas retratadas na tela.

A montagem revela às conta-gotas acontecimentos antigos em sequências que alternam momentos diferentes, mas conectados pelo espaço ou sentimento, de maneira pouco usual. Aos olhos muito acostumados aos dramas hollywoodianos recentes ou mesmo não apresentados aos trabalhos anteriores de Lonergan, tais alternâncias podem até causar certa antipatia. É no desajuste às regras, porém, que o cineasta encontra algum frescor ao falar sobre um tema tão explorado como o luto.

 

*Texto integrante da Cobertura Festival do Rio 2016