Rifle: alvo em movimento

Na articulação cinematográfica há certas regras de etiqueta que se assumem sem precisar ser ditas, normas assimiladas a um glossário de conhecimentos prévios necessários à execução da tarefa de realizar um filme, passíveis a ser seguidas ou subvertidas. Sabe-se, por exemplo, que a cartela com o título da obra a antecede. Se, porventura, um trecho do filme ocorrer antes ao título, tal caracteriza-se como um prólogo, assim como na literatura, em que pode-se prenunciar o teor do discurso a se desenvolver, evidenciando elementos-chave à sua compreensão. No cinema, o posicionar do título sucedendo a um prólogo coloca sua retórica em xeque, podendo-se potencializar através do contraste com a cena o seu sentido transmitido pelo verbo. O prólogo de Rifle (2016), segundo longa-metragem de Davi Pretto, sintetiza em ações aparentemente simples as angústias que vêm a permear seus mecanismos. Somos introduzidos ao protagonista, Dione (Dione Ávila de Oliveira), enquanto apaga a faca mensagens gravadas em árvores. Em seguida, em seu caminhar moroso (um carro passa ao fundo, estabelecendo a proximidade da rodovia), se depara com um carro detonado, já parte da paisagem de um pequeno bosque. Cut to black. Título do filme. O opor da imagem de um automóvel à palavra “rifle” como ponto de corte inaugura um questionamento que lentamente se desenvolve através da projeção, em que se essencializa a figura do carro como alegoria ao progresso entre aspas, à intromissão do meio urbano nos espaços rurais.

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Pelas múltiplas representações no cinema gaúcho

por Eleonora Loner

O crescimento do investimento nacional e o aumento de faculdades de cinema gerou no Rio Grande do Sul uma renovação cinematográfica bastante acelerada. Nos últimos cinco anos, uma nova leva de filmes e cineastas surgiu, tirando o Estado da (quase) estagnação e, pouco a pouco, devolvendo-o a uma posição de certa relevância no cenário nacional.  O crescimento econômico do país fortalece as artes em geral e, apesar do pouco incentivo estadual, a produção aumenta e se diversifica.

A Avante Filmes, produtora audiovisual de Porto Alegre, é um dos expoentes dessa que se espera que seja uma nova fase da cinematografia gaúcha. Composta por Filipe Matzembacher, Marcio Reolon e Germano de Oliveira, a Avante já produziu diversos curta-metragens, estreou seu primeiro longa e tem uma série e outro longa-metragem a caminho.

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Beira-mar (2015), longa de estreia de Filipe e Marcio e da própria Avante Filmes, é o segundo filme gaúcho selecionado para o importante festival de Berlim, tendo sido precedido apenas por Castanha (2014), dirigido por Davi Pretto, no ano anterior. O filme acompanha a viagem de Martin (Mateus Almada) e Tomaz (Maurício José Barcellos), dois antigos amigos, ao litoral gaúcho durante o inverno, a fim de resolver trâmites legais para o pai do primeiro. Esses dias isolados diante do mar faz que se reaproximem e deem importantes passos em direção ao amadurecimento. Beira-mar estreou no Festival de Berlim, na mostra Forum, dedicada a filmes que trabalham com inovação de linguagem, e na mostra Generation, seção de filmes sobre o mundo jovem. Também foi indicado ao Teddy Awards, principal prêmio de cinema LGBT do mundo. Depois disso, o longa já esteve em diversos festivais, entre eles o de Guadalajara (onde recebeu o Prêmio Especial do Júri, na Seção Maguey), Festival de Málaga, do CineLatino-Rencontres de Toulouse, entre outros.

“Queríamos falar dessa etapa da vida enquanto ainda estávamos próximos dela.”, diz Marcio sobre a juventude em Beira-Mar. Este tema, junto com a sexualidade, está presente em quase todas as obras da produtora, porém em Beira-Mar se torna de certa maneira muito autobiográfico, já que o filme foi criado a partir de conversas em que os diretores perceberam que haviam passado por várias experiências semelhantes, mesmo sem se conhecerem. A descoberta da sexualidade e o cenário litorâneo do estado (com seu vento e tons frios bastante peculiares) permeavam suas memórias da adolescência.

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Porém, para Marcio e Filipe, era muito importante falar do “coming out” de maneira leve e positiva, dando certa esperança na etapa a ser vivida ao invés de retratá-la  como a abertura de uma vida de sofrimentos.  “Não existe representação correta, existe falta de representações. Quando apenas um retrato de algo é oferecido, esse retrato vai ser raso, superficial”, acrescenta Filipe, sobre a maneira como as minorias são vistas, em geral, pelo cinema. “Nem todo filme de coming out tem que apresentar uma história de massacre. Nem toda travesti tem que sofrer o tempo inteiro.”. Apesar de reconhecer que pode ser um difícil processo, em Beira-Mar os diretores preferiram oferecer um empoderamento aos sujeitos, especialmente por se tratar de uma produção voltada a um público jovem.

Sobre a recente expansão do cinema LGBT no Brasil, eles acreditam que isso acompanha um crescimento geral da produção brasileira, mas dão as boas vindas a prêmios e mostras específicas em festivais, por darem maior visibilidade a filmes que talvez, se exibidos em uma mostra geral, não a teriam, por questões de público e jurado. Ainda assim, seguem existindo minorias dentro de minorias e o G em LGBT ainda se sobressai das demais letras, outra vez entrando na falta de representações. “Talvez, sendo homem branco gay no mundo do cinema, eu ainda tenha mais privilégios que uma mulher ou um negro.”, considera Marcio.

Depois da visibilidade de Beira-Mar (que tem estreia prevista no Brasil para o segundo semestre de 2015), a Avante Filmes agora trabalha na pré-produção da série Todo Carnaval tem seu fim, que será exibida na TVE e retrata a história de um jovem militar do interior que, na busca por seu irmão na capital, acaba passando por experiências que o libertarão. Além disso, roteiriza o longa-metragem Garoto Neon, que ganhou um edital de desenvolvimento de roteiro do fundo holandês Hubert Bals e narra a história de amor entre dois performers eróticos de internet.

A sessão Calvero #1 de Beira-mar acontece no dia 4 de dezembro às 19h no Cine UFPel (Lobo da Costa, 447). A entrada é gratuita e o evento conta com as presenças dos diretores e elenco.