O estranho paraíso de Aronofsky em Mãe!

No cristianismo, o pecado original é a doutrina da imperfeição humana, do mal e do sofrimento, é a queda do homem por ele mesmo. Adão e Eva gozavam do paraíso antes da chegada do intruso. A Serpente surge no Jardim do Éden para instigar os dois habitantes da terra a cometerem o único delito que foram advertidos a não fazer. A mulher, criada a partir do homem para satisfaze-lo é quem posterga as ordens divinas.

Em 2017, um tema em comum repetiu-se dentro de alguns filmes: o do intruso. Em O estranho que nós amamos (The Beguiled, 2017), o invasor vem em forma de um homem solitário que foge da Guerra da Secessão, em 1864. No longa Ao Cair da Noite (It Comes at Night, 2017), uma família de três integrantes se hospeda em uma casa que tenta se sustentar em um cenário pós-apocalíptico. Já em Mãe! (Mother!, 2017) é uma multidão, que em uma alusão a todas as pessoas do mundo, invade o ambiente.
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Ao Cair da Noite: o declínio do homem público

Após o “horror familiar” que foi Krisha (2015), é perfeitamente lógico que o diretor Trey Edward Shults estenda sua investigação ao terror confesso, apropriando-se em Ao Cair da Noite (It Comes At Night, 2017) de todo o glossário do gênero para discorrer sobre uma temática comum ao longa anterior, extrapolada aqui ao ser posta ante uma alegoria pós-apocalíptica. Se em Krisha se trata da instituição familiar pelo olhar do inadequado, em sua incapacidade de assimilação a uma unidade baseada não só no laço afetivo/sanguíneo, mas também na avaliação concordante com códigos morais, Ao Cair da Noite procura fabular sobre as consequências da defesa ferrenha deste modelo paternalista, neste caso literal diante de um espaço público hostil, materializado através de uma epidemia letal cujos detalhes pouco importam à narrativa, exceto pela necessidade de eliminar os infectados antes que algo pior aconteça.
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