Não Devore Meu Coração! ou Até a Derrota

Um animal morto na estrada leva um motoqueiro, até então não entendido como Cauã Reymond, a derrubar sua moto para fora do asfalto – e de quadro. A câmera se movimenta em panorama à esquerda, revelando não um homem acidentado, mas sim ajoelhado, visor do capacete fitando a lente que se aproxima através de um afetado zoom. Uma imagem suspensória, plano inaugural que antecipa uma jornada fantasiosa, aptamente dividida em cinco capítulos [jocosamente entitulados Meninos de Peito Vazio; A Guerra das Lágrimas; Porque Esse Nosso Amor Quebrou Meu Peito ao Meio; A Fuga do Cowboy Covarde; e A Batalha de Ñande Pa (Lágrimas da Menina Jacaré)], onde um inesgotável inventário simbológico dá conta de ilustrar e construir uma mitologia própria, distintamente latino-americana.
Continue lendo “Não Devore Meu Coração! ou Até a Derrota”

Era uma vez Brasília não cumpre o que promete

É de se admirar a capacidade de alguns críticos em Brasília em conseguir organizar as ideias em torno de Era uma vez Brasília (2017) e até defender o filme com segurança, apontando para detalhes do enredo. De fato, poucos tiveram essa capacidade, e esta autora não se encontra entre eles.

Ter assistido aos anteriores A Cidade é uma Só? (2011) e, principalmente, Branco sai, Preto Fica (2014), deveria ser condição privilegiada para a compreensão do concorrente nesta 50ª edição do Festival de Cinema de Brasília. No entanto, foi de pouco auxílio ter conhecimento do universo do diretor Adirley Queirós, pois o que predomina no filme atual é a confusão de tempos cronológicos, numa narrativa incompetente para permitir que a plateia entre no filme. Curiosamente, a produção levou, além dos prêmios técnicos de Fotografia e Som, também o de Melhor Direção. Se considerarmos que é um filme com todos os ingredientes da autoralidade, com evidentes deficiênicas de roteiro, é realmente um prêmio curioso.
Continue lendo “Era uma vez Brasília não cumpre o que promete”

Por trás da linha de escudos: o cinema de riscos

Em 2009, ao lançar o documentário Pacific (2009), o cineasta pernambucano Marcelo Pedroso debateu a forma banal como hoje se dá a captação da imagem e lançou olhar sobre a classe média. Para isso, utilizou o registro dos passageiros de um cruzeiro e a forma como desfrutavam dos excessos ali oferecidos. Isso permitiu escancarar um espírito que, naquele contexto, era levado à máxima potência. Neste seu mais recente trabalho, intitulado Por trás da linha de escudos (2017), Pedroso volta a lançar seu interesse sobre um grupo antagônico às suas posições. Assumidamente de esquerda, já tendo militado por causas como a da Ocupação Estelita, no Recife, o cineasta aqui busca abordar o cotidiano dos militares dentro do Batalhão de choque da PM pernambucana. Entre operações, treinamentos, entrevistas e atividades de descontração, a equipe aos poucos se infiltra em um terreno de oposição com intuito de apresentar ao público uma realidade pouco vista no cinema.
Continue lendo “Por trás da linha de escudos: o cinema de riscos”

Construindo Pontes ou Como Nossos Pais

Construindo Pontes (2017) trabalha, essencialmente, ao redor de inúmeras oposições. Dualidades. Homem e mulher, esquerda e direita, pai e filha, e por aí vai. O título, sugestivo às intenções do filme, denota o “exercício de democracia” que Heloísa Passos descreve sua obra por ser. O exercício em questão se dá pela condução do olhar à vida familiar de Heloísa, a sua relação com seu pai Álvaro Passos, engenheiro responsável por obras de estradas e pontes representativas do milagre econômico atribuído ao auge da ditadura civil-militar brasileira. A partir de então se edifica quase um filme de hangout, em que dois personagens de visões de mundo opostas, porém íntimos entre si, pois pai e filha, navegam entre suas falhas de discurso em discussões fadadas à inconclusão. A narrativa do filme, porém, busca alguma espécie de reconciliação, uma ponte, pois a certo nível Heloísa e Álvaro são tornados baluartes de duas definições políticas generalistas, como na cena, mais perto do fim da projeção, em que ambos discutem sobre que lado tomar em direção à autoestrada, ela defendendo a esquerda, ele a direita.
Continue lendo “Construindo Pontes ou Como Nossos Pais”

Tentei: silêncio incendiário

O cinema dos processos, da meditação lenta pela escolha do registro temporal integral, que talvez tenha em Jeanne Dielman (Chantal Akerman, 1975) sua expressão máxima e, consequentemente, trabalhe em um viés bastante feminista, ainda tem presença lacunar no cenário brasileiro. Elon Não Acredita na Morte (Ricardo Alves Júnior, 2016), que foi uma recente incursão de sucesso no “gênero”, funciona sob mecanismos bastante similares a Tentei (2017), curta-metragem de Laís Melo: a narrativa elusiva, a câmera na mão rente ao corpo, e a carga dramática depositada na expressão corporal. Em uma performance de total entrega, Patricia Saravy conduz, pelo poder de seus olhares, um tour de force composto de perturbadoras sugestões.
Continue lendo “Tentei: silêncio incendiário”

Café com canela: afetos e banalidades

O registro em VHS de um aniversário de criança divide espaço com os créditos iniciais de Café com canela (2017), longa de estreia dos diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio. A docilidade das relações ali apresentadas comunga com o registro caloroso de uma câmera corpo em movimentação constante. Mais tarde, o que era registro de vídeo e em formato 4×3, dá espaço para o digital em 16:9. São dois tempos ali apresentados com uma amplitude de pelo menos dez anos entre um e outro. Tais momentos antecipam dois aspectos do longa que bipolarizam a sua experiência: se por um lado os excessos de experimentações intencionais gritam entusiasmo e inevitáveis desordens, por outro seu ímpeto por uma narrativa de cordialidades é de notável honestidade.
Continue lendo “Café com canela: afetos e banalidades”

50º Festival de Brasília: Panorama do I FestUniBrasília

A histórica 50ª edição do Festival de Brasília de Cinema Brasileiro apresentou, em duas sessões matutinas, o inédito Festival de Cinema Universitário de Brasília, exibindo dezenove curtas provindos das principais escolas de cinema do Brasil, fornecendo um panorama das mais diversas sensibilidades em presente ebulição, que apontam a novos horizontes a ser alcançados em futuro próximo na produção nacional. Como astutamente apontado em debate posterior à segunda sessão, a mostra facilmente configura contraponto à exibição, na noite anterior, de Vazante (2017), de Daniela Thomas, filme que rendeu discussão acalorada em todos os cantos do festival, relativa às escolhas narrativas tomadas na representação da escravidão e da negritude em geral. Thomas, cineasta branca, chegou a afirmar em debate que “talvez hoje não faria este filme”, fator sintomático da abertura às complexidades na discussão social na arte, principalmente pelo desafio à posição dos realizadores brancos na retratação da experiência negra. Os filmes universitários, ao contrário, foram amplamente realizados por cineastas negros, que usam ativamente sua voz para tomar a posse do discurso. Não cataloguei em dados exatos, porém é notável que a grande maioria do elenco dos filmes exibidos seja composto por atores negros, algo ainda raro no cinema brasileiro.
Continue lendo “50º Festival de Brasília: Panorama do I FestUniBrasília”