Stay woke: sobre Corra!

Em posfácio à edição mais recente de seu Alegorias do subdesenvolvimento, Ismail Xavier retrospecta as diversas iterações do alegórico ao longo da tradição histórica. Evocando Benjamin ao diagnosticar sua noção moderna, conclui que:

O mundo contemporâneo da mercadoria é de tal natureza em sua força de dissociação, alienação, que a sensibilidade alegórica tem aí um papel revolucionário: encara a crise mascarada pelo otimismo burguês do processo. […] A alegoria moderna monta suas coleções de imagens e leva até o fim a dissociação, o não orgânico, numa imitação perversa, satânica, do estado de coisas, visando exorcizá-lo.”

O cinema fantástico oriundo de estúdios estadunidenses é tido, normalmente, como representativo do citado otimismo burguês, embora, volta e meia, realizadores consigam empurrar, através de frestas, ideias que desafiam o status quo alimentado pela própria máquina da qual participam – Paul Verhoeven e John Carpenter que o digam.  Desta vez, o indivíduo em questão é Jordan Peele, comediante que estreia como roteirista e diretor de cinema com Corra! (Get Out, 2017), alegoria propiciada pelo Zeitgeist em que se resgatam feridas que o senso comum – ou, a mentalidade branca – procura ocultar.

Embora eventualmente a mise-en-scène do filme torne-se refém de suas ideias, elas são incendiárias, envoltas num conceito à Twilight Zone que escancara as últimas fronteiras que o projeto colonizador procura atravessar. Na trama, o fotógrafo Chris (Daniel Kaluuya) parte em viagem com sua namorada Rose (Alison Williams) à casa de campo dos pais dela, um neurologista e uma psiquiatra (Bradley Whitford e Catherine Keener). De antemão, ele a questiona: “Eles sabem que sou negro?” Ela responde que não, com o adendo de que seu pai “votaria no Obama por uma terceira vez, se pudesse.” Peele não representa a tensão racial através do embate de Chris com a típica família conservadora redneck, e sim com os simpáticos white liberals, que se esforçam ao máximo para deixar clara sua consciência social, sua louvável disposição a conviver naturalmente com negros. Ao chegar na propriedade, Chris nota que há algo estranho através do comportamento bizarro apresentado pelos dois empregados (Betty Gabriel e Marcus Henderson), negros como ele. O terror que assola o personagem se dá pela falta de reconhecimento mútuo, um acenar de cabeça que comprove o senso de comunidade entre membros de um grupo oprimido. Além disso, vê-se submetido a uma sessão de hipnose ministrada por sua sogra, sendo paralisado e tendo sua consciência jogada no breu da impotência, manifestado visualmente através de um simples e inventivo efeito visual. A hipótese de que a família efetua lavagens cerebrais e escraviza negros é levantada pelo amigo com o qual Chris mantém contato constante pelo telefone, Rod (Lil Rel Howery). Seu personagem representa não só um elo externo à situação absurda, mas também a veia cômica do filme, que se sobrepõe à dramatização tradicional do gênero do horror.

O manejo de signos que permeiam a experiência constrói uma leitura alegórica que pode ser explicada por Xavier como:

“tentativa de transpor uma distância reconhecida entre o passado e o presente: em geral o diálogo com a tradição é o campo privilegiado dos conflitos de autoridade e legitimidade que se desdobram em estratégias alegóricas como arma de luta (uma nova interpretação instaura uma nova ordem).”

Corra!, de maneira correta, não considera a escravidão como fato histórico, e sim como um ponto em um processo, um fantasma que ainda assombra a sociedade, ressignificado em termos modernos. A branquitude não mais considera a negritude como inferior, mas reconhece seu poder e almeja tê-lo para si. Este projeto culmina em um processo de apagamento cultural, adestramento dos corpos. White minds on black bodies. Chris resiste em nome de uma comunidade.

Objetivamente, Peele demonstra-se um diretor eficiente, tanto em cobertura básica de cenas de diálogo quanto através dos floreios característicos do fantástico. A cena da hipnose, por exemplo, é de extrema economia na união entre contraplanos frontais de diálogo, movimentos sutis de câmera e detalhamento pontual, sem contar a excelente atuação de Kaluuya, ator talentoso que flui com facilidade entre estados de asserção e vulnerabilidade. Outro momento notório é o prólogo, composto em maioria por um plano sequência de alusão clara a clássicos como Halloween (1978), como também comprova a nostálgica trilha musical de Michael Abels. O fator eficiência, porém, prejudica o filme justamente por, eventualmente, assumir por completo uma veia slasher, mais especificamente no terceiro ato. Como dito antes, a veia cômica se sobrepõe ao horror, e não só no roteiro, pois a cobertura básica que Peele aplica acaba remetendo muito mais às ideias explicitadas em texto do que à espacialidade do horror. Não há noção geográfica da propriedade da família, os âmbitos são demasiado fragmentados, o que demarca claramente a cenografia.

Assim, Corra! se limita a apresentar suas ideias para então, de maneira efêmera, seguir o padrão de clímaxes de terror e se concluir respondendo ao mais clássico dos motes do gênero: “ele sobrevive ou não?” Aparentemente há disponível em home video um final alternativo em que Peele oferece, pelo menos, uma conclusão ao pensamento desenvolvido pelo filme. Criticar, porém, não é desejar um filme que não existe ou que poderia ter existido, e sim analisar objetivamente o produto final. Em obras de estúdio, porém, certos fatores extrafílmicos pesam de maneira mais forte. Este filme, por exemplo, ilustra perfeitamente uma problemática que reside cada vez mais forte na disseminação do cinema de massa: a questão do trailer. Imprescindível à tomada de conhecimento do público, o formato tem se atualizado de acordo com as possibilidades de divulgação, sendo o “fator viral” o principal valor a ser alcançado pelas distribuidoras, atualmente, de modo que um eventual público se sinta compelido o suficiente a comparecer à sala de cinema, porém não deixe a sessão sem sentir-se satisfeito por consumir exatamente o que esperava. Esta necessidade leva à banalização do produto fílmico, em trailers que acabam, basicamente, revelando o filme inteiro. Para Corra!, uma obra tão dependente de suas ideias, deixá-las explícitas por completo no material promocional configura demérito para a experiência de assisti-lo completo, visto que dedica tanto tempo à lenta construção de um conceito já saturado previamente.

Dito isto, Corra! permanece um dos mais interessantes lançamentos de estúdio dos últimos anos. E, em termos mercadológicos, é importante atribuir seu sucesso ao interessante formato de produção desenvolvido por Jason Blum (Blumhouse Pictures), concedendo orçamentos baixos e liberdade criativa a realizadores, empreitada que rendeu sucessos estrondosos de bilheteria como as sequências de Atividade Paranormal (Paranormal Activity, 2009), Sobrenatural (Insidious, 2011), e os mais recentes de Shyamalan como A Visita (The Visit, 2015) e Fragmentado (Split, 2017). Corra! custou $4,5 milhões e até agora arrecadou $175 milhões, apenas nos Estados Unidos. Neste embalo, um híbrido alegórico de horror e comédia sobre brancos transplantando seus cérebros a corpos negros pode chegar a inúmeras telas brasileiras e propor um convite, bradado logo nos créditos iniciais pelo refrão da canção “Redbone” de Childish Gambino: “stay woke!”

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