Senhora Fang e a trivialidade da morte

Em seus três planos iniciais, Senhora Fang (Fang Xiu Ying, 2017) apresenta sua personagem título em momentos e espaços distintos, mas o olhar vazio e o corpo que expressa uma inércia quase total são constantes. Daí, o choque: o plano que segue é um close em seu rosto, agora cadavérico. A boca entreaberta e as bochechas esquálidas saltam dentes e ossos e sua face revela nada que não seja a aproximação da morte por uma doença que ainda não é revelada ao espectador. Tal plano se repete em momentos diferentes nos dilacerantes oitenta e seis minutos do documentário que, em uma crueza radical, acompanha o definhar de uma vida ordinária no sul da China.

Fang sofre de Alzheimer há oito anos e a ineficácia do tratamento em um lar de idosos faz com que sua família a leve de volta pra casa para que ali viva seus momentos finais. Ela não fala, mal se mexe e parece não reconhecer os próprios filhos. O diretor Wang Bing (de Dinheiro Amargo), debruça aqui seu interesse não na morte em si, mas talvez em sua espera. Além do que já foi colocado, não há muito a saber sobre a senhora e sua família, o cineasta se detém no tempo. Quanto falta para Fang partir? Esse tempo não tem nada de acelerado, são dias de inação os registrados pela câmera. Quase tudo acontece em torno do leito onde lentamente sucumbe aquela velha mulher. Entre a água pingada às gotas na boca imóvel da protagonista, comentários dos familiares observam a mudança no seu respirar, discutem em qual cemitério ela será enterrada e lamentam a ausência do neto.

Nesta interminável vigília, um dos familiares observa: quando é rápido, é muito rápido, quando é devagar, é muito devagar. A fala chega a render risos isolados entre os espectadores que testemunham o esticado adeus da personagem. Isso entre os que permanecem na sala de cinema. Antes lotada, as poltronas aos poucos vão ficando vagas: os planos elásticos de Bing e seu olhar nada romantizado sobre a morte são fatores que tornam a experiência mais difícil. É duro acompanhar a diluição da vida.

Por isso, Bing também busca fora daquelas paredes atentar para uma natureza que segue. Os homens saem para pescar, jogam e conversam em momentos que não soam necessariamente como oposição à condição de Fang, mas sim como um processo simultâneo. O adeus de um personagem não significa um sofrimento generalizado. Enquanto a morte age, a vida acontece ao redor. Nestes momentos que desviam o olhar da dolorosa situação da protagonista, o filme enfatiza também a questão econômica da China e seus contrastes, algo caro ao cinema de Bing.

Se ao final o inevitável apagar daquela existência provoca o choro da saudade entre alguns, ele também traz a expiração de alívio entre outros: a espera acabou. É natural que se questione a ética das imagens de Bing, de conteúdo tão invasivo sobre uma figura que já não responde mais por si (mesmo que ao final os letreiros apresentem a conivência da família para com a realização do documentário). Ainda assim, em sua dureza que despreza qualquer sentimentalismo, ele atinge o público com uma certeza em prolongada interminável espera. A morte é, antes de tudo, banal.

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