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Se a Rua Beale Falasse, um filme de detenções

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Além de um nome de destaque no atual e necessário movimento de representatividade, o total domínio de cena e a notável direção de atores são marcas inegáveis na ainda breve e louvável cinematografia de Barry Jenkins. Consagrado no Oscar de 2017 com os prêmios de melhor filme e roteiro adaptado pelo potente e sensível Moonlight – Sob a Luz do Luar (2017), o californiano volta a provar seu olhar meticuloso para o cinema de gênero, o romance, em um contexto onde a questão racial tem papel definitivo.

Baseado no romance escrito pelo ícone James Baldwin, cuja obra é marcada pela insurgência à opressão racial norte-americana, Se a Rua Beale falasse (If Beale Streets Could Talk, 2018) narra a história de amor entre jovens amigos de infância. Tish, que vive uma gravidez recém descoberta, e Fonny, preso injustamente por uma suposta tentativa de estupro. Passado durante os anos 60 no Harlem, cenário histórico de manifestações culturais e da luta civil afro-americana, o longa acompanha a árdua jornada do casal em construir sua família numa situação onde a simples condição de ser negro era, e ainda é, motivo de coerção.

Na condução da narrativa, que de cara se apresenta esteticamente indefectível – a influência do cinema de Wong Kar-Wai se repete -, Jenkins investe em uma cadência de certa morosidade poética, perceptível principalmente em movimentos de câmera, expressão de atores (os ótimos Kiki Layne e Stephan James) e trilha musical. Nota-se, contudo, uma predileção em criar momentos emblemáticos, deleitosos em sua plasticidade, pautados em certa inação dos protagonistas. Ainda que haja algum humor e conflitos mais aflorados por parte dos personagens secundários, a delicadeza intencional que marca o casal e a mise en scène apresenta certo esgotamento conforme a projeção se aproxima de seus momentos derradeiros.

E se é certo que a questão racial permeia todo o enredo, seus quadros mais contundentes se resumem a duas passagens: quando Tish revela a forma desrespeitosa como é tratada pelos homens brancos no trabalho e quando o personagem de Brian Tyree Henry expõe seu condicionamento social após um longo período na prisão. Ainda que sejam pontos mais potentes em um quadro, digamos, mais brando, tais episódios se mostram confluentes e em favor da acertada montagem não-linear, que em idas e vindas no tempo apresenta a história de Tish e Fonny com certo ar de memória.

Em uma das cenas iniciais, o espectador observa a expressão hesitante de Tish, prestes a contar à mãe sobre sua gravidez. O rosto exibido em plano aproximado, o olhar dirigido à câmera, a boca entreaberta incapaz de verbalizar qualquer coisa. Reside aí, ao mesmo tempo e pelos mesmos os motivos, ambos a maior virtude e porém deste novo trabalho de Barry Jenkins: o controle milimétrico de cena, que se estende até seu desfecho. Se por um lado a contenção se mostra elegante e garanta uma constante sensação de respiro ao trabalho, a exatidão coreográfica deflagra certa condescendência a um formalismo auto imposto. Desde o tempo que um personagem toma para levar o telefone até o rosto, tudo em Se a Rua Beale falasse se mostra absolutamente sob controle. Pleno de delicadeza e livre de grandes catarses, quando os créditos finais surgem na tela a sensação é de ter testemunhado uma belíssima pausa dramática. De 119 minutos.

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Maurício Vassali

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUC-RS, é graduado em Cinema e Audiovisual pela UFPel. É membro da diretoria da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul na gestão 2018-2020.

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