Sara, o preconceito e o poder

“Sou consciente do meu preconceito”, “Eu sou negra, mas se fizer uma palhaçada, eu sou a primeira a criticar o negro. Olha lá aquilo, só preto que faz aquilo”. Estas são algumas das frases de Sara, uma diarista carioca que trabalhava na casa do diretor do filme O quebra-cabeça de Sara (2017), Allan Ribeiro.

O curta, que levou os prêmios da Accirs (Associação de Críticos de Cinema do RS) e do Canal Brasil na 45ª edição do Festival de Gramado, constituiu-se uma pequena pérola entre os concorrentes. Com apenas dez minutos, uma personagem, um cenário e um tema como guia, conseguiu o que muito longa não alcança: fala de preconceito de raça e gênero, expõe as condições precárias da vida de trabalhadores (Sara comenta com alguém no celular que mais uma vez terá que tomar banho de balde devido à falta de água em casa) e isto através de uma linguagem criativa. O filme prova, também, que é possível produzir algo inovador sem orçamentos polpudos.

No quesito inovação, Allan Ribeiro recorre a planos desconexos, pedaços do corpo de Sara se movimentando nas lides domésticas, com o áudio dela como base. Sem cronologia ou continuidade, enquanto lava pratos, limpa aqui e ali, conversa com os gatos do patrão/diretor, revela o que a incomoda. Sara descobriu que sua filha está namorando uma mulher. Sara, evangélica, não aceita o relacionamento da filha. Consciente de seu preconceito – trabalha paras patrões  gays assumidos, como o próprio diretor –, ela tenta esboçar argumentos para esta não aceitação e só piora as coisas, ao afirmar também preconceito contra negros. Sara é negra.

Em meio a muitos filmes atuais que enfrentam o tema do preconceito de raça e gênero (alguns inclusive na mostra deste ano em Gramado), O quebra-cabeça de Sara vem a ser uma contribuição sui generis, porque ao invés de trazer personagens que sofrem o preconceito, mostra o outro lado, a voz de quem nutre o preconceito; e sem julgamento por parte do filme. Sara, sua simplicidade, seus valores morais, suas conversas com Deus, representam um universo muito maior do que supomos. Entender porque pessoas diferentes de nós pensam diferente de nós parece ser a proposta do filme. Sem discurso, o diretor opta, na forma, por adotar o mesmo pensamento fragmentado da personagem, que reitera estar montando peças da história da filha, e com isso propõe também o seu quebra-cabeça. Uma das peças mais intrigantes talvez esteja na decupagem. Mesmo com uma câmera na mão tributária ao improviso, tem-se a ausência deliberada do rosto da protagonista. Nos dez minutos assistimos partes de Sara, sua voz onipresente, mas não o seu rosto. Seria para dizer que cada um da plateia pode ter a face do preconceito? Seria para poupá-la, para não expor sua face a possíveis detrações, julgamentos? Uma contradição já que o título traz o nome da personagem, mas não lhe dá direito à imagem? Esta  opção, contou o diretor no debate no festival, não passou por algum tipo de acordo com a personagem.

45º Festival de Cinema de Gramado 2017 – Allan Ribeiro, diretor e roteirista do curta-metragem e a atriz Sara Neves durante a exibição do filme, no Palácio dos Festivais. – Crédito Cleiton Thiele / Pressphoto

Allan Ribeiro, em sua frutífera parceria com Douglas Soares, realizou alguns curtas como o premiado O clube (2014)  e os longas Esse amor que nos consome (2012) e Mais do que eu possa me reconhecer (2015). Nesse, sobre o artista plástico Darel Valença, assim como em O quebra-cabeça de Sara, temos como cenário o espaço fechado. A câmera prendendo os personagens no seu mundo. A diferença com Sara, e este detalhe pode mudar todo um rumo de reflexão, é que ela não está na sua casa. Ela é filmada na casa do patrão e tudo o que diz é para a câmera do patrão.

No documentário brasileiro, não podemos mais pensar filmes que trazem esses elementos sem recorrermos a Santiago, de João Moreira Salles. Se naquele documentário de 2007, o patrão subtraiu uma fala de ex-mordomo em que este expunha sua homossexualidade, em “O quebra-cabeça de Sara” Ribeiro nos priva do rosto de sua personagem. São filmes de naturezas díspares, mas não há como não perceber estes pontos em comum. São patrões filmando seus empregados. São relações de classe que, mesmo no afã da proteção, ou o que quer que sejam as intenções dos diretores, dotam a imagem de um parti pris viciado. A cordialidade brasileira pode nublar os vínculos, mas eles estão lá e nos fornecem rico material de estudo. O que torna estes diretores, Salles e Ribeiro, dignos de suas obras, é que não negam os paradoxos. Admitem que são os donos do discurso,  detendo o controle de seus personagens numa dimensão muito além do cinema. E aqui, em se tratando de abordar formas  sutis de poder, poderíamos  entrar com Michel Foucault para juntar teoria à problematização. O que não carece. Os chinelinhos de Sara arrumando-se para deixar a casa e só voltar na outra faxina, são imagens poderosas o suficiente. E não importa se o diretor Ribeiro esteja longe de ser um herdeiro e sua funcionária não tenha a sofisticação de um mordomo. A tensão da classe se impõe a cada plano, com o agravante que a empregada sabe que seu patrão também é homossexual e que suas diatribes contra a nova vida da filha talvez ganhem um filtro por conta disto. Estes elementos, no entanto, não diminuem a força do filme. Servem justamente para problematizar, ou seja, colocar questões para valorizar mais ainda o que já tem valor.

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