Críticas

Rua Cloverfield, 10

Lançado em 2008, Cloverfield: Monstro trouxe de volta para o grande público a estética de gravação amadora e olhar subjetivo, características de filmes como A Bruxa de Blair (1999) e REC (2007). Considerada (inexplicavelmente) notável, na época, a produção apenas construia um suspense relativamente bom com uma tensão razoável. Oito anos depois, ainda com produção de J. J. Abrams, é dado segmento com sua sequência Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield Lane, 2016) em uma história que ocorre em paralelo aos eventos dos ataques de seres extraterrestres da produção anterior e, finalmente, mostrando ao que Cloverfield realmente veio.

As motivações e desenvolvimento deste primeiro filme eram um tanto quanto rasos e seus personagens beiravam ao esquecimento, além muito irritantes. Felizmente, encontramos o oposto em sua continuação. A muito expressiva Mary Elizabeth Winstead (de Scott Pilgrim vs. o Mundo) é Michelle, uma aspirante à estilista que abandona o noivo em uma tarde para pegar a estrada à um lugar que não sabemos bem. No percurso a garota sofre um acidente de carro, acordando dias depois em um bunker onde acredita estar sendo feita prisioneira sem saber dos recentes ataques ao planeta.

Cloverfield-10-1

Desenvolver uma explicação do que acontece a partir deste momento pode entregar a trama e pontos-chave da produção. A melhor maneira de assistir à Rua Cloverfield, 10 é saber o menos possível. Mesmo assim, é bom antecipar que a direção de Dan Trachtenberg é esperta e o roteiro do trio Josh Campbell, Matthew Stuecken, Damien Chazelle ganha muito por deixar de lado a câmera amadora subjetiva e já datada.  No geral, encontramos um ótimo alinhamento entre os seus aspectos técnicos e narrativos. Se a trilha sonora se torna exagerada em alguns momentos, a interpretação não é nenhum pouco afetada. John Goodman interpretando o instável Howard, dono do bunker, é de uma intensidade impressionante em cena.

cloverfield3-xlarge

Se valendo de comparações entre micro e macro espaço, o fechado e o amplamente aberto,  Trachtenberg constrói seu filme claustrofóbico sabendo que toda a história de invasores e reféns vai bem além de um engenhoca alienígena, servindo, como em muitos casos, de mais uma metáfora. Os momentos de maior impacto são exatamente aqueles que não residem grandes explosões ou raças desconhecidas, mas sim a dualidade e complexidade do ser humano, que é colocada à prova constantemente. Para coroar com perfeição, finalmente são apresentadas motivações dos personagens de forma mais verossímeis, se comparadas com a do primeiro filme. Se o protagonista anterior parecia exageradamente romântico e pollyanesco, tendo como impulso maior o amor por uma garota e ir ao seu encontro em meio aos ataques, aqui em Rua Cloverfield, 10 os realizadores focam em questões relativas a abusos, sobrevivência e liberdade, conceitos e motivações que são muito mais maduros. Maturidade é a palavra que melhor define esse mais novo passo de uma hipotética futura trilogia ou saga Cloverfield.

Renato Cabral

Graduado em Cinema e Animação pela UFPel, é membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS) e editor-chefe do Calvero.

Você talvez goste também...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *