Críticas

Rocketman: Dispositivo inocente

// 18 de junho de 2019 // , , , ,

Do centralismo obsessivo e quase messiânico de Martin Scorsese em O Lobo de Wall Street (2013) ao embalsamamento panegírico de F. Gary Gray em Straight Outta Compton (2015), os filmes americanos contemporâneos de viagem ao inferno cada vez mais buscam centrar-se em um movimento operístico que possa servir de muleta ou artifício como enfeite do jogo narrativo. Ou seja: há, na maioria das vezes, uma linhagem narrativa previamente traçada – que passa pela pirâmide da ascensão, queda e recuperação – assim como há um esforço muito evidente para diferenciar cada um dos produtos desse star system através das distintas abordagens que os mesmos supõem proporcionar a determinados públicos. Dessa forma, parece mais justo abordar Rocketman (2019) como um filme que não necessariamente se propõe a desvirtuar qualquer ordem natural da indústria americana, mas sim partir de seu virtuosismo esforçado em maquiar ao máximo as rédeas a que está preso.

 

Especialmente por isso, torna-se necessário pensar na produção, primeiro, como um filme de purgatório – a jornada maniqueísta que divide o bem do mal. Para Elton John, nascido Reginald Dwight, o purgatório é a reunião de recuperação do Alcóolicos Anônimos, seus diabos são os vícios. Dexter Fletcher, diretor do filme, não faz questão nenhuma de esconder isto – Rocketman abre com um plano do cantor fantasiado de capeta, atravessando uma porta de onde vem uma luz inominável, quase balsâmica. Daí pra frente, Elton John se apresenta durante toda projeção, quase como um filme confessionário. Eis o artífice. Pouco interessa a Fletcher onde Elton vai desembocar, como acaba sua aventura na selva da fama; o que se desenha é justamente essa sinceridade no dispositivo, essa inocência necessária para que, a partir daí, o autor se faça presente na reconstituição de um imaginário (ir)real.

Sendo assim, as opções mais curiosas de Dexter Fletcher passam justamente pelos momentos de catarse do filme: em padrões gerais, não há nada muito distinto das outras biopics de estúdio que o cinema americano tem feito (A Teoria de Tudo [2014], A Garota Dinamarquesa [2015]), mas nos seus momentos de êxtase, o cineasta procura uma espécie de apropriação para o fantasioso. Naquilo que seriam suas cenas mais espetaculosas, Rocketman é quase um musical de insinuação, uma coreografia de purpurina que exala de todos os gestos abruptos, nervosos e pomposos de um Taron Egerton pra lá de esforçado. Se o teórico Gilles Deleuze fala em imagem-tempo, numa espécie de suspensão, Dexter Fletcher acredita fielmente que são esses momentos em que o filme parte para abrir-se num inconveniente de jogo cênico (algo que, numa representação, não seria possível), que reside a grande presença e recompensa do longa.

De certa forma, não há como trabalhar em cima do fato de que não exista esforço para fazer uma representação metonímica de Elton John: Rocketman é, sim, brega. Também é colorido, fantasioso e busca desvirtuar-se de uma representação formal numa mise-en-scène metálica estigmatizante. Mas, afinal de contas, não é um filme mais ou menos espirituoso por ser fidedigno ou formal ao artista retratado. Mesmo que sua crença recaia nessa imagem suspendida, nessa representação cênica musical desordenada (onde tudo pode acontecer dentro do quadro), ainda há muita representação esparsa, comedida e protocolar.

Não é necessariamente um filme que acredite em esvair-se o tempo inteiro, é muito mais um filme que procura firmar-se por meio dos pequenos delitos extravagantes que comete. Desse modo, é ainda mais evidente a fantasia que parece calcar no seu dispositivo protocolar. Desde as mudanças repentinas no figurino de Elton John enquanto narra suas experiências no AA até mesmo os momentos em que o filme muda a atmosfera luminosa na tentativa de representar a opressão ou o desconforto. O artífice do dispositivo torna-se mesmo enfadonho. Se há algo que está revelado, que o filme vai tratar-se de um grande flashback das conquistas e perdas de Elton, pouco a pouco Dexter Fletcher revela também em tela uma obviedade muito clara de seus procedimentos – até mesmo os que poderiam ser mais encantadores. Que Elton John voe quando toca piano, em uma cena que seria o ápice de sua apresentação, é mais um encanto protocolar que realmente uma imagem sendo domada, esmiuçada, refletida. O mal de Rocketman é justamente esse, a inocência no processo – revelar um dispositivo que não se sustenta, de um encanto muito passageiro.

Se A Mula (2018), de Clint Eastwood, e Vidro (2019), de M. Night Shyamalan, são os filmes americanos de estúdio desse ano que mais se propõem a essa abertura do dispositivo e da decupagem (o primeiro revelando um quadro de aura crepuscular, em que o grafismo da violência se reflete no tato da pelo tanto quanto a luz do sol e o cinza da tempestade servem de temperamento; o segundo como exercício de aceitação, onde coloca a presença da fé no diálogo direto com o quadro, filmando a ação e o gênero com leveza assumida), Rocketman é muito mais uma obra que prefere assumir seus artifícios para abster-se do incômodo narrativo.

Assumidamente, é um filme que opta muito mais pela fantasia (o ato de tapar-se, trocar de identidade, juntar adereços) que pelo fantasioso. Em meio aos adereços que Reginald Dwight – que assumiu a fantasia de Elton John para o resto da vida – veste ao longo da projeção, nenhuma, talvez, seja tão evidente ou transparente quanto aquele capeta laranja do início de projeção. O que o diabo revela em Elton, afinal, é o que filme se remói para traduzir o tempo todo: vai ao purgatório quem busca recuperação, necessita de salvamento, quem perdeu-se no meio de algum caminho. Mas o que Dexter Fletcher esquece que revela é algo que a luz quase deleuziana que acompanha Taron Egerton enquanto espanca a porta já nos mostra a muito tempo: nenhuma imagem é etérea para caber na inocência.

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