Rifle: alvo em movimento

Na articulação cinematográfica há certas regras de etiqueta que se assumem sem precisar ser ditas, normas assimiladas a um glossário de conhecimentos prévios necessários à execução da tarefa de realizar um filme, passíveis a ser seguidas ou subvertidas. Sabe-se, por exemplo, que a cartela com o título da obra a antecede. Se, porventura, um trecho do filme ocorrer antes ao título, tal caracteriza-se como um prólogo, assim como na literatura, em que pode-se prenunciar o teor do discurso a se desenvolver, evidenciando elementos-chave à sua compreensão. No cinema, o posicionar do título sucedendo a um prólogo coloca sua retórica em xeque, podendo-se potencializar através do contraste com a cena o seu sentido transmitido pelo verbo. O prólogo de Rifle (2016), segundo longa-metragem de Davi Pretto, sintetiza em ações aparentemente simples as angústias que vêm a permear seus mecanismos. Somos introduzidos ao protagonista, Dione (Dione Ávila de Oliveira), enquanto apaga a faca mensagens gravadas em árvores. Em seguida, em seu caminhar moroso (um carro passa ao fundo, estabelecendo a proximidade da rodovia), se depara com um carro detonado, já parte da paisagem de um pequeno bosque. Cut to black. Título do filme. O opor da imagem de um automóvel à palavra “rifle” como ponto de corte inaugura um questionamento que lentamente se desenvolve através da projeção, em que se essencializa a figura do carro como alegoria ao progresso entre aspas, à intromissão do meio urbano nos espaços rurais.

Ainda na questão dos prólogos, é interessante comparar, entre Castanha (2014), seu longa anterior, e Rifle, a maneira como Davi Pretto escolhe inaugurar suas obras. Se em Castanha, o plano da fuga ensanguentada do personagem titular indica uma verve incendiária, que se resguarda ao subtexto com o prosseguir da projeção, em Rifle, a abertura calma, aparentemente trivial, desprepara o espectador para o desenrolar explosivo de seus conceitos. O filme acompanha Dione, namorado de Andressa (Andressa Nogueira Goularte), filha de um pequeno proprietário de terra nos pampas gaúchos (Evaristo Pimentel Goularte). Conhecemos um pouco de seu cotidiano, resumido em ajudar o sogro, jogar cartas tomando mate à noite, e assistir a uma televisão porcamente sintonizada com Andressa. A morosidade convida ao diagnóstico detalhado dos arredores, e o observar distante de Dione se materializa na forma do filme, em que se veem carros passando à distância, também prenunciando acontecimentos futuros. A caminhonete 4×4, veículo imponente, penetra os pampas com velocidade, dela emergindo um senhor de blazer e jeans que anuncia a Dione a intenção de comprar as terras do sogro, incidente incitante que demarca o conflito principal a ser retratado.

Dione é um personagem enigmático, de expressão apática, que constantemente se refugia na floresta para refletir sobre sabe-se lá o quê. O que nos é permitido saber sobre ele vem através de diálogos pontuais que contextualizam suas posições e estabelecem seu passado na artilharia. Caracteriza-se quase como uma tabula rasa onde o espectador pode inserir particularidades subjetivas. Em uma cena específica, em que discute com Andressa a possibilidade da venda da propriedade, mostra-se contra uma eventual mudança à cidade. “Com o tempo vocês vão ver. No começo […] vocês chegam lá, tudo é bom. Mas o tempo vai passando e vocês vão vendo que não podem ter tudo o que vocês querem”, argumenta. Este sintoma da vida urbana contra o qual protesta se manifesta nos carros que lentamente invadem seu espaço, seja a caminhonete do empresário ou os golzinhos de casais que estacionam nos bosques para namorar ao som de sertanejo universitário.

Igualmente personagem no filme é o rifle titular. Sua figura é introduzida no filme através de um longo plano em que Dione o retira de trás de vários objetos, abnegando de movimentos de câmera para revelar, com igual impacto, um objeto de grandeza simbólica. Uma apresentação digna de personagem. Seu atrelamento a Dione acompanha seu progressivo revide violento à invasão, culminando na cena em que derruba a tiro vários carros em movimento, à qual retornaremos em breve. Parte-se do político para diagnosticar os motivos pessoais de Dione, pois essa resistência violenta se mantém em nome não só de um espaço, mas de uma cultura.

Rifle é mais um filme da nova safra gaúcha a alcançar projeção internacional, mais especificamente por sua exibição no Festival de Berlim, evento que também recebeu recentemente os distintamente gaúchos Beira-Mar (Felipe Matzembacher e Marcio Reolon, 2015) e Mulher do Pai (Cristiane Oliveira, 2016), além do próprio Castanha, de Pretto. O ser distintamente gaúcho refere-se principalmente à fala, ao sotaque carregado que embala e diferencia as conversas e as “enfeita” com jargões regionalistas. Rifle, porém, vai além, ao construir uma fábula específica à condição geoclimática e cultural do interior riograndense. Há inclusive a menção à troca de demanda, sendo o plantio de soja, em substituição à criação de gado, o motivo principal do fluxo de novos proprietários. A fotografia de Glauco Firpo, suntuosa em seus quadros largos e melancólica em sua luz nublada, imprime às paisagens uma misticidade, em que constantemente se veem os humanos de corpo inteiro, pequenos em relação ao que os rodeia. As imagens de ambientes internos, no entanto, apresentam-se cinzentas, feias, o que por contraponto embeleza mais ainda os planos externos, justificando visualmente o apego de Dione à área.

É importante notar que Rifle se posiciona em uma espécie de limbo temporal, em que ainda há resquícios de uma realidade rural “sem lei” ao mesmo tempo em que os costumes urbanos adentram a calmaria. Desde seus primeiros momentos, se estabelece uma figura mítica em Mariano, representando o medo do crime pelo qual os pequenos agricultores passam, um cruel ladrão de gado já desaparecido após assassinatos atribuídos a ele. Essa contextualização um pouco mais abrangente do ruralismo se dá no terço final, quando Dione percorre a esmo, em fuga após cometer seu crime. Dione encontra um barraco onde se abrigar, cujo dono acaba sendo Mariano (Francisco Fabrício Dutra dos Santos), já velho e propenso à rememoração, que o acolhe e inclusive oferece a possibilidade de instruí-lo nas artimanhas necessárias à arte da reapropriação. Dione invade um casarão, aparentemente a orientação de Mariano, e, ao retorno, o encontra quase morto, com um tiro no peito, exatamente sobre uma cicatriz que mostrou ao protagonista anteriormente. Esta quebra, fabulesca em sua execução, conduz Dione a sua última parada, uma tentativa de reconstituição de seus laços familiares.

À altura dos vinte minutos finais de Rifle, a narrativa transcende a égide da articulação política e conclui uma espécie de humanização da figura de Dione, antes puro símbolo. Ele localiza sua irmã, trabalhando na noite em um inferninho típico do interior, e com ela se reencontra, ambos atualizando-se entre si. Aqui se estabelece que Dione sofreu um acidente de carro em serviço na artilharia, e foi dispensado sem auxílio, além do fato da mãe de ambos estar viva, e sem contato. Tendo-se dito o necessário, o filme, de maneira atrapalhada, encontra sua conclusão. Para contextualizá-la, primeiramente devemos retornar à sistemática na qual a jornada de Dione se edificou.

Até então, tanto direção quanto montagem (Bruno Carboni) conduzem o espectador através de certas situações encenadas com paciência. No próprio prólogo, não vemos planos curtos de mensagens sendo apagadas, acompanhamos a atividade por inteiro, até Dione abaixar a faca. O acompanhamos em seu lento caminhar, com lentos movimentos de câmera condizentes. Na pièce de résistance do filme, a sequência do atirar nos carros, pacientemente estudamos e aguardamos a passagem dos carros com Dione. Aqui, fotografia, montagem e som (Tiago Bello e Marcos Lopes) alcançam sincronia perfeita. E, inclusive, atuação. A esta sequência o temperamento e a apatia de Dione caem como uma luva, fornecendo uma experiência suspensória em que não se compreende e não se tentam compreender motivos ou anseios. A forma do filme, no geral, assume o temperamento e a subjetividade de Dione. Pode-se argumentar que o mesmo também se diz verdade à morosidade do âmbito rural, mas planos como a ilusão de um carro em chamas comprovam que Dione é a perspectiva principal a se considerar. Sua condição de avatar ideológico não permite nem aos próprios roteiristas a conclusão de um suposto arco de personagem. Dito e feito, Rifle termina de maneira inconclusiva, não de maneira intencional, porém pelo que o jargão define como writing yourself into a corner (“escrever um beco sem saída”, em tradução livre). Ao manter um caráter tão observativo (desde a concepção) ao mesmo tempo em que se abordam situações de maneira subjetiva, o espectador adquire uma posição diante da figura humana representada. Ao terceiro ato, reverter o discurso de volta ao individual configura uma quebra no fluxo de pensamento do filme.

A irmã de Dione retorna ao bar, enquanto ele a aguarda do lado de fora. Ele decide dar uma volta no prédio e encontra a 4×4 do propenso comprador. Cut to black. Ao fundo dos créditos, sons de um carro sendo vandalizado. É interessante notar que, de certa forma, o filme atinge um círculo, começando (carro detonado) e terminando (carro a ser detonado) com imagens conexas. Indicativo de, querendo ou não, uma noção de conjunto completa, um intuito prévio de terminar o filme desta forma. Por quê? O contraste entre o plano do carro destruído e o título do filme, em retrocesso, denota e estabelece as duas ideias principais do filme: o carro-progresso e o rifle-resistência. Qual seria o intuito da escolha do plano final? Se o discurso realmente norteou-se por uma crescente humanização do personagem, por que reduzir seu único momento de explosão humana, justificada em lógica de universo fílmico, a um efeito sonoro a ser executado enquanto as primeiras pessoas começam a levantar das cadeiras? Sempre pode-se argumentar que o inconclusivo se basta. Porém, se existe uma conexão conceitual entre primeira e última cenas, julgo mais fácil entendê-la como uma gênese e um esvaziamento das próprias ideias.   

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *