Críticas

Refn e o demônio da moda

“Beauty isn’t everything. It’s the only thing.”
(A beleza não é tudo. É a única coisa.)

É assim que temos a visão de Nicolas Winding Refn sobre beleza e a indústria de moda. O Demônio Neon (The Neon Demon, 2016) é para o diretor, e também roteirista, o que Mapas para as Estrelas (Maps to the Stars, 2014) foi para David Cronenberg; uma chance de discutir Hollywood, a cultura de celebridades, e as pessoas belas por fora, mas feias por dentro.

Refn dirigiu os cultuados Drive (2011) e Só Deus Perdoa (Only God Forgives, 2013), e é conhecido por realizar trabalhos esteticamente belos. Sendo um filme sobre as aparências e superficialidade, mesmo a maioria delas sendo falsas ou manipuladas, O Demônio Neon naturalmente se destaca visualmente. Em um trabalho sobre moda e seu elitismo, Refn não economizou em iluminação e maquiagem. Não há nenhuma cena em que não tenha uma composição. Até sem fortes luzes ou o próprio neon, cenas comuns como o caminho de alguém até um carro, contém a presença de detalhes como o pôr-do-sol, que dão ao filme uma atmosfera quase onírica.

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A história básica é sobre uma adolescente de 16 anos, Jesse (Elle Fanning), que se muda para Los Angeles em busca de uma carreira como modelo. Sua beleza natural atrai dezenas de profissionais na indústria da moda e cabe a ela sozinha, sem família alguma, julgar qual caminho tomar para o estrelato. Com rápido sucesso, Jesse logo percebe o quão doentia é a obsessão da sociedade pela beleza exterior. Fanning está excelente interpretando inicialmente uma Jesse inocente e dócil, mas por fim madura e fria. O resto do elenco, composto por nomes como Christina Hendricks, Keanu Reeves e Jena Malone, também cumpre bem sua função ao cercar Jesse com dúvida, receio e um leve desejo, além da inveja desse mundo da moda aparentemente tão atraente.

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O simbolismo de Refn, como em Só Deus Perdoa, nunca foi o seu forte, e em O Demônio Neon isso se confirma. É tudo meio óbvio. São animais selvagens representando a forte persona de Jesse em desenvolvimento e o canibalismo – isso mesmo – como uma forma de absorver poderes de alguém “mais forte.” O filme demora um tanto a mostrar algo de fato único, mas a forma como Refn lida com alguns aspectos da obsessão da sociedade pela moda funciona tão bem que a produção acaba sendo rápida e instigante, apesar das quase duas horas de duração. A obsessão pela beleza (e a carne) é tanta que a obra apresenta até mesmo uma cena de necrofilia. Graças à ela, a produção se tornou um dos filmes mais comentados no festival de Cannes. Apesar de bem feita, ela não acrescenta nada em particular ao filme. O canibalismo, em comparação, é bem mais relevante. A parceria de Refn com seu compositor favorito Cliff Martinez é reprisada e temos uma trilha sonora fantástica, cheia de sons eletrônicos e ritmos tensos que se encaixa perfeitamente a mundo da moda e seu crescente senso de ansiedade.

Por fim, a produção aparenta ser superficial, mas se esforça para esconder suas inseguranças, assim como nós, e acaba cumprindo seu dever através de uma impressionante crítica e reflexão social visualmente hipnótica.

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