Para aqueles que já estão acostumados a lidar com narrativas LGBT nas telas, Rafiki (2018) pode parecer apenas mais uma. O aumento da visibilidade dessas narrativas é um fato, no entanto, o protagonismo lésbico é um ínfima parte desses números, e ainda mais raros são os filmes que não objetifiquem o corpo feminino ou fetichizem o relacionamento entre duas mulheres. Dessa forma, Rafiki não é só importante por sua representatividade, mas também por sua sensibilidade em adentrar esse universo.

Em 2018, o longa estreou em Cannes na sessão Um Certo Olhar, já fazendo história por ser o primeiro filme queniano selecionado pelo Festival. No entanto, sofreu sérias repressões em seu país de origem. A República do Quênia é um dos países que ainda criminaliza as relações homoafetivas, com penas que chegam a até 14 anos de prisão. Em uma tentativa de tornar o filme elegível para pré-indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, a diretora, Wanuri Kahiu, conseguiu que o filme fosse exibido por sete dias, a indicação, porém, acabou não acontecendo. Depois disso o filme teve sua exibição proibida no país. No Brasil, o filme teve circulação no circuito independente, ficando um mês em cartaz na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, entre agosto e setembro de 2019, algo também inédito para uma produção queniana.

Rafiki retrata o início do relacionamento entre Ziki (Sheila Munyiva) e Kena (Samantha Mugatsia), duas quenianas que moram na mesma comunidade, filhas de rivais políticos. O romance entre as protagonistas é apresentado de forma doce e aconchegante. Essa sensibilidade é construída, principalmente, pela direção feminina de Wanuri Kahiu, que é perspicaz em suas escolhas estéticas, no que decide revelar e omitir.

Kena é resignada, comedida e sensível, Ziki é enérgica, impulsiva e indomável. A atração entre as duas é pujante, sustentada pelos olhares. Quando estão em público, as palavras não ditas comunicam mais que aquelas que são de fato pronunciadas, o subentendido é o que interessa. Quando sozinhas, o contrário acontece, nenhuma palavra é contida, o que impera é o conforto da compreensão mútua. Há uma suspensão da linearidade dos planos em seus momentos a sós, gerando uma sensação de infinitude, de deter o domínio sobre o tempo. Esse recurso é fundamental para trazer docilidade para a cena onde elas têm sua primeira relação sexual.

O fio condutor é a relação entre as duas, mas as temáticas que o permeiam vão muito além do romance. O longa é composto por diversas contraposições que a todo momento coloca o espectador em xeque. Enquanto Kena possui um visual mais “masculinizado”, Ziki esbanja o estereótipo da feminilidade, porém, ambas as personagens transcendem as barreiras da aparência. Kena joga futebol com os caras, anda de skate e tem aversão a vestidos, enquanto cuida da mãe, ajuda o pai na loja e estuda para entrar para a universidade. Ziki dança com as amigas na rua, exibindo seus dreads multicoloridos enquanto sonha em viajar e teme ficar presa a um marido como uma típica garota queniana.

A relação do filme e das personagens com o próprio País é uma importante força narrativa. Há um contraste intenso entre dois sentimentos: o de orgulho por pertencer àquela terra e o de pesar diante do conservadorismo entranhado na sociedade. O Quênia que nos é revelado na abertura é vibrante e efusivo, lugar onde tradição e modernidade andam juntas. A música pop, os planos da Kena andando de skate, as colagens compondo os créditos, e a câmera que passeia pelas ruas da comunidade traduzem essa efervescência, passando longe dos estereótipos ocidentais de África. Assim como Ziki, o filme parece querer ir para os países que nunca viram um africano e dizer “Eu estou aqui, sou uma queniana, da África”. Ao transcorrer da trama, porém, nos salta aos olhos o machismo e a homofobia fortemente marcados nos discursos e ações dos demais personagens. Nesses momentos, a sensação de desconforto que abala as expressões sempre controladas de Kena, nos atingem com potência. A progressão das fofocas de bairro para um linchamento revela a facilidade com que os discursos de ódio se transformam em violência física, ainda mais em um país onde a homossexualidade é considerada um crime. A fotografia é fundamental para essa dualidade, partindo de uma estética cálida e acolhedora como o se apaixonar para então se mostrar dura e escura como a realidade que desvenda.

No que diz respeito à construção dos personagens há uma predileção pela dualidade, algum tipo de conflito que, salvo algumas exceções, traz profundidade também aos coadjuvantes. A mãe de Kena (Nini Wacera) condena prontamente a filha por sua sexualidade, mas sofre ao encarar sozinha a vizinhança machista que a culpa por ser abandonada pelo marido, se escondendo em uma religiosidade resignada para conseguir suportar. O pai (Jimmi Gathu) se posiciona para enfrentar as pessoas que violentam sua filha, mas permanece omisso diante do tratamento delas em relação à ex-esposa. Blacksta (Neville Misati) incomoda com seus discursos misóginos, mas é a âncora de Kena em seu momento de maior fragilidade.

Rafiki levanta questões importantíssimas não só para países como o Quênia, que lidam com a homofobia e conservadorismo há décadas e só agora conseguiram começar a colocar tais questões em pauta, mas também para países como o Brasil, que após tantas conquistas, começaram a andar para trás nos debates acerca da liberdade e da tolerância. Enquanto obra, é um filme de resistência: das mulheres frente ao machismo, da comunidade LGBT frente à intolerância e das narrativas africanas frente à visão ocidental de África.