Projeto Flórida: Da falência dos sonhos

Orlando. Um casal em lua de mel desembarca no baratíssimo motel Magic Castle, tendo confundido-o com o Magic Kingdom da Disney no momento de fazer a reserva. A esposa, brasileira, não entende inglês, e se desespera diante da ralé, esbravejando ao marido: “Isso aqui é uma favela? É o projeto?”. Interessante que Projeto Flórida (2017) empenhado em diagnosticar um “estado das coisas” do neoliberalismo estadunidense (remetendo ao recente Docinho da América, 2016, de Andrea Arnold), pincele questões de classe análogas a nossa própria situação sociopolítica, ainda mais especificamente pelo retrato da pobreza através da perspectiva infantil. Em tempos de “protejam nossas crianças”, o filme se apropria de uma iconografia lúdica, imediatamente associável à famigerada “fábrica de sonhos”, e a desvirtua, profana, como se questionasse: nós sabemos exatamente do que protegê-las?

O filme se passa nos arredores do Magic Castle, um universo pitoresco repleto de prédios excêntricos, um amontoado de lojas de armamento e cadeias de fast food filmado em planos gerais que pinta Orlando como uma espécie de oásis da classe média. Vistas de longe, minúsculas diante do reino do consumo, caminham as crianças da pequena trupe de Moonee (Brooklynn Kimberly Prince, um achado), uma garota enérgica de seis anos ainda incapaz de compreender a dimensão de sua situação social, porém já endurecida desde cedo ㅡ ela pede dinheiro no quiosque de sorvete para poder comprar uma única casquinha a ser dividida entre seus amigos, além de ser encarregada de buscar restos de comida da lanchonete onde a amiga de sua mãe trabalha. Moonee lidera naturalmente sua turma, aprontando por todos os lados e proferindo um vocabulário robusto de palavrões, cabendo ao gerente, Danny (Willem Dafoe, excelente), policiar suas peripécias e até protegê-los de um pedófilo local, antecipando sua crescente participação na criação dessas crianças ao longo do filme. O motel acaba representando uma espécie de galeria de renegados da contemporaneidade estadunidense, devidamente apresentada a nós por Moonee, que em certo momento descreve cada quarto para Jancey (Valeria Cotto), sua nova amiga, apontando coisas como: “o cara que mora aqui é preso várias vezes… a moça daqui acha que é casada com Jesus.”

No centro da situação alarmante está Halley (Bria Vinaite), a jovem mãe de Moonee, caracterizada como um moderno arquétipo da garota white trash pós-Instagram, uma stripper recém demitida que consome exclusivamente música trap, tira selfies de biquíni com a filha e filma barracos gritando “Worldstaaaar!”. O diretor, Sean Baker, faz de Halley menos um personagem e mais um símbolo, quase como um mea culpa pela cada vez mais crescente prática de fetichização da cultura negra pelos brancos. Basta passar pelas paradas de sucesso e notar fenômenos como Bhad Bhabie, uma jovem rapper que emula todos os estereótipos negativos associados às mulheres negras, exatamente o comportamento que Halley demonstra em Projeto Flórida. Seu senso de entitlement, muito próprio dos brancos estadunidenses, é contraposto por sua amiga de descendência latina, Ashley (Mela Murder), a vizinha de baixo que trabalha na lanchonete. As duas saem juntas para festas e fumam maconha à beira da piscina, mas apenas Ashley sabe equilibrar suas pulsões boêmias com a responsabilidade de criar seu filho, Dicky (Aiden Malik).

A sequência que demarca uma quebra em diversos níveis da narrativa se passa num condomínio de casas de classe média abandonadas. Moonee, Dicky e Jancey exploram ruínas perfeitamente habitáveis, fabulando sobre suas vidas se morassem em cada casa. E então, num impulso rebelde e inadvertidamente político, eles começam a quebrar peças de mobília que encontram, até que Moonee os convence a queimar um travesseiro que acaba provocando um incêndio de grandes proporções. Ashley corta relações com Halley e proíbe Dicky de brincar com Moonee, o que desencadeia uma espiral de decadência que o próprio filme assimila, desviando cada vez mais seu olhar para as questões dos adultos na trama, às quais Moonee e seus amigos só podem observar. A cena em que Halley espanca Ashley brutalmente é filmada de trás das costas de Dicky, em foco superficial, o que torna todas as implicações ainda mais devastadoras.

Mérito das lentes anamórficas de Alexis Zabé (fotógrafo dos filmes mais recentes de Carlos Reygadas), que registram o mundo de Moonee com o deslumbre juvenil característico das primeiras idades. São crianças em constante formação e descoberta, afetadas diretamente pelo ambiente em que habitam. Um helicóptero que constantemente sobrevoa os arredores, uma ponte improvisada de madeira que conecta um motel ao outro, as mesas de piquenique onde as crianças se reúnem: trata-se de um universo muito palpável, composto com maestria e complementado pelas astutas escalações de elenco. Baker é um dos maiores expoentes do cinema independente estadunidense, e isso se deve bastante a seu trabalho com atores (me abstenho de lançar mão da expressão “não-atores”), sabendo apropriar-se das excentricidades de suas performances para compôr um regime dramático de naturalismo raro, em total consonância com uma cultura muito imediatamente contemporânea.

É impossível não tratar diretamente da sequência final de Projeto Flórida ao refletir sobre suas sugestões. Halley recorre à prostituição, atendendo clientes no quarto enquanto deixa Moonee trancada no banheiro, o que rende uma denúncia ao conselho tutelar. Prestes a ser levada embora, Moonee consegue fugir até o motel vizinho onde mora Jancey. Ao se despedir da amiga, desata a chorar, desmantelando por completo a fachada dura e impositiva que desenvolveu até então. De repente, lembramos tratar-se de uma criança muito nova. E então, o registro em película 35mm dá lugar a imagens de celular enquanto Jancey a conduz, ao som de uma música triunfante, ao parque da Disney, uma solução cinematográfica que funciona em diversas vertentes: tanto permite que o filme apresente imagens do icônico castelo (já que a empresa é muito estrita em relação a autorizações de filmagem em sua propriedade), quanto imprime outra textura a uma sequência lúdica e esperançosa, mas inevitavelmente imaginária. O abandono de uma parcela de crianças enquanto, logo ao lado, outra parcela pode usufruir do privilégio da inocência, é uma contradição flagrante que assola nossa sociedade como um todo. Projeto Flórida escolhe dar luz a essas crianças abandonadas que, diante das adversidades, não esquecem de sorrir e de se divertir, porém sem nunca cair numa romantização de sua pobreza. Ainda há muito o que debater, mas por enquanto o que resta a crianças como Moonee é assistir aos fogos de artifício bem de longe, como uma promessa que dificilmente pode ser cumprida.

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