Precisamos ler sobre Kubrick

As entrevistas concedidas por Kubrick podiam ser chamadas de raridades. Recluso e excêntrico, foram poucos os momentos em que o cineasta americano se mostrava receptivo em abordar sua filmografia e processo de criação. Não é à toa que Kubrick (Michel Ciment, trad. Eloisa Araújo Ribeiro, 2017, 370p.), lançado anteriormente pela Cosac Naify e agora relançado em outra belíssima edição pela editora Ubu, é um exemplar que se detém mais em depoimentos de profissionais próximos do cineasta do que declarações do próprio. Mas assim é de um rigor e primor que avança até mesmo abrangendo sua última realização, o excepcional De Olhos Bem Fechados (1999), o qual o diretor faleceu antes de assistir finalizado.

Apesar da dificuldade em conceder entrevistas, a voz do realizador está lá em conversas raras sobre Laranja Mecânica (1971), Barry Lyndon (1975) e O Iluminado (1980). São todas muito bem conduzidas pelo multifacetado Michel Ciment, o conhecido jornalista, professor e crítico da conceituada revista francesa Positif.

Enigmático e cultuado, Kubrick é fonte de diversas publicações que auxiliam os cinéfilos na compreensão da linguagem e temas de suas treze obras em longa-metragem e que moldaram boa parte da história do cinema moderno. A estrangeira Taschen já explorou materiais a respeito dos filmes do diretor com escritos por Alison Castle, incluindo um exemplar chamado The Stanley Kubrick Archives e Napoléon – The Gratest Movie Never Made, este último focado no finado projeto engavetado por Kubrick sobre o militar francês que a MGM encerrou por acreditar que não conseguiria financiá-lo após o fiasco de Waterloo (1970), de Sergei Bondarchuk.

No amontoado de publicações a respeito e a sede de capitalizar em cima de uma figura tão imponente e reconhecida, são poucas as vezes que materiais se aprofundam de maneira tão excepcional. Muitas acabam se tornando superficiais e previsíveis em suas análises. O relançamento da Ubu não é um desses casos, já que se destaca pela qualidade do seu texto e retomada de um conteúdo riquíssimo, tornando-o um livro essencial na estante de quem se interessa não somente pelo cineasta, mas pela sétima arte. A escrita de Ciment possui uma capacidade investigativa que caminha pelos depoimentos dos entrevistados até, mesmo que brevemente, por uma consistente introdução sobre cada um dos filmes analisados. As entrevistas com Kubrick esmiúçam elementos, referências e intenções de seus filmes e mostram um realizador atento à literatura, música e artes plásticas.

Dentre tantos destaques de Kubrick, está um prefácio memorável escrito por ninguém menos que o cineasta Martin Scorsese em 2002. O diretor de outras tantas obras importantes da história do cinema como Taxi Driver (1976) e Os Bons Companheiros (1990), escreve com a afeição e entusiasmo de um fã sobre o trabalho de Stanley Kubrick, chamando-o de “mestre moderno”. Scorsese ainda desenvolve a tocante ideia de que seu colega era um visionário, e visionários incomodavam, pois costumavam dizer a verdade a respeito da vida.

Essencial para quem já está familiarizado com algumas das obras e características do realizador e sua genialidade, Kubrick ainda possui um belíssimo projeto gráfico. Uma marca da Ubu esse cuidado com a finalização de seus livros. Kubrick contou com a criação da designer Flávia Castanheira, que também realizava projetos para a Cosac Naify. Segundo Florencia Ferrari, sócia-diretora da Ubu, Castanheira buscou com o layout transmitir o impacto, rigor e precisão do cineasta.

Longe de dar por encerrada suas publicações voltadas aos cinéfilos e pesquisadores da sétima arte, a Ubu deverá relançar em breve mais um livro do antigo acervo da Cosac, o essencial O que é o Cinema?, de André Bazin, esgotado recentemente. Os cinéfilos vibram!

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