Por trás da linha de escudos: o cinema de riscos

Em 2009, ao lançar o documentário Pacific (2009), o cineasta pernambucano Marcelo Pedroso debateu a forma banal como hoje se dá a captação da imagem e lançou olhar sobre a classe média. Para isso, utilizou o registro dos passageiros de um cruzeiro e a forma como desfrutavam dos excessos ali oferecidos. Isso permitiu escancarar um espírito que, naquele contexto, era levado à máxima potência. Neste seu mais recente trabalho, intitulado Por trás da linha de escudos (2017), Pedroso volta a lançar seu interesse sobre um grupo antagônico às suas posições. Assumidamente de esquerda, já tendo militado por causas como a da Ocupação Estelita, no Recife, o cineasta aqui busca abordar o cotidiano dos militares dentro do Batalhão de choque da PM pernambucana. Entre operações, treinamentos, entrevistas e atividades de descontração, a equipe aos poucos se infiltra em um terreno de oposição com intuito de apresentar ao público uma realidade pouco vista no cinema.

Por mais que não os apresente como inimigos no sentido mais literal da palavra, é natural que o espectador habituado à visão de Pedroso os entenda de tal maneira. Inevitável assim que se evoquem trabalhos corajosos que vão desde o cambojano S21 – A Máquina de Morte do Khmer Vermelho (2003), de Rithy Panh ao estadunidense O ato de matar (The Act of Killing, 2012), de Joshua Oppenheimer. Na cinematografia brasileira, o filme encontra referência em trabalhos como Um lugar ao sol (2010), de Gabriel Mascaro, e o próprio Pacific, anteriormente citado. É delicado, contudo, compará-los em mesmas proporções, já que no caso dos documentários de Panh e Oppenheimer, os cineastas se debruçam sobre personagens ativos nos genocídios cometidos pelo Khmer Vermelho e pela ditadura indonésia. É mais precisamente no formato que tais filmes se cruzam, tocando fortemente a ideia de Jean-Louis Comolli sobre como filmar o inimigo.

Para o teórico, mesmo quando o intuito em filmá-los seja o de combatê-los, é necessário que durante o processo haja uma aproximação, um compartilhamento de espaços e comportamento e certa brandura na abordagem, o que torna a situação mais confortável para que estes se mostrem de maneira mais honesta. Fazê-lo, entretanto, é um gesto arriscado. Na tentativa de humanizar as figuras dentro do batalhão de choque, Pedroso interroga um coronel em relação ao seu sentimento em ser filmado no atual contexto e coleta seu posicionamento em não questionar normas e sim executá-las. Em outro momento, um soldado relata que sua ação na PM independe de convicções pessoais. De forma branda, Pedroso tenta complexificar a posição dos PMs no atual momento histórico, mas sua metodologia mantém o filme em suspensão. A opção por infiltrar e integrar-se ao batalhão sem atacá-los é legítima, mas a tática é duvidosa na tentativa de suscitar nuances significativas. Na maior parte do tempo, há uma negação de uma abordagem de cunho mais pessoal em relação às figuras de interesse. São, em sua maioria, apresentados como oficiais e não como cidadãos comuns. Ora, se a intenção é humaniza-los, não seria essa uma abordagem equivocada? Talvez.

O fato é que o filme se assume justamente no abraço dos riscos que compra. Um deles é o de incorporar um espaço claramente contrário à posição da equipe. Outro é o de, na tentativa de apresentar a rotina do batalhão, correr o risco de naturalizar certas condutas e assim soar conivente para com elas. Ou apenas de se apresentar raso e inocente. É possível também que alguém tenha uma leitura de ridicularização, especialmente em momentos de maior descontração dentro do batalhão. Há que reiterar-se que suas táticas abrem para tais possibilidades, o que pode não ser intencional e variar conforme o olhar do espectador e sua bagagem histórica. Assim, foi sintomático que ao final da sessão vaias e aplausos se confundiram entre o público presente no Cine Brasília. Talvez seja a ingenuidade do seu posicionamento. Talvez seja essa a proposta do filme. Talvez.

Neste sentido, há um momento bastante ilustrativo no qual uma soldada mostra para o diretor suas fotos publicadas no Facebook. De maneira calorosa, ela apresenta suas memórias com nostalgia e o que causa estranhamento é o conteúdo destas postagens. Tratam-se do treinamento que antecede o ingresso dos soldados no batalhão de choque da PM. O limite entre risível e estarrecedor está no sorriso que ela sustenta ao mostrar uma fotografia pós “câmera de gás”, em que os candidatos estão vomitando. Mais tarde, o cineasta assume para a soldada que participou de determinada manifestação. A reação dela é da risonha pergunta “Apanhou?”. Toda essa sequência, uma das mais poderosas do documentário, gera reações que vão da gargalhada ao choque. O registro é corajoso ao revelar uma convicção plena de que a brutalidade se faz necessária dentro da conduta policial.

Momentos assim, contudo, são raros no trabalho. Sobra, por exemplo, uma excessiva auto exposição do diretor. É compreensível sua intenção em mostrar-se confuso e inquieto em determinadas sequências, como aquela em que, na sala de montagem, encara imagens de manifestantes vermelhos e verde-amarelos e como estes se relacionam com os militares. Em outros, há uma insistência em um protagonismo que se excede em planos do cineasta encarando escudos, dando tiros ou quando ele se mostra fardado como um choqueano, por exemplo. Nestas escolhas, Pedroso corre outro risco que é o de soar narcisista na construção do seu trabalho. Esse colocar-se traz à tona ainda a opção por passagens poéticas que, eficazes na construção simbólica que pretendem, funcionam de maneira isolada, mas soam dispersas e pretensiosas dentro da linguagem predominante.

Em sua natureza inconclusiva, Por trás da linha de escudos gerou, claro, uma série de questionamentos no debate pós sessão no Festival. Entre reações elogiosas e olhares ofendidos, o filme parece ter alcançado seu objetivo ao retratar um momento histórico de poucas certezas e de inflamações em potencial. Ao mostrar-se inacabado pode-se colocar que o longa de Pedroso é corajoso ao assumir a dúvida, covarde em seu confronto ou superficial em sua abordagem. Melhor então que se feche o texto de forma igualmente reticente.

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