Pendular – Amar é um pêndulo

Pendular (2017), dirigido por Júlia Murat, não é o primeiro e com certeza não será o último dos filmes neste planeta a falar de relacionamentos em crise. Mas com certeza é um dos poucos que questiona a ideia vendida pela publicidade e por tantas produções audiovisuais de que uma relação passa por fases boas e ruins, assim, bem definidas e identificáveis. Júlia foi buscar inspiração na fonte certa, a sempre inovadora e surpreendente artista Marina Abramović, que na performance intitulada Rest Energy, onde, acompanhada de seu companheiro Ulay, tentava manter o equilíbrio para evitar que uma flecha segurada por ele atingisse seu peito. Marina colocou na mão do homem que amava algo que colocava sua vida em risco. E não seria isso que acontece quando optamos por dividir a vida com alguém?

O filme de Murat tem um casal protagonista no qual todos os espectadores podem se encontrar, mesmo que vivenciem um mundo localizado muito longe da arte. Ela é bailarina e ele é escultor. São criações que necessitam de espaço para serem executadas, o que leva os dois a irem morar em um galpão que será um misto de casa e local de trabalho de ambos. Já de chegada, o primeiro dos muros é erguido: uma fita laranja demarca onde cada um irá ficar. Pode parecer uma estratégia de organização, mas é a primeira pedra, a primeira porta fechada entre os dois. Se a intimidade tem os seus prós e contras, aqui é retratada como algo nunca completo. Mesmo que se conheça as manias, os cheiros, os sonhos do outro, sempre haverá algo a ser revelado. Pendular desenha o que a maioria dos casais vive todos os dias, estejam juntos há poucos meses ou décadas. Nunca nos mostramos por inteiro.

As amplas janelas do galpão fazem da luz natural um personagem a mais no filme. A diretora, aliás, não desperdiça nenhum objeto cênico. Tudo tem a sua função para emergir o espectador tanto no processo criativo do casal como em sua convivência como companheiros e amantes. Se a fita laranja teria a função de dividir os espaços de trabalho, ela se faz presente também de forma metafórica no relacionamento dos dois artistas. Dividem a mesma cama, mas cada lado dela tem um mundo próprio, uma temperatura, um desconforto. Diferenças estas que ganham formas nas esculturas dele e nas coreografias dela, muito bem fotografadas e que, auxiliadas pela montagem, ditam um ritmo que vai ficar em quem assiste a produção por horas, talvez dias. É o mesmo ritmo da vida: incerto e nem sempre empolgante. A incógnita da coreógrafa é o passo seguinte, a nossa é onde vamos estar daqui dez minutos.

Pendular contem cenas líricas, que mereciam ser revistas fora da história, tantos são os seus detalhes. Só que isso não significa que estamos diante de um filme fácil. O amor e a criação são duros, arrancam pedaços da gente que não curamos com curativos. E muitas são as dúvidas. Se entregar ou acabar tudo de uma vez? Seguir na confusão ou começar do zero? Contar tudo ou manter alguns sentimentos guardados? Pendular é um filme dos nossos tempos que talvez não funcionaria com nossas avós, sempre iludidas com as famílias felizes em volta da mesa propostas por Hollywood. Hoje parece haver mais abertura para um diálogo. Ou será apenas um engano, uma encenação de sinceridade? Se a arte permite múltiplos significados, Pendular não foge à regra. Permite observar muitos amores. Amores verdadeiros, com cicatrizes e alguns enganos. Amores sem fases definidas. Amores com um pêndulo intermitente que vai para lá e para cá, fazendo os dias correrem e nossas dúvidas aumentarem na mesma velocidade de nossas respostas. Complexo demais? Amar dói. Erguer muros dói, derrubá-los dói mais ainda. Por que o cinema não iria doer?

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