Panorama da 1ª Mostra de Cinema Negro de Pelotas

Chico, dos irmãos Carvalho

A Mostra de Cinema Negro de Pelotas, realizada entre 22 e 24 de novembro de 2017, surge em oportuno momento histórico, trazendo à tona doze exemplares da produção audiovisual brasileira recente, todos realizados por negros, que atestam a importância da ocupação dos espaços de poder na realização artística e da tomada de posse das narrativas no processo de descolonização do imaginário nacional. Com a democratização do acesso aos meios de produção, incumbe a iniciativas como a da curadoria o dever de potencializar o acesso a estes produtos, proporcionando à comunidade um espaço de reflexão e comunhão atravessado por filmes que não mais recorrem unicamente à imagem do sofrimento de corpos negros, mas que navegam suas individualidades, afetos e sensibilidades. Este texto pretende estabelecer um panorama dos curtas exibidos, com breves comentários que contextualizam cada obra.

Pele Suja Minha Carne, de Bruno Cardoso (RJ), é uma pequena coleção de experiências de um apático jovem negro de classe média que desenvolve uma amizade com um de seus colegas de classe e companheiro de pelada, além de um trágico retrato da rapidez com a qual a masculinidade faz ruir os afetos. O Som do Silêncio, de David Aynan (BA), assume a perspectiva de um jovem filho enquanto acompanha a reintegração de seu pai ao núcleo familiar. A ausência desse pai é reforçada por sua mudez, mas o silêncio de maior ressonância é o da mulher negra, estabelecendo uma ponte comunicadora entre pai e filho, sem nunca receber crédito por sua dedicação incondicional. Chico, dos irmãos Carvalho (RJ), com primorosos trabalhos de arte e desenho de som, elabora um futuro distópico análogo à nossa própria distopia atual, em uma fábula na qual crianças negras são rastreadas pelo governo como prevenção criminal, e uma mãe toma decisões extremas para salvar seu filho das mãos da repressão. Nada, de Gabriel Martins (MG), acompanha Bia (Clara Lima), jovem que traja, sempre que possível, um gorro roxo de estimação, imprimindo a sua face um terceiro olho. Filha de pais amorosos de classe média, estudante de colégio particular, é interrogada por uma caricata “professora palhaça” sobre o que deseja cursar na faculdade, respondendo: “não quero fazer nada”. As vicissitudes desta recusa à conformidade compõem este que é, definitivamente, um dos melhores filmes do ano.

Òrun Àiyé: A Criação do Mundo – criação através da mítica dos deuses africanos

Òrun Àiyé: A Criação do Mundo, de Cintia Lima e Jamile Coelho (BA), única animação da mostra, retraça a história da criação através da mítica dos deuses africanos, com intrincados visuais em stop-motion. O filme, que também serve de piloto para uma série, é emoldurado por dois segmentos de animação 2D nos quais um avô e, posteriormente, sua neta, contam a história em questão, reforçando a importância da oralidade na resistência cultural das religiões de matriz africana. Hic, de Alexander S. Buck (ES), carregado de referências formais ao videogame, lança mão de efeitos visuais digitais para retratar uma peculiar crise de soluços que assola um maratonista africano após vencer uma maratona. Seu corpo se teletransporta, a princípio, à revelia, porém o desenrolar do filme acaba revelando uma carga política mais imediata. Cinzas, de Larissa Fulana de Tal (BA), se passa em um dia na batalha cotidiana de um homem proletário, abrindo espaço a uma série de reflexões sobre a crescente desumanização da era neoliberal e os lapsos de amor e empatia que fortalecem o prosseguir. Peripatético, de Jéssica Queiroz (SP), se apropria do linguajar do entretenimento adolescente, seja na narração direcionada ao espectador ou em seus grafismos, para retratar a situação de jovens periféricos no auge dos Crimes de Maio. A tragédia atinge o filme, tornando-se então um estudo justamente sobre a impossibilidade de um registro jocoso, a incompatibilidade dos clichês Malhação com a dura realidade de uma parcela da juventude brasileira.

Travessia problematiza a questão das fotografias como memória afetiva familiar

Lúcida, de Caroline Neves e Fábio Rodrigo (SP), é um retrato denso da precariedade na vida de uma mãe solteira, se assemelhando formalmente ao trabalho de Pedro Costa no registro da periferia, se apropriando também de imagens caseiras que remontam o breve crescimento do filho bebê. É um filme que não abre espaço para aconchegos, uma obra de abandono que desafia frontalmente as implicações extremas das estruturas de marginalização. Deus, de Vinícius Silva (RS-SP), observa com contenção e sensibilidade o cotidiano de outra mãe solteira, encontrando em pequenos momentos, como uma bronca por cuecas sujas ou uma lata de cerveja no fim do dia, as dimensões divinas em que operam o amor e o esforço da maternidade. Das Raízes às Pontas, de Flora Egécia (DF), é um documentário sobre a restauração da autoestima negra diante dos padrões culturalmente impostos de beleza, através dos depoimentos de crianças e profissionais de diversas áreas, registrados sob uma imagética similar à elaborada por Ava DuVernay em A 13ª Emenda (2016) que diferencia o filme de um mero talking heads. Travessia, de Sáfira Moreira (RJ), problematiza a questão das fotografias como memória afetiva familiar, denunciando o recorte de classe imbricado no boom analógico do século XX. Sáfira parte da única imagem disponível de sua bisavó, uma foto como babá de uma criança branca, para traçar a história de sua família e reivindicar a autorrepresentação na imagem das famílias negras, encerrando e sintetizando a mostra nesta tônica de resistência ferrenha à hegemonia.

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