O estranho paraíso de Aronofsky em Mãe!

No cristianismo, o pecado original é a doutrina da imperfeição humana, do mal e do sofrimento, é a queda do homem por ele mesmo. Adão e Eva gozavam do paraíso antes da chegada do intruso. A Serpente surge no Jardim do Éden para instigar os dois habitantes da terra a cometerem o único delito que foram advertidos a não fazer. A mulher, criada a partir do homem para satisfaze-lo é quem posterga as ordens divinas.

Em 2017, um tema em comum repetiu-se dentro de alguns filmes: o do intruso. Em O estranho que nós amamos (The Beguiled, 2017), o invasor vem em forma de um homem solitário que foge da Guerra da Secessão, em 1864. No longa Ao Cair da Noite (It Comes at Night, 2017), uma família de três integrantes se hospeda em uma casa que tenta se sustentar em um cenário pós-apocalíptico. Já em Mãe! (Mother!, 2017) é uma multidão, que em uma alusão a todas as pessoas do mundo, invade o ambiente.
Continue lendo “O estranho paraíso de Aronofsky em Mãe!”

Verão 1993: Tatos inocentes

É verão em Barcelona. Enquanto fogos explodem colorindo o céu e crianças correm ao ar livre, Frida (Laia Artigas), uma garotinha de seis anos, entra em seu apartamento e observa as caixas e pacotes ao redor. Ela está de mudança. As mulheres da residência guardam os últimos objetos enquanto o tio cantarola alguma música catalã ao violão. A menina pouco interage, mas seus olhos expressam uma aflição confusa. É para esse olhar que a diretora Carla Simón recorre para construir um retrato íntimo, delicado e inteligente de uma infância que precisa superar um acontecimento traumático, ainda que não consiga bem compreendê-lo.

Vencedor do grande prêmio da Mostra Geração do Festival de Berlim e representante da Espanha para o Oscar, este Verão 1993 (Verano 1993, 2017) é o primeiro longa-metragem de Simón. Na trama, a pequena protagonista acabou de perder os pais e o jovem casal de tios e sua prima mais nova a recebem como filha em uma casa de campo no interior da Espanha. Mais que acostumar-se e integrar-se à nova família, Frida ainda precisa encarar um estilo de vida bucólico que em nada se relaciona com aquele que tinha em Barcelona, quando junto dos pais e dos avós. Neste rito de passagem, a menina se esforça para provar-se e ter a atenção da nova família, mas é evidente que também se mostre perdida e magoada em sua nova condição.
Continue lendo “Verão 1993: Tatos inocentes”

Militância a 120 Batimentos Por Minuto

Criada em 1989 nos moldes da original nova iorquina, a associação Act Up Paris reúne desde então a comunidade homossexual parisiense em torno da luta contra a AIDS. É uma organização autônoma que realiza atos militantes na capital francesa com objetivo de dar visibilidade às suas causas. Um dos seus membros, o cineasta Robin Campillo recria parte desta luta no início dos anos 90, quando o descaso de autoridades tornava a ação ainda mais urgente. Premiado como Melhor Filme pela Fipresci este ano em Cannes, seu 120 Batimentos Por Minuto (120 BPM, 2017) faz um retrato ficcional da Act Up e daquele conturbado período.
Continue lendo “Militância a 120 Batimentos Por Minuto”

Senhora Fang e a trivialidade da morte

Em seus três planos iniciais, Senhora Fang (Fang Xiu Ying, 2017) apresenta sua personagem título em momentos e espaços distintos, mas o olhar vazio e o corpo que expressa uma inércia quase total são constantes. Daí, o choque: o plano que segue é um close em seu rosto, agora cadavérico. A boca entreaberta e as bochechas esquálidas saltam dentes e ossos e sua face revela nada que não seja a aproximação da morte por uma doença que ainda não é revelada ao espectador. Tal plano se repete em momentos diferentes nos dilacerantes oitenta e seis minutos do documentário que, em uma crueza radical, acompanha o definhar de uma vida ordinária no sul da China.
Continue lendo “Senhora Fang e a trivialidade da morte”

O dois em um de As boas maneiras

É automático que se associe o nome da cineasta Juliana Rojas ao cinema fantástico. Em seus trabalhos anteriores, a diretora fez uso de elementos do suspense e do terror para contar suas histórias, em geral com algum comentário pertinente de ordem social. No longa Trabalhar Cansa (2011), parceria com Marco Dutra, o mistério e o drama se unem em um minimercado onde o desemprego, a relação patrão-empregado e fenômenos estranhos conduzem a narrativa. Já em Sinfonia da Necrópole (2014), certo humor surge em um musical que se passa em um cemitério e oferece um discurso claro sobre a especulação imobiliária.

Neste As boas maneiras (2017), Rojas volta a trabalhar com seu parceiro habitual e flerta com o universo dos lobisomens. Na trama, Clara, uma empregada doméstica da periferia de São Paulo, é contratada para acompanhar e auxiliar Ana, mãe solteira de classe alta, em sua gravidez que se mostra arriscada com o passar do tempo. Aos poucos, a necessidade incontrolável de Ana por carne vermelha e seu sonambulismo trazem à tona estranhos e bizarros acontecimentos que antecipam a chegada de uma perigosa criatura.
Continue lendo “O dois em um de As boas maneiras”

Os universos de Aronofsky e Mãe!

É bem provável que toda análise que se detenha à nova realização de Darren Aronofsky, Mãe! (mother!, 2017), inicie avisando seus leitores que algumas revelações importantes sobre a trama serão feitas durante a leitura. É complexo dissertar e, principalmente, opinar sobre a produção sem entregar pontos-chave da história. Afinal, a maneira como o filme também foi vendido não representa o que ele realmente é. São contornos e desvios que a produção toma ao longo de sua projeção que surpreende ser um produto de um estúdio de Hollywood em uma época na qual esse tipo de produção se tornou uma anomalia para os produtores e distribuidores de larga escala. Afinal, já se vão anos em que o investimento e espaço para produções com teor mais intelectual e viés dramático perderam território para alienígenas com capas coloridas e super poderes. E, independente das opiniões serem divergentes sobre a qualidade de Mãe!, não há como negar a sua importância nesse cenário saturado.

Continue lendo “Os universos de Aronofsky e Mãe!”

Era uma vez Brasília não cumpre o que promete

É de se admirar a capacidade de alguns críticos em Brasília em conseguir organizar as ideias em torno de Era uma vez Brasília (2017) e até defender o filme com segurança, apontando para detalhes do enredo. De fato, poucos tiveram essa capacidade, e esta autora não se encontra entre eles.

Ter assistido aos anteriores A Cidade é uma Só? (2011) e, principalmente, Branco sai, Preto Fica (2014), deveria ser condição privilegiada para a compreensão do concorrente nesta 50ª edição do Festival de Cinema de Brasília. No entanto, foi de pouco auxílio ter conhecimento do universo do diretor Adirley Queirós, pois o que predomina no filme atual é a confusão de tempos cronológicos, numa narrativa incompetente para permitir que a plateia entre no filme. Curiosamente, a produção levou, além dos prêmios técnicos de Fotografia e Som, também o de Melhor Direção. Se considerarmos que é um filme com todos os ingredientes da autoralidade, com evidentes deficiênicas de roteiro, é realmente um prêmio curioso.
Continue lendo “Era uma vez Brasília não cumpre o que promete”