Mulher-Maravilha: trajetória de empoderamento

Mais de 70 anos foram necessários para Hollywood e, porque não dizer, o mundo entenderem que uma super-heroína poderia estrelar e fazer sucesso num filme baseado em histórias em quadrinhos. É claro que a escolha para tremendo buzz do público e da crítica não poderia ser outra senão a amazona mais conhecida dos nerds e do meio pop. Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017) chegou aos cinemas com elogios rasgados dos espectadores, especializados em cinema ou não, bateu recordes em sua estreia para um longa-metragem dirigido por uma cineasta, foi um ponto de virada para a DC Comics após dois questionáveis filmes e, acima de tudo, trouxe o empoderamento feminino para um meio no qual elas não estão habituadas a serem ouvidas. É uma produção que pode não ser perfeita, mas merece aplausos por todos seus predicados.
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Stay woke: sobre Corra!

Em posfácio à edição mais recente de seu Alegorias do subdesenvolvimento, Ismail Xavier retrospecta as diversas iterações do alegórico ao longo da tradição histórica. Evocando Benjamin ao diagnosticar sua noção moderna, conclui que:

O mundo contemporâneo da mercadoria é de tal natureza em sua força de dissociação, alienação, que a sensibilidade alegórica tem aí um papel revolucionário: encara a crise mascarada pelo otimismo burguês do processo. […] A alegoria moderna monta suas coleções de imagens e leva até o fim a dissociação, o não orgânico, numa imitação perversa, satânica, do estado de coisas, visando exorcizá-lo.”

O cinema fantástico oriundo de estúdios estadunidenses é tido, normalmente, como representativo do citado otimismo burguês, embora, volta e meia, realizadores consigam empurrar, através de frestas, ideias que desafiam o status quo alimentado pela própria máquina da qual participam – Paul Verhoeven e John Carpenter que o digam.  Desta vez, o indivíduo em questão é Jordan Peele, comediante que estreia como roteirista e diretor de cinema com Corra! (Get Out, 2017), alegoria propiciada pelo Zeitgeist em que se resgatam feridas que o senso comum – ou, a mentalidade branca – procura ocultar.
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A criação do horror em Alien Covenant

Na emblemática canção “Like a Rolling Stone”, Bob Dylan diz “Se você não tem nada, não há nada a perder”. Mesmo sem ser citada durante a projeção ou ter qualquer ligação direta a Alien Covenant (2017), a nova investida de Ridley Scott na sua saga alienígena iniciada nos anos 70 com Alien – O Oitavo Passageiro, o trecho da canção de Dylan parece ecoar em diversos momentos, é claro, em um contexto muito diferente. Em meio a humanos, deuses e androides, o diretor britânico reutiliza sua estrutura narrativa, a qual virou um dos padrões para os filmes do gênero, e lança diversas abordagens sobre o conceito de criação, nascimento, fé, paternalismo e as últimas consequências dos horrores de cada um desses temas impulsionados pela perda e o isolamento.

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As pequenas surpresas em Quem é Primavera das Neves

A 22ª edição do Festival É Tudo Verdade reflete bem esta tendência do cinema documental de voltar-se às reminiscências pessoais. Títulos como A Lembrança que Eu Gosto de Ter (2017), Perón, Meu Pai e Eu (2017), Eu, Meu Pai e Os Cariocas (2017) rechearam a programação com outros filmes menos umbilicais, mas que, narrados na primeira pessoa, foram buscar na própria família o protagonismo da história, como o brasileiro No Intenso Agora (2017) e o letão-ucraniano Relações Próximas (2016).

Quem é Primavera das Neves (2017), de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo, tem como ponto de partida uma curiosidade pessoal: Furtado, um leitor aplicado, daqueles que se interessam em saber quem são os tradutores dos livros que lê, cismou em descobrir quem era aquela mulher de nome peculiar que traduziu autores tão diferentes quanto Flaubert, Nabokov e Lewis Carroll, tendo vertido cerca de 80 livros para o português. A  primeira busca do diretor, naturalmente, se deu nos domínios da internet, onde havia somente um link  sobre ela. O que o deixou mais curioso ainda. Estes primeiros passos são narrados por Furtado num registro ainda bastante pessoal, mas aos poucos uma opção low-profile o vai deixando em segundo plano e Primavera das Neves ganha corpo através da memória de duas melhores amigas e, mais adiante, do ex-marido. São apenas três entrevistados durante o filme todo, demonstrando que não é preciso mais do que isto para revelar um grande personagem.
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Documentário sobre Guimarães Rosa será debatido em sessões promovidas pela Abraccine

De 25/4 a 14/5 o documentário “Outro Sertão” terá exibições e debates em dez cidades e quatro regiões do país; filme trata dos anos do escritor mineiro na Alemanha nazista.

Em sua segunda edição, a Sessão Abraccine promove a circulação e o debate do documentário Outro Sertão, de Adriana Jacobsen e Soraia Vilela. Resultado de mais de dez anos de pesquisa sobre o turbulento período em que Guimarães Rosa viveu na Alemanha, o filme, premiado no Festival de Brasília e Mostra de São Paulo, será visto nas próximas semanas em dez cidades brasileiras: Belém (PA), João Pessoa (PB), Recife e Afogados da Ingazeira (PE), Maceió (AL), Salvador (BA), São Paulo (SP), Florianópolis (SC), Porto Alegre e Pelotas (RS).

Após cada sessão, debates oferecem a oportunidade de aprofundar questões sobre cinema e o próprio filme com especialistas em literatura e cinema documental, como em Florianópolis, com o crítico José Geraldo Couto e Berthold Zilly – tradutor de livros de Euclides da Cunha e Raduan Nassar, entre outros, e que se dedica no momento a uma nova tradução de “Grande Sertão: Veredas” para o alemão. Em São Paulo (CineSesc), a sessão conta com a presença da diretora do filme, Soraia Vilela, e do crítico Orlando Margarido.
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O mito Tirandentes em Joaquim

Trata-se de um dos mais ricos gêneros cinematográficos, mas também um campo no qual cair no lugar-comum e na superficialidade é um risco constante. O filme histórico ou biográfico possui armadilhas a cada etapa de sua confecção. Uma idealização pode aproximá-lo das hagiografias, os livros que relatavam as vidas dos santos, o que pode ser uma escolha fatal dependendo da figura ou fato retratado. Ao mesmo tempo, a busca por uma imparcialidade ou tentativa de resumir os eventos ou a vida de determinada personalidade pode garantir a onipresença dessa tipologia em temporadas de prêmios e em trabalhos escolares, mas parece esvaziar a obra de maior conteúdo reflexivo ou narrativo, pois ignora o óbvio paradoxo: uma vida ou um fato histórico jamais caberá num filme. Mais do que um recorte, um filme histórico precisa ter consciência do tema com o qual trabalha, e que se manifesta em todas as escolhas estéticas.
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Confira os trailers dos novos filmes da Casa de Cinema que competem no É Tudo Verdade

Dois documentários produzidos pela Casa de Cinema de Porto Alegre estão entre os sete longas brasileiros selecionados para o mais importante festival do gênero no país, o É tudo verdade – 22º Festival Internacional de Documentários, que ocorre entre os dias 19 e 30 de abril, no Rio de Janeiro e São Paulo. Os filmes Quem é Primavera das Neves, dirigido por Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado, e Cidades Fantasmas, dirigido por Tyrell Spencer, integram a lista de sete produções nacionais inéditas a participar da Competição Brasileira de Longas e Médias-Metragens.

Em março de 2010, Furtado publica em seu blog, indagando quem pode ter notícias sobre a tradutora Primavera das Neves, cujo nome o fascina. A busca o leva ao encontro de Quem é Primavera das Neves, em que é guiado por amigas de infância da tradutora, Eulalie Ligneul, e a artista plástica Anna Bella Geiger. O filme, uma coprodução com a Globo Filmes, também conta com Ana Luiza Azevedo na direção, Produção Executiva de Nora Goulart, Direção de Fotografia de Alex Sernambi, Edição de Giba Assis Brasil e participação da atriz Mariana Lima. O longa deve estrear nas salas comerciais em junho e está presenta na lista de expectativas do ano do Calvero.

O projeto Cidades Fantasmas será lançado em dois formatos: um longa-metragem documentário em coprodução com a Globo News e uma série documental de oito episódios de 15min em coprodução com o Canal Brasil. Com roteiros de Carolina Silvestrin e André Bittencourt e direção de Tyrell Spencer, o projeto conta a história de cidades prósperas, que abrigaram populações inteiras e hoje estão abandonadas e consumidas pelo tempo. Catástrofes naturais, motivações econômicas, embates políticos, guerras, são algumas das condições que levaram esses lugares ao total despovoamento. Sepultadas pelo tempo e esquecidas pelos mapas, Cidades Fantasmas refaz os passos das populações de oito dessas cidades. No Brasil: Ararapira (PR), Cococi (CE), Fordlandia (PA), Minas do Camaquã (RS) e Vila do Ventura (BA), Epecuén, na Argentina, Armero, na Colômbia, e Humerstone, no Chile.
Em 2017, o É Tudo Verdade conta com 82 títulos de 30 países, com 16 estreias mundiais. Após as exibições durante o evento, premiados e destaques participam de um circuito de itinerâncias que passará por Porto Alegre e Brasília.

Confira os trailers: