Os reflexos de Uma Mulher Fantástica

No decorrer de Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantastica, 2017), dirigido pelo argentino-chileno Sebastián Lelio, a protagonista, Marina (Daniela Vega), acaba ouvindo de alguns personagens que eles não conseguem enxergá-la, que não sabem dizer ao certo o que ela personifica e até mesmo a comparam com uma quimera, o conhecido monstro mitológico com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente. A violência dessa associação se dá pela transsexualidade da personagem e a ignorância daqueles que a rodeiam. São reflexos de uma sociedade que ao não compreender o que presencia, se torna irracional, preconceituosa e violenta.

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Ao Cair da Noite: o declínio do homem público

Após o “horror familiar” que foi Krisha (2015), é perfeitamente lógico que o diretor Trey Edward Shults estenda sua investigação ao terror confesso, apropriando-se em Ao Cair da Noite (It Comes At Night, 2017) de todo o glossário do gênero para discorrer sobre uma temática comum ao longa anterior, extrapolada aqui ao ser posta ante uma alegoria pós-apocalíptica. Se em Krisha se trata da instituição familiar pelo olhar do inadequado, em sua incapacidade de assimilação a uma unidade baseada não só no laço afetivo/sanguíneo, mas também na avaliação concordante com códigos morais, Ao Cair da Noite procura fabular sobre as consequências da defesa ferrenha deste modelo paternalista, neste caso literal diante de um espaço público hostil, materializado através de uma epidemia letal cujos detalhes pouco importam à narrativa, exceto pela necessidade de eliminar os infectados antes que algo pior aconteça.
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Sara, o preconceito e o poder

“Sou consciente do meu preconceito”, “Eu sou negra, mas se fizer uma palhaçada, eu sou a primeira a criticar o negro. Olha lá aquilo, só preto que faz aquilo”. Estas são algumas das frases de Sara, uma diarista carioca que trabalhava na casa do diretor do filme O quebra-cabeça de Sara (2017), Allan Ribeiro.

O curta, que levou os prêmios da Accirs (Associação de Críticos de Cinema do RS) e do Canal Brasil na 45ª edição do Festival de Gramado, constituiu-se uma pequena pérola entre os concorrentes. Com apenas dez minutos, uma personagem, um cenário e um tema como guia, conseguiu o que muito longa não alcança: fala de preconceito de raça e gênero, expõe as condições precárias da vida de trabalhadores (Sara comenta com alguém no celular que mais uma vez terá que tomar banho de balde devido à falta de água em casa) e isto através de uma linguagem criativa. O filme prova, também, que é possível produzir algo inovador sem orçamentos polpudos.
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Elon Não Acredita na Morte: questão de questões

Elon (Rômulo Braga) se dirige ao local de trabalho de sua esposa, Madalena (Clara Choveaux), uma caótica fábrica prestes a apagar suas luzes ao fim do expediente. Ela não está lá, apesar dele afirmar que combinou de buscá-la. Elon Não Acredita na Morte (2016), primeiro longa-metragem dirigido por Ricardo Alves Júnior, parte desta base simples, já edificada pelo curta Tremor (2013), e compõe uma experiência cinematográfica labiríntica, em que a cada esquina/corte diversas ramificações se materializam diante do espectador. Aos dois Elons (no curta, interpretado por Elon Rabin) somos apresentados de costas, evidenciando o cabelo trançado de um, uma mecha loira peculiar em outro. Homens que à primeira vista pelo senso comum podem ser entendidos como maltrapilhos. Em Tremor, Madalena já está perdida há três semanas, enquanto aqui acompanhamos Elon desde a primeira constatação do sumiço da amada. Ambas as obras, porém, terminam no mesmo lugar. A expansão sobre o filme original não se pauta necessariamente em tornar a trama mais densa, mas sim em habitar a projeção com ainda mais incertezas e barreiras.
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Rifle: alvo em movimento

Na articulação cinematográfica há certas regras de etiqueta que se assumem sem precisar ser ditas, normas assimiladas a um glossário de conhecimentos prévios necessários à execução da tarefa de realizar um filme, passíveis a ser seguidas ou subvertidas. Sabe-se, por exemplo, que a cartela com o título da obra a antecede. Se, porventura, um trecho do filme ocorrer antes ao título, tal caracteriza-se como um prólogo, assim como na literatura, em que pode-se prenunciar o teor do discurso a se desenvolver, evidenciando elementos-chave à sua compreensão. No cinema, o posicionar do título sucedendo a um prólogo coloca sua retórica em xeque, podendo-se potencializar através do contraste com a cena o seu sentido transmitido pelo verbo. O prólogo de Rifle (2016), segundo longa-metragem de Davi Pretto, sintetiza em ações aparentemente simples as angústias que vêm a permear seus mecanismos. Somos introduzidos ao protagonista, Dione (Dione Ávila de Oliveira), enquanto apaga a faca mensagens gravadas em árvores. Em seguida, em seu caminhar moroso (um carro passa ao fundo, estabelecendo a proximidade da rodovia), se depara com um carro detonado, já parte da paisagem de um pequeno bosque. Cut to black. Título do filme. O opor da imagem de um automóvel à palavra “rifle” como ponto de corte inaugura um questionamento que lentamente se desenvolve através da projeção, em que se essencializa a figura do carro como alegoria ao progresso entre aspas, à intromissão do meio urbano nos espaços rurais.

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Na Vertical – Na terra dos homens

Alain Guiraudie desenvolve um cinema que primordialmente retrata o universo do homem e a sua masculinidade, além dos relacionamentos e sexualidade ambíguos. Dentro desse ambiente essas facetas surgem e se revelam profundas como forma de conforto ou sobrevivência. Na Vertical (Rester Vertical, 2016), selecionado para o Festival de Cannes em 2016, talvez seja o auge do diretor em retratar o conflituoso e dúvido universo de seus personagens masculinos. Misturando o onírico com um tom quase documental, Guiraudie realiza um filme de reações extremas tanto dos personagens como dos espectadores.

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O descompasso de Tal Mãe, Tal Filha

Tal Mãe, Tal Filha (Telle Mère, Telle Fille, 2017) não possui grandes qualidades, aliás, talveznão possua nenhuma. É um filme histérico, desajustado com piadas pobres e uma edição que deixa a desejar. Parece uma produção que não sabe o que é e atira para todos os lados com reviravoltas e reações descompassadas. Noémi Saglio, diretora e co-roteirista cria situações em que as ações beiram ao ridículo sem nunca cair no tom que busca: o cômico.

A graça se transforma em vergonha alheia facilmente na história de uma mãe extrovertida, Manon (Binoche), e Avril (Camille Cottin) a sua filha grávida. Elas são contrapontos. Enquanto a mãe é destrambelhada, a filha é o cúmulo da organização e controle. A relação que já é amarga e conflituosa, desanda ainda mais depois que Avril descobre que sua mãe quarentona está grávida logo quando ela também está. Reside aí uma justificativa que pouco convence na narrativa: a filha acha que Manon está roubando o seu protagonismo. É uma desavença histérica que não instiga e se desenvolve corretamente no formato de comédia nonsense.

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