Melhores Filmes de 2017

O documentário Martírio é o melhor filme de 2017 pelo Calvero

Com a chegada do final do ano todo crítico realiza a sua religiosa lista de melhores filmes assistidos durante o período. E, claro, não estamos fora desse balaio. Conforme realizado em 2016, nosso site dá continuidade em selecionar os 10 melhores filmes segundo o nosso time. Em 2017 estipulamos como critério a inclusão da lista dos colaboradores mais ativos e como recorte serão selecionadas apenas produções lançadas comercialmente no ano. Anteriormente vivíamos fora da curva, elencando o que havíamos assistido em festivais e mostras, alinhados mais com o circuito estrangeiro do que o nacional. Agora decidimos nos adequar à editoria clássica das listagens que inundam a internet. É o que parece ser o correto, mesmo não sendo a quebra de paradigma que gostaríamos. Mas vamos deixar o teor disruptivo para os filmes selecionados e que refletem cada vez mais a necessidade de destacar direitos e representatividade em diferentes esferas. Que 2018 continue nos tirando da zona de conforto com produções que modifiquem o status quo e abram sempre nossas mentes para debates.

Confira a nossa lista de melhores do ano e logo em seguida a lista individual de cada um dos colaboradores.

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Projeto Flórida: Da falência dos sonhos

Orlando. Um casal em lua de mel desembarca no baratíssimo motel Magic Castle, tendo confundido-o com o Magic Kingdom da Disney no momento de fazer a reserva. A esposa, brasileira, não entende inglês, e se desespera diante da ralé, esbravejando ao marido: “Isso aqui é uma favela? É o projeto?”. Interessante que Projeto Flórida (2017) empenhado em diagnosticar um “estado das coisas” do neoliberalismo estadunidense (remetendo ao recente Docinho da América, 2016, de Andrea Arnold), pincele questões de classe análogas a nossa própria situação sociopolítica, ainda mais especificamente pelo retrato da pobreza através da perspectiva infantil. Em tempos de “protejam nossas crianças”, o filme se apropria de uma iconografia lúdica, imediatamente associável à famigerada “fábrica de sonhos”, e a desvirtua, profana, como se questionasse: nós sabemos exatamente do que protegê-las?
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Lady Bird – nascido para ser cult

Se a espectadora ou o espectador cresceu em uma cidade do interior, certamente terá uma afinidade maior com a trama. A euforia da ideia de sair de um pequeno lugar e partir rumo ao enorme e desconhecido é meio intransferível. Mas nem só o público que se viu livre do interior é capaz de se aproximar e, eventualmente, se apaixonar pelo filme de Greta Gerwig. Os adeptos podem ser bem cosmopolitas.

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Pendular – Amar é um pêndulo

Pendular (2017), dirigido por Júlia Murat, não é o primeiro e com certeza não será o último dos filmes neste planeta a falar de relacionamentos em crise. Mas com certeza é um dos poucos que questiona a ideia vendida pela publicidade e por tantas produções audiovisuais de que uma relação passa por fases boas e ruins, assim, bem definidas e identificáveis. Júlia foi buscar inspiração na fonte certa, a sempre inovadora e surpreendente artista Marina Abramović, que na performance intitulada Rest Energy, onde, acompanhada de seu companheiro Ulay, tentava manter o equilíbrio para evitar que uma flecha segurada por ele atingisse seu peito. Marina colocou na mão do homem que amava algo que colocava sua vida em risco. E não seria isso que acontece quando optamos por dividir a vida com alguém?
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Panorama da 1ª Mostra de Cinema Negro de Pelotas

Chico, dos irmãos Carvalho

A Mostra de Cinema Negro de Pelotas, realizada entre 22 e 24 de novembro de 2017, surge em oportuno momento histórico, trazendo à tona doze exemplares da produção audiovisual brasileira recente, todos realizados por negros, que atestam a importância da ocupação dos espaços de poder na realização artística e da tomada de posse das narrativas no processo de descolonização do imaginário nacional. Com a democratização do acesso aos meios de produção, incumbe a iniciativas como a da curadoria o dever de potencializar o acesso a estes produtos, proporcionando à comunidade um espaço de reflexão e comunhão atravessado por filmes que não mais recorrem unicamente à imagem do sofrimento de corpos negros, mas que navegam suas individualidades, afetos e sensibilidades. Este texto pretende estabelecer um panorama dos curtas exibidos, com breves comentários que contextualizam cada obra.
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Não Devore Meu Coração! ou Até a Derrota

Um animal morto na estrada leva um motoqueiro, até então não entendido como Cauã Reymond, a derrubar sua moto para fora do asfalto – e de quadro. A câmera se movimenta em panorama à esquerda, revelando não um homem acidentado, mas sim ajoelhado, visor do capacete fitando a lente que se aproxima através de um afetado zoom. Uma imagem suspensória, plano inaugural que antecipa uma jornada fantasiosa, aptamente dividida em cinco capítulos [jocosamente entitulados Meninos de Peito Vazio; A Guerra das Lágrimas; Porque Esse Nosso Amor Quebrou Meu Peito ao Meio; A Fuga do Cowboy Covarde; e A Batalha de Ñande Pa (Lágrimas da Menina Jacaré)], onde um inesgotável inventário simbológico dá conta de ilustrar e construir uma mitologia própria, distintamente latino-americana.
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O poder simbólico em O Estranho que Nós Amamos

O grande trunfo da psicanálise foi a descoberta do inconsciente, porém sua relação com a sexualidade e a repressão não é tão eloquente e não se sustenta se analisada em uma estrutura social ou de gênero. Freud reconhecia a soberania do homem e a representava no pênis, mas nunca se propôs a analisar a origem, confessando que ignorava a mesma.  Inveja. O outro. Simone de Beauvoir nos anos 60 utilizou da teoria crítica feminista para refutar pontos importantes do estudo de Freud, concluindo que a mulher não deseja ter o falo, mas sim deseja ter um símbolo de poder para conseguir uma autenticidade como ser humano e não como objeto. O indivíduo se retém a totens, símbolos, uma inautenticidade. Neste ano, Sofia Coppola lança a adaptação de O Estranho que Nós Amamamos (2017), romance de 1966 do autor Thomas Cullinan que já havia sido filmado em 1971 por Don Siegel. A diretora que leva em sua filmografia certo tom entediado, aqui se ausenta do ambiente aristocrata e de luxo apresentados em Maria Antonieta (2006) e Um Lugar Qualquer (2010), para dar o enfoque a um colégio de meninas localizado ao sul dos Estados Unidos. Cenário que comparado a magnificência de castelos e hotéis de luxo de filmes anteriores, preza pelo confinamento e isolamento.
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