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Pelas múltiplas representações no cinema gaúcho

por Eleonora Loner

O crescimento do investimento nacional e o aumento de faculdades de cinema gerou no Rio Grande do Sul uma renovação cinematográfica bastante acelerada. Nos últimos cinco anos, uma nova leva de filmes e cineastas surgiu, tirando o Estado da (quase) estagnação e, pouco a pouco, devolvendo-o a uma posição de certa relevância no cenário nacional.  O crescimento econômico do país fortalece as artes em geral e, apesar do pouco incentivo estadual, a produção aumenta e se diversifica.

A Avante Filmes, produtora audiovisual de Porto Alegre, é um dos expoentes dessa que se espera que seja uma nova fase da cinematografia gaúcha. Composta por Filipe Matzembacher, Marcio Reolon e Germano de Oliveira, a Avante já produziu diversos curta-metragens, estreou seu primeiro longa e tem uma série e outro longa-metragem a caminho.

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Beira-mar (2015), longa de estreia de Filipe e Marcio e da própria Avante Filmes, é o segundo filme gaúcho selecionado para o importante festival de Berlim, tendo sido precedido apenas por Castanha (2014), dirigido por Davi Pretto, no ano anterior. O filme acompanha a viagem de Martin (Mateus Almada) e Tomaz (Maurício José Barcellos), dois antigos amigos, ao litoral gaúcho durante o inverno, a fim de resolver trâmites legais para o pai do primeiro. Esses dias isolados diante do mar faz que se reaproximem e deem importantes passos em direção ao amadurecimento. Beira-mar estreou no Festival de Berlim, na mostra Forum, dedicada a filmes que trabalham com inovação de linguagem, e na mostra Generation, seção de filmes sobre o mundo jovem. Também foi indicado ao Teddy Awards, principal prêmio de cinema LGBT do mundo. Depois disso, o longa já esteve em diversos festivais, entre eles o de Guadalajara (onde recebeu o Prêmio Especial do Júri, na Seção Maguey), Festival de Málaga, do CineLatino-Rencontres de Toulouse, entre outros.

“Queríamos falar dessa etapa da vida enquanto ainda estávamos próximos dela.”, diz Marcio sobre a juventude em Beira-Mar. Este tema, junto com a sexualidade, está presente em quase todas as obras da produtora, porém em Beira-Mar se torna de certa maneira muito autobiográfico, já que o filme foi criado a partir de conversas em que os diretores perceberam que haviam passado por várias experiências semelhantes, mesmo sem se conhecerem. A descoberta da sexualidade e o cenário litorâneo do estado (com seu vento e tons frios bastante peculiares) permeavam suas memórias da adolescência.

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Porém, para Marcio e Filipe, era muito importante falar do “coming out” de maneira leve e positiva, dando certa esperança na etapa a ser vivida ao invés de retratá-la  como a abertura de uma vida de sofrimentos.  “Não existe representação correta, existe falta de representações. Quando apenas um retrato de algo é oferecido, esse retrato vai ser raso, superficial”, acrescenta Filipe, sobre a maneira como as minorias são vistas, em geral, pelo cinema. “Nem todo filme de coming out tem que apresentar uma história de massacre. Nem toda travesti tem que sofrer o tempo inteiro.”. Apesar de reconhecer que pode ser um difícil processo, em Beira-Mar os diretores preferiram oferecer um empoderamento aos sujeitos, especialmente por se tratar de uma produção voltada a um público jovem.

Sobre a recente expansão do cinema LGBT no Brasil, eles acreditam que isso acompanha um crescimento geral da produção brasileira, mas dão as boas vindas a prêmios e mostras específicas em festivais, por darem maior visibilidade a filmes que talvez, se exibidos em uma mostra geral, não a teriam, por questões de público e jurado. Ainda assim, seguem existindo minorias dentro de minorias e o G em LGBT ainda se sobressai das demais letras, outra vez entrando na falta de representações. “Talvez, sendo homem branco gay no mundo do cinema, eu ainda tenha mais privilégios que uma mulher ou um negro.”, considera Marcio.

Depois da visibilidade de Beira-Mar (que tem estreia prevista no Brasil para o segundo semestre de 2015), a Avante Filmes agora trabalha na pré-produção da série Todo Carnaval tem seu fim, que será exibida na TVE e retrata a história de um jovem militar do interior que, na busca por seu irmão na capital, acaba passando por experiências que o libertarão. Além disso, roteiriza o longa-metragem Garoto Neon, que ganhou um edital de desenvolvimento de roteiro do fundo holandês Hubert Bals e narra a história de amor entre dois performers eróticos de internet.

A sessão Calvero #1 de Beira-mar acontece no dia 4 de dezembro às 19h no Cine UFPel (Lobo da Costa, 447). A entrada é gratuita e o evento conta com as presenças dos diretores e elenco.

Calvero e Cine UFPel apresentam exibição de Beira-mar

Na próxima sexta-feira, dia 04 de dezembro, realizamos a nossa primeira sessão em parceria com a sala de cinema da UFPel, o Cine UFPel, com a exibição da elogiada produção gaúcha Beira-mar, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon.

Selecionado para o festival de Berlim no começo de 2015, o filme tem uma forte trajetória por festivais internacionais. Na história, a dupla Martin e Tomaz viaja para o litoral gaúcho. Martin precisa encontrar um documento para o pai na casa de parentes, e Tomaz decide acompanhá-lo. Os dois acabam abrigando-se em uma casa de vidro à beira-mar, a fim de fugir da rejeição familiar de Martin e da estranha distância que surgiu entre os dois.

A sessão especial contará com a presença dos diretores que participarão de um debate após a exibição. O evento tem o apoio da Avante Filmes e Vitrine Filmes.

Anote a data e compareça: 4/12 às 19h na sala do Cine UFPel.

Entrada gratuita. Classificação indicativa: 14 anos.

Para maiores informações acesse o evento no facebook.

Sobre começar

Pelotas é uma cidade que possui dois cursos acadêmicos voltados ao cinema e uma importância histórica no cinema nacional. Logo, está carregada pela potencialidade de se tornar um pólo de produção audiovisual com a formação de profissionais que estudam na área. Poucos sabem, mas a nossa cidade também possui certa tradição quando a crítica cinematográfica. Isso se deu através de Paulo Fountoura Gastal, melhor conhecido como P. F. Gastal. Alguns podem se lembrar pelo nome da sala de cinema da Prefeitura de Porto Alegre.

P.F. começou escrevendo pequenos textos publicitários para as sessões que aconteciam no Cine Capitólio, local que atualmente está esquecido e à venda. Depois de certo tempo passou a se dedicar à algumas críticas para o Diário Popular, contando um pouco do que assistia nas (muitas) telonas que Pelotas um dia já possuiu. Um de seus pseudônimos era Calvero, referência direta ao personagem criado por Chaplin, um palhaço triste de Luzes da Ribalta (1952).

O acesso aos filmes era outro naquela época. Não existiam blogs, Facebook e nem televisão a cabo, Youtube, Netflix, Popcorn Time, e tantas outras forma de se assistir e comentar sobre audiovisual. Existiam as salas de cinema com suas matinês, suas sessões de arte, os jornais, as pessoas que se reuniam (veja só!) para discutir cinema. E existia alguém como Gastal, que comentava os filmes através de seus textos, com seu preciosismo de nos contar cada experiência que vivenciava dentro das salas de cinema que o inspiravam. As quais nos inspiram também. Aliás, a nostalgia de vivenciar mais uma vez esses espaços vive em cada pelotense que viu a cidade ser tomada por cinemas. Além de inspirados por todos esses espaços, pela efervecência que já existiu na cidade e o trabalho excepcional de Gastal o que nos motiva é a vontade de falar sobre cinema, de torná-lo acessível.

A Calvero nasceu como uma tentativa de ser um espaço de reflexão sobre as mais diversas expressões. Essecialmente nossa força motriz é o cinema, mas isso não quer dizer que a música, a literatura e as artes visuais como um todo não terão espaço. Gostaríamos de aproximar ainda mais o público e os leitores pelotenses do cinema. Inicialmente planejada para ser impressa em formato de zine, a Calvero se ramifica em diversas formas como esse site, uma futura sessão de cinema e muito mais.