Críticas

Ouija: Origem do Mal – A riqueza da expectativa

Ouija: Origem do Mal (Ouija: Origin of Evil, 2016) definitivamente configura um dos casos mais peculiares manifestados pelo cinema comercial recente. Segunda adaptação de uma propriedade intelectual da Hasbro, produzida sob a égide da gigante Universal Pictures, esta obra surpreende devido ao contexto em que se insere. Sucedendo – ou precedendo, devido à época retratada – a Ouija: O Jogo dos Espíritos (Ouija, 2014), cujo alto retorno financeiro fora inversamente proporcional à qualidade fílmica, sua existência não poderia ser atribuída a outro fato senão à tentativa apressada de estabelecer uma suposta franquia de grande faturamento, o que nunca rendeu bons frutos quando se fala dos produtos em si. Resumindo, trataria-se de um filme de produtores, única e simplesmente. Porém, a escalação do diretor Mike Flanagan, egresso de interessantes exercícios de gênero, como O Espelho (Oculus, 2013) e Hush – A Morte Ouve (Hush, 2016), provocou uma inesperada inversão: talvez nunca se tenha visto uma evolução tão dramática de qualidade entre um filme de terror e sua sequência, visto que o costumeiro é que ocorra o contrário.

Origem do Mal se passa em 1967, acompanhando uma família de charlatãs, cujo sustento provém de uma falsa clarividência de sua mãe, a Madame Zander (Elizabeth Reaser). Atendendo pessoas com a promessa do contato com falecidos entes queridos, ela e suas duas filhas colaboram entre si através de elaborados truques para construir a ilusão de presenças sobrenaturais. Após trazer à casa um tabuleiro Ouija para adicionar à gama de enganações, a Madame acaba invocando um espírito que se apossa do corpo de sua filha mais nova, Doris (Lulu Wilson), fazendo a família acreditar que se trate da alma de seu falecido pai. Cegada pelo deslumbramento, a mãe utiliza de Doris para atender a clientes, sob a ilusão de estar fornecendo um serviço o qual antes apenas fingia proporcionar, o que faz com que o mal se enraíze cada vez mais no corpo da filha. Não há nada de particularmente inédito na estrutura do roteiro, como já se vê por seu argumento. Porém, a relação entre a mãe e as filhas é nuançada o suficiente para que o espectador se projete, de certa maneira, na situação conflituosa. O interessante é a maneira como Flanagan se apropria de uma premissa formulaica para exercer sua criatividade, construindo através de seus floreios de direção uma obra bastante enxuta.

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A recriação de época vai além da direção de arte, se estendendo à montagem repleta de fades e à textura visual da projeção em película. Apesar do filme ser gravado em digital, são inseridos os famosos cigarette burns, pequenos pontos à direita da tela que indicavam aos projecionistas a chegada do próximo rolo, e inclusive há momentos em que a tela se distorce, como se fisicamente houvesse a troca. Isto cria uma atmosfera saudosista – até o logotipo do estúdio é apresentado em sua forma antiga – que remete ao terror sessentista, porém as técnicas aplicadas por Flanagan são versões aperfeiçoadas do que se vê nos exemplares modernos do gênero. A tensão, pautada nos silêncios, também se edifica na inserção de elementos que por pouco passam despercebidos no quadro. Em certo momento, Lina (Annalise Basso), a filha mais velha, é acordada por seu lençol sendo puxado violentamente por uma força sobrenatural. Ela se aproxima lentamente da ponta da cama, e a câmera a acompanha. Ela vê seu lençol no chão, o alcança com a mão, e o esperado seria que um efeito sonoro alto tomasse conta da paisagem, estabelecendo uma conclusão à situação de tensão. Flanagan, porém, se contenta com colocar a silhueta do espírito maligno observando Lina da porta do quarto, enquanto ela se cobre e volta a dormir. Nenhuma elevação sonora. Outro exemplo interessante é uma cena em que Doris descreve ao interesse amoroso de Lina (Parker Mack), lentamente, o processo de uma morte por asfixiamento. Durante todo o monólogo, aproxima-se do rosto da menina através do zoom, enquanto o espectador apenas imagina o que acontece ou está para acontecer com o garoto. No fim da cena, nada acontece, mas a atenção do público está cativada em um nível claustrofóbico.

Ainda se aposta nos jump scares, porém aqui são utilizados de maneira muito mais coerente e justificada. Se cenas que aplicam o recurso em filmes recentes, como Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2, 2016) e Quando as Luzes se Apagam (Lights Out, 2016), demonstram-se sempre previsíveis, devido à fórmula básica de silenciar a trilha sonora apenas segundos antes do baque, em Origem do Mal, elaboram-se extensas cenas sem nenhum acompanhamento musical, potencializando os momentos de catarse ao brincar com as expectativas do público. Em determinado momento, a câmera lentamente se aproxima de uma porta fechada atrás de Doris, enquanto dorme em sua cama, concentrando a atenção do espectador na maçaneta. De repente, a garota, já fora de quadro, acorda assustada, com seu rosto invadindo o plano e consequentemente a noção de cena que havia sido elaborada pela expectativa.

Flanagan também é o montador, e consegue inclusive fazer funcionar um dos truques mais baratos utilizados pelo terror moderno: o susto provocado pelo corte seco de uma cena a outra. Após um diálogo silencioso situado em um quarto no andar superior, há uma alternância para um plano de Doris, com seu rosto deformado pelo espírito, sentada no sofá, e logo readquirindo a normalidade de sua fisionomia quando outros personagens descem a escada em segundo plano. Um corte justificado, que tanto contrapõe a quietude da cena anterior quanto contextualiza o mau estado da personagem sobre a qual se falava. Além disso, o trabalho de decupagem que favorece planos notavelmente mais longos do que o padrão do modelo de produção, além de movimentos de câmera pronunciados e característicos – remetendo a um James Wan mais comportado -, estabelece uma noção geográfica da casa que também contribui para a imersão desejada.

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Infelizmente, seja por pressão mercadológica ou vontade própria, no terceiro ato o filme sente a necessidade de se render à narrativa e fornecer uma enxurrada de informações contextualizadoras, a fim de elaborar um clímax que contradiz muito da sutileza construída anteriormente. Um dos últimos bons momentos da projeção acontece enquanto o padre Tom (Henry Thomas), diretor da escola católica onde as meninas estudam e presença importante na narrativa, contextualiza a história que levou à morte e pós-vida do mau espírito que assombra a casa. Ao invés de apostar em flashbacks ou em simplesmente retratar o monólogo por completo, caindo na pura transmissão de informações, Flanagan alterna entre duas cenas: a conversa com o padre e outro momento de embate entre Doris e o namorado de Lina. O espectador presta atenção para descobrir o que acontecerá com o garoto, e devido ao foco elevado, acaba registrando todos os dados transmitidos pela voz do padre, sem que soe gratuito. Porém, uma boa maneira de fornecer exposição não significa que a mesma seja particularmente interessante. Ainda não há confiança suficiente no público para que não haja uma explicação concreta ao conflito do filme, então de repente diversas soluções fáceis se apresentam às personagens. Além disso, tanto a casa onde este se passa quanto a “entidade vilã” são as mesmas do primeiro filme. O tabuleiro Ouija seria apenas uma ferramenta de contato com qualquer ser do além, então não há por quê conectar um filme a outro, visto que esta ponte só empobrece a obra aqui analisada.

Apesar disso, é interessante ver em Origem do Mal uma ponta de esperança para o gênero. Aqui notamos do que o terror pode ser capaz quando se assume como um âmbito de criação e experimentação, pois há a oportunidade de flexionar a linguagem cinematográfica para encontrar novos meios de conexão com o público. Comprovando que basta um pouco mais de capricho para que um produto admitidamente comercial alcance méritos próprios. É um filme que valoriza a experiência ritualística do ir ao cinema. Só é difícil se acostumar com a ideia de que uma obra com essas credenciais seja relacionada a outra tão desastrosa.

Matheus Strelow

Graduando em Cinema e Audiovisual na UFPel e co-organizador do projeto de extensão Zero Quatro Cineclube, encontra-se em constante estado de descoberta de sua própria ideia do que cinema representa.

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