Citações de um texto de Luc Moullet que relaciona cineastas e seus signos – aqui especificamente o de Peixes -, além de uma declamação de Norma Bengell, funcionam como uma introdução do curta-metragem Minha única Terra é na Lua. Em seu filme, o diretor e roteirista Sergio Silva responde a um questionário, escrito por ele, enquanto Gilda Nomacce o interpreta, uma vez ou outra substituída pelo próprio ao longo das trinta e seis perguntas. Mas o Sérgio de Gilda não parece ser o mesmo original. Há ali presente uma sensação de duplicidade, não havendo certezas de que tudo é autorretrato na mescla de documentário e encenação. Quem faz as perguntas é Gabriel, num vaivém que parece anteceder algum tipo de relacionamento. Há lágrimas, mas há também sorrisos. São verdades, mas também invenções. É nítida a intimidade que exala neste jogo de espelhos que conecta um sentimento muito pessoal ao cinema, aos astros e à própria identidade. O formato simples em plano e contraplano busca fazer com que o espectador se atenha ao texto e às atuações, nesse inventivo estudo de personagem escrito pelo protagonista.

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Cena de Vando Vulgo Vedita

Já em Vando Vulgo Vedita, a parceria entre Andréia Pires e Leonardo Mouramateus com um grupo heterogêneo de atores resulta em um trabalho pautado no corpo e no movimento. Na produção, todos os personagens parecem estar em busca de Vando, que sumiu na capital cearense. Após pintarem seus cabelos de loiro e esboçarem uma luta inspirada no japonês Dragon Ball Z, a “trupe” vai parar na praia da Barra. Lá correm, lutam e cantam (a canção Vampiro Sexual é um dos vários grandes momentos do filme) em uma hipnotizante e sensual simbiose. Isso se dá pela movimentação incansável dos personagens pela praia seguida por uma câmera contagiada pela mesma energia, como se ela própria fosse um dos corpos incontroláveis ali presentes. A cor da areia se mistura à pele bronzeada e aos cabelos chamativos numa composição completamente entendida e valorizada pela direção de fotografia. Na parte final, uma forte crítica vem associada à mesma estética primorosa neste curta que exala originalidade. Há ali uma mistura de Spring Breakers (2012), do cinema de Larry Clark, e da energia dos personagens de Jorge Amado em Capitães de Areia. Difícil encontrar uma referência exata para essa memorável aventura de super sayajins em Fortaleza.

Saímos do Ceará para chegar em São Paulo com o curta Tempos de cão, dos diretores Ronaldo Dimer e Victor Amaro, que parte de uma situação real para criar um universo ficcional e distópico. A escassez de água na grande São Paulo é base para a construção de um universo apocalíptico. Cenas onde uma água esbranquiçada é utilizada da maneira mais cuidadosa possível se mesclam a outras como a de um culto religioso. Se as imagens por si já funcionam como símbolos carregados de significado, a fotografia muitas vezes claustrofóbica torna tudo mais urgente. A sensação que se tem é de que não apenas a água está próxima do fim naquele universo. A ação tranquila dos personagens passa longe da serenidade: é a falta de pressa que se tem quando a única certeza é a ruína total.