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Tiradentes 2017 – Os oprimidos na primeira série da Mostra Foco

Nesta última segunda-feira (23), iniciaram as exibições de curtas que compõem a competitiva Mostra Foco. Ao todo, dez curtas serão exibidos em três séries ao longo da semana. Neste primeiro recorte, foi notável a condição de opressão vivida pelos protagonistas dos quatro curtas exibidos. A opressão do trabalho e aquela sofrida pela mulher na sociedade foram temáticas que permearam a sessão.

No paranaense A canção do asfalto, Chen é um jovem imigrante chinês recém-chegado ao país que ajuda seu tio numa lanchonete. No pequeno recorte do seu cotidiano, o diretor Pedro Giongo segue os passos do protagonista por uma Curitiba bastante urbana. Essa movimentação do personagem e os diálogos, em chinês, trazem consigo um claro existencialismo. Especificamente, há uma sensação de perspectiva limitada, não rara em filmes que observam o início da vida adulta, e que aqui se evidencia justamente pelo olhar do estrangeiro. Este sentimento é também provocado por uma razão de aspecto que aperta as ações em um quadro reduzido, o que aumenta ainda mais a certeza de tais limitações. Contudo, por retratar certa juventude, há uma energia inevitável que aparece nas cores fortes dos espaços – decupados com esmero – e na presença do ator, mesmo que sua contenção predomine. Na cena final, onde ele pedala sua bicicleta com pressa pelo asfalto, tal vigor fica mais perceptível. Ainda assim, a restrição provocada pela tela deixa o gosto amargo de que as alternativas possíveis para Chen não vão muito além da lanchonete.

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O personagem Chen em A canção do asfalto

Em Restos, curta baiano dirigido por Renato Gaiarsa, uma paralisação grevista no serviço público de limpeza em Salvador promove o caos urbano. O espectador acompanha o desenrolar da situação pelo viés do gari Souza e também pelas informações lançadas pelos meios de comunicação. Enquanto o noticiário se dobra sobre a desordem provocada pela interrupção do serviço ao longo dos dias, acompanhamos a vida de Souza ao lado do que aparenta ser sua namorada e seu pai enfermo. Há momentos marcantes nos 15 minutos do curta, como a passagem em que catadores recolhem os lixos das ruas, solicitados por moradores do local, e queimam uma montanha de restos na praça da cidade. Esse olhar crítico divide espaço com a sensibilidade no retrato de Souza, cuja invisibilidade social que o próprio trabalho o submete é colocada em cheque. Ao não desempenharem as funções que lhes são impostas, estes “invisíveis” demonstram o seu poder sobre a cidade.

Trabalhando com o experimental ao abordar a questão do machismo e da misoginia praticados pela cultura e pela mídia massiva, a diretora carioca Mariana Barreiros provocou aplausos empolgados do público após a exibição do seu curta Autópsia. Em seus oito minutos, o trabalho reúne imagens de programas televisivos e músicas populares onde a objetificação da mulher é evidente. Além da dinâmica elétrica da montagem e da estética de TV tubo, impressiona a forma como Barreiros reúne provas desse abuso em diferentes segmentos culturais. Novela das oito, Ratinho, talk-shows e programas jornalísticos dividem espaço com músicas que vão da bossa nova ao funk, mostrando como a questão é compartilhada por todas essas esferas midiáticas. Ainda dividindo espaço com imagens captadas da performance de uma atriz, o curta de fato parece inspecionar como se dá a disseminação desta lamentável condição.

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Lira Ribas em cena de Estado Itinerante

 

O último trabalho exibido na noite, e particularmente o que mais impressionou, foi o mineiro Estado Itinerante da diretora Ana Carolina Soares. Nele, a cobradora de ônibus Vivi sofre violência doméstica do marido e evita voltar para casa depois de sua longa jornada de trabalho. O curta, contudo, não explora essa condição de maneira explícita: não há cenas que mostram essa violência, não há marcas visíveis de que ela acontece, sequer somos apresentados ao marido da protagonista. Os possíveis hematomas se escondem por debaixo das blusas de manga longa, o portão de sua casa jamais é penetrado pela câmera. Há no filme grande inteligência ao se pensar o extra campo e como ele é definitivo no desenrolar deste retrato. Ana Carolina tem domínio completo sobre a direção em cenas que buscam desde um aflitivo suspense nos momentos finais até a cena, belíssima, em que Vivi protagoniza uma dança catártica ao som de Guns n’ Roses. Ao unir personagens mulheres e mostrar a recusa da protagonista em aceitar aquela condição, a narrativa ganha teor feminista. A presença de Lira Ribas na tela é fundamental neste curta onde a montagem é tão precisa quanto a direção.

Por Maurício Vassali

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUC-RS, é graduado em Cinema e Audiovisual pela UFPel. É membro da diretoria da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul na gestão 2018-2020.

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