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Tiradentes 2017 | Os destaques da Mostra Panorama

Ao longo da vigésima Mostra de Cinema de Tiradentes, dezesseis curtas de propostas distintas foram exibidos durante a Mostra Panorama. Neste texto, reuni comentários de seis destes curtas que de alguma forma se destacaram dentro do recorte. A começar pelo carioca As Ondas, dos diretores Juliano Gomes e Léo Bittencourt. De caráter experimental, o filme de cara sugere ao espectador com histórico de epilepsia que se retire da sala. Há motivos de sobra para isso. Utilizando, basicamente, de um refletor estroboscópico que lança flashes de luz branca sobre as ondas do mar e uma apresentação de diferentes manequins em uma fábrica, o curta lança mão de uma montagem frenética e de efeitos sonoros que beiram a violência. A intenção de agredir o público com seus excessos é intencional. O horror aqui não vem de uma atmosfera, enredo ou temática. Ele surge a partir de formas e sons que, da maneira hiperativa como são apresentados, atacam o espectador com sensações de puro desconforto e agonia.

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Solon, de Clarissa Campolina – uma fábula sobre a origem do humano através da mulher

O também experimental Solon parece criar uma fábula sobre a origem do humano na figura da mulher, que se transforma a partir de uma criatura de aparência alienígena. O curta mineiro de Clarissa Campolina se passa em um ambiente aparentemente hostil. Há ali uma aposta sensorial que parte de múltiplas texturas: a do solo arenoso e pedregoso, da água em movimento, da atmosfera esfumaçada, da pele da criatura que se move sem pressa e do próprio registro de imagem, onde a granulação é perceptível. Tal ambiente, em determinado momento, é substituído por uma espécie de praia, onde as ondas do mar se movimentam e ao fundo se vê um farol. Seria aquela criatura o primeiro humano ou uma forma de ressurgimento da espécie? De seus símbolos e sensações bebe este intrigante trabalho.

Em Chico, curta dos Irmãos Carvalho que flerta com a ficção científica distópica, a narrativa se passa em um futuro não muito distante. O ano é de 2029 e, após um golpe de Estado, rege no país uma lei que faz com que crianças pobres e negras sejam rastreadas a partir de uma tornozeleira. A “lógica” é de que todos são possíveis criminosos. A história é geracional e o público é apresentado à avó e à mãe do protagonista, Chico, numa forte introdução. No dia do aniversário do protagonista, é deliberada a prisão geral de menores, o que dá início a uma tensa perseguição. O projeto, em alguns pontos, se liga ao ícone de Adirley Queirós, Branco sai preto fica, mas tem seus próprios méritos ao ser concebido como um sci-fi sobre as questões da classe periférica no Rio de Janeiro. A direção de arte investe em cores e grafismos que tornam a narrativa ainda mais urgente. A crucificação no desfecho, tão simbólica quanto catártica, é daqueles momentos que persistem na memória do espectador.

A questão policial ganha outros contornos em Olho do Cão, trabalho carioca dirigido por Samuel Lobo. A ação se passa em um domingo qualquer numa casa do subúrbio do Rio, onde jovens conversam enquanto preparam um churrasco. Os personagens são construídos com naturalidade e suas trajetórias cotidianas conduzem a narrativa de maneira tranquila. A batida repentina de policiais que fazem uma revista violenta e incompreensível vira o filme do avesso e a ação policial abusiva leva a um acontecimento trágico. De maneira contundente, o filme faz sua crítica ao autoritarismo agressivo e disfarçado de ordem.

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Fernanda Chicolet em Demônia – Melodrama em 3 atos

Já o novo trabalho de Fernanda Chicolet e Cainan Baladez brinca com as linguagens do audiovisual em sua cômica narrativa. Cada uma das três partes de Demônia – Melodrama em 3 atos segue uma forma específica: a primeira é a clássica do cinema, a segunda tem formato televisivo e a última segue a lógica dos memes de internet. A temática da traição é prato cheio para a construção da narrativa melodramática com um quê de rodrigueana, recheada de diálogos afiados escritos por Chicolet. Aliás, ela própria protagoniza o filme ao lado de Vinícius de Oliveira, ambos em atuações precisas que fazem com que o experimento funcione ainda mais. O resultado é uma divertida crítica à exposição do íntimo e ao fanatismo religioso, cuja comicidade também é fruto da estética excessiva das paródias-funk da internet.

Por fim, a brutalidade dos ringues divide espaço com certa delicadeza dos shows de drag queens em Diamante, o bailarina. Dirigida por Pedro Jorge, a narrativa segue os passos de um boxeador gay, que pratica o esporte durante o dia e se apresenta em uma casa de shows à noite. Enquanto treina, ele precisa lidar com o preconceito dos colegas em um ambiente completamente machista, onde a masculinidade depende mais do que nunca da força. A mise en scene é caprichada assim como a fotografia, principalmente ao estabelecer uma estética de filme de boxe. Por outro lado, o próprio roteiro reinventa a fórmula clássica deste tipo de cinema ao incluir ali um personagem de sexualidade aparentemente incompatível com o meio. Além disso, Diamante não é construído de maneira bidimensional, jamais soando como mártir. Ambas sua truculência e delicadeza trazem nuances que enriquecem não apenas a ele, mas toda a narrativa, cuja premissa e desenvolvimento têm força para um longa metragem.

Por Maurício Vassali

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUC-RS, é graduado em Cinema e Audiovisual pela UFPel. É membro da diretoria da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul na gestão 2018-2020.

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