O poder simbólico em O Estranho que Nós Amamos

O grande trunfo da psicanálise foi a descoberta do inconsciente, porém sua relação com a sexualidade e a repressão não é tão eloquente e não se sustenta se analisada em uma estrutura social ou de gênero. Freud reconhecia a soberania do homem e a representava no pênis, mas nunca se propôs a analisar a origem, confessando que ignorava a mesma.  Inveja. O outro. Simone de Beauvoir nos anos 60 utilizou da teoria crítica feminista para refutar pontos importantes do estudo de Freud, concluindo que a mulher não deseja ter o falo, mas sim deseja ter um símbolo de poder para conseguir uma autenticidade como ser humano e não como objeto. O indivíduo se retém a totens, símbolos, uma inautenticidade. Neste ano, Sofia Coppola lança a adaptação de O Estranho que Nós Amamamos (2017), romance de 1966 do autor Thomas Cullinan que já havia sido filmado em 1971 por Don Siegel. A diretora que leva em sua filmografia certo tom entediado, aqui se ausenta do ambiente aristocrata e de luxo apresentados em Maria Antonieta (2006) e Um Lugar Qualquer (2010), para dar o enfoque a um colégio de meninas localizado ao sul dos Estados Unidos. Cenário que comparado a magnificência de castelos e hotéis de luxo de filmes anteriores, preza pelo confinamento e isolamento.

Neste aprisionamento, a história narra o encontro de uma garota, Amy (Oona Laurence) com o soldado John Mcburney (Collin Farrel) fugitivo de guerra e ferido na floresta. Ela mora com mais outras cinco mulheres, Martha Farnsworth (Nicole Kidman), Edwina Dabney (Kirsten Dunst), Alicia (Elle Fanning), Emily (Emma Howard) e Marie (Addison Riecke), em uma casa onde são ensinadas a executar tarefas domésticas e de campo, além de aprender inglês. O país passa pela Guerra da Secessão, resultado da tensão promovida pela abolição da escravatura. O Norte era abolicionista, enquanto o Sul ainda explorava mão de obra escrava. A libido durante muito tempo foi força considerada exclusivamente masculina, sendo a mulher proibida e biologicamente incapaz de sentir essa pulsão sexual. Segundo Freud as mulheres são incapazes de satisfação, inclusive no coito normal. A chegada do soldado na rotina dessas cinco mulheres transforma um ambiente monótono envolto por uma energia vital. Há uma tensão, um silêncio que acusa mais do que esconde. Existe a dualidade na personagem de Nicole Kidman, que lida com o desejo por um estranho ao mesmo tempo que é a figura matriarcal e de proteção da casa. A cena em que ela banha o soldado ferido é recheada por um comedimento lascivo. A câmera é sutil e não insinua nada, a construção de todo o clima está nas mulheres, que desempenham o principal papel nessa relação.

Conforme o tempo passa, a estadia do soldado as atinge em níveis diferentes. A personagem de Kirsten Dunst é quem mais se envolve com o estranho, embora ele saiba da potência de sua presença naquele ambiente e aproveite disso de todas as maneiras. Com as mais novas há quase uma representação paterna em sua figura – diferente da primeira versão de Siegel onde havia pedofilia -, com as mais velhas seu jogo é sexual. Seja qual for seu papel desempenhado na casa, sua imagem é de poder. É no fim do segundo ato em um envolvimento carnal com uma delas que se desenvolve a grande demonstração de violência pela parte dele, não no ato, mas pela consequência. Freud em suas teses atribui a castração da mulher como principal sintoma de sua repressão e trauma sexual. A gênese de sua inveja. No filme o poder é podado através da castração do homem.

É sem um membro que a autoridade de John é ameaçada, há quase uma loucura instaurada. As mulheres estão rendidas e submersas em uma fúria prestes a estourar. Os enquadramentos que antes já eram limitados, ficam cada vez mais, talvez a direção pouco inventiva se justifique por ser uma história que só se conta se for contida. As atuações são silenciosas e poderosas, a trilha não-diegetica potencializa a opressão, o corpo fala, para arquitetar o plano de se desfazer do intruso não foi preciso uma conversa extensa. Enquanto o soldado é acalmado, cessando um pouco sua fúria através do ato sexual, a mesma garota que o encontrou na floresta, retorna ao local para colher o que mais tarde seria usado para dar um fim naquilo.


No livro O Segundo Sexo, Beauvoir levanta questões sobre força, poder e sucesso. Palavras que ao investigar da autora são concebidas como privilégio masculino. Em um plano pictórico – como a maioria das composições e enquadramentos em que todas as mulheres estão juntas -, há uma simbologia explicita, remete a uma mensagem que talvez seja a mais importante para o movimento feminista: juntas somos fortes, impermeáveis, intransitáveis. Não há estranhos que possamos amar mais do que a nós mesmas.

2 comentários sobre “O poder simbólico em O Estranho que Nós Amamos

  1. “NÃO HÁ ESTRANHOS QUE POSSAMOS AMAR MAIS QUE A NÓS MESMAS.” UMA CRÍTICA MUITO BEM ELABORADA COM EMBASAMENTO HISTÓRICO E FILOSÓFICO, E TAMBÉM COM ANALISES COMPORTAMENTAIS VISTO QUE O FILME REALÇA MAIS A FALA DO CORPO. A TAL INVEJA FEMININA PELO PÊNIS É DESMISTIFICADA, UTILIZANDO TODO TEMPO DE LIBIDO MASCULINO NO ESTUDO DA MÚSICA, LEITURA, APRENDIZAGEM DA FRATERNIDADE, CULINÁRIA… OU SEJA, NÃO SE TRATA DE UMA INFERIORIDADE PELA AUSÊNCIA DO FALO, MAS SIM UM PASSO DE INDEPENDÊNCIA. ESSA QUE CONQUISTADA COM O PASSAR DOS TEMPOS DEMONSTRA A SUPERIORIDADE DO CLITÓRIS AO PÊNIS. ALÉM DA MATURIDADE FEMININA E INTELIGÊNCIA EM REVERTER O QUE PARECIA ESTAR PERDIDO. A SEGUNDA COLHEITA DE COGUMELOS E UM JANTAR PROGRAMADO RETRATAM A SABEDORIA DE SERES INDEPENDENTES E FEMININOS.

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