O mito Tirandentes em Joaquim

Trata-se de um dos mais ricos gêneros cinematográficos, mas também um campo no qual cair no lugar-comum e na superficialidade é um risco constante. O filme histórico ou biográfico possui armadilhas a cada etapa de sua confecção. Uma idealização pode aproximá-lo das hagiografias, os livros que relatavam as vidas dos santos, o que pode ser uma escolha fatal dependendo da figura ou fato retratado. Ao mesmo tempo, a busca por uma imparcialidade ou tentativa de resumir os eventos ou a vida de determinada personalidade pode garantir a onipresença dessa tipologia em temporadas de prêmios e em trabalhos escolares, mas parece esvaziar a obra de maior conteúdo reflexivo ou narrativo, pois ignora o óbvio paradoxo: uma vida ou um fato histórico jamais caberá num filme. Mais do que um recorte, um filme histórico precisa ter consciência do tema com o qual trabalha, e que se manifesta em todas as escolhas estéticas.

Para citar exemplos recentes, Amadeus (1984) fala da admiração que reside em toda inveja, A Rede Social (2010) sobre o esvaziamento das relações humanas, o recente Jackie (2016) da construção de aparências. Uma mesma figura pode render um filme sobre megalomania (O Aviador, 2004) e outro sobre anacronismo e nostalgia (Rules Don’t Apply, 2016). Todos esses tem em comum o fato de entenderem que, por mais que sejam inspirados em figuras reais, os protagonistas das obras são construções dramáticas, ficcionais, que orbitam ao redor de uma temática.

O cinema, assim como a fotografia, a pintura e a escultura antes disso, acaba determinando a imagem e a iconografia que uma figura histórica assume para a posteridade, e a compreensão disso nos leva a entender mais sobre as intenções de porque determinada configuração imagética foi estimulada em determinado contexto. No Brasil, sem dúvida o maior exemplo que temos disso é a passagem do civil Joaquim José da Silva Xavier, sobre quem não sabemos realmente muito, para o mártir herói republicano feriado nacional Tiradentes. No século XIX, quando o sonho da República aproximou-se cada vez mais da realidade, o personagem ganhou ares de Cristo, como na famosa tela de Aurélio de Figueiredo, reproduzida com frequência em livros escolares, e sua narrativa passou a ser contada de maneira mítica, pois cada vez a idealização da Inconfidência servia mais aos interesses da elite brasileira.

 

Chegamos a 2017, e a república democrática supostamente sonhada pela Inconfidência Mineira voltou a ser saqueada, como lembrou o diretor Marcelo Gomes na sessão de estreia de Joaquim (2017) na Berlinale, pelas próprias elites econômicas que a usam como escudo. A sensação é de que a democracia, no Brasil, acontece apenas em hiatos. Coincidência ou não, a TV Globo, ao cobrir o velório de Tancredo Neves, primeiro presidente da reabertura política, chamou atenção para o fato de que o falecido, também mineiro, estava sendo velado na Igreja de São João Del Rei, na frente da qual Tiradentes foi esquartejado e exposto ao povo. Novamente, um mito sustentando uma ideia, que por sua vez, sustenta interesses bastante específicos.

Joaquim têm início com a enevoada imagem da cabeça decapitada de seu protagonista e uma memória póstuma em voice-over. O belíssimo plano merece uma aproximação à chocante tela de Pedro Américo que nos mostra o messiânico Tiradentes esquartejado. A partir daí, somos convidados a tentar compreender a configuração social e psicológica que resultaram na execução desse único homem.

No entanto, o que interessa a Marcelo Gomes, que já nos brindou com os excelentes Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2010), não é uma história de origem de herói, como aquelas que conhecemos tão bem da indústria estadunidense. O cineasta parece manter em mente, a cada beat de roteiro e construção dramática, que o seu tema é a dinâmica das relações de poder. Numa abordagem que beira Foucault, a balança entre submissão e rebelião pende a cada ato do protagonista ou dos que o orbitam.

Existe, em Joaquim, uma frequente tentativa de frisar que seu personagem não é nem procura ser um herói, e sim ascender social e economicamente, na crise do ciclo da mineração. Mas cada passo que tenta dar nessa direção, há uma reação do sistema em lhe lembrar que não pertence nem nunca pertencerá à casta dominante, mas também que é ele mesmo um agente desse sistema de castas, quando adquire consciência de sua relação de poder frente ao escravo João ou à mulher a quem chama de Preta, como um fetiche, mais no sentido marxista do que no sexual, pois a mulher aqui é antes mercadoria, depois objeto de afeto.

Talvez haja mais de um filme competindo dentro dessa peculiar obra de Marcelo Gomes. Por vezes, a sutileza da reflexão dá lugar a ironias talvez um pouco explícitas que empobrecem o discurso, reforçada pela atuação de Julio Machado, que aqui e ali, cai numa chave novelesca. A passagem em que há uma defesa da benevolência e justiça dos ideais norte-americanos parece surgir com a intenção de gerar risadas no espectador que fizer o contraponto com os desdobramentos imperialistas do patriotismo americano. Nesse sentido, mas com mais força dramática, há também o belo momento no quilombo em que a personagem Zua, suposto amor da vida do protagonista, recusa-se a ser chamada de “preta” por ele, numa espécie de parênteses pós-moderno de empoderamento identitário.

De outro lado, no entanto, existe a atenção de Gomes para o riquíssimo retrato do Brasil colonial, que equilibra a crueza e o lirismo em fotografia, trilha e reconstituição de época quase impecáveis. No jogo de sentidos, é preciso chamar atenção para a escolha do diretor de como retratar a miscigenação cultural como parte da essência de nossa nação: o momento musical que traz o encontro das musicalidades negra e indígena é de uma sensibilidade forte e segura de um cineasta que sabe não só sobre o que o filme em geral, mas também sobre os pequenos temas de cada cena que constrói.

Joaquim, como também foi o recente Getúlio (2015), não é um filme perfeito. Mas apresenta-se como uma reflexão historiográfica e artística que contribui não só para o gênero do filme histórico como também a consciência do processo de mistificação, e a quem interessa esse processo.

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