O Brasil em 2027. Se o exercício é o de imaginar como vamos estar organizados como sociedade daqui a 18 anos, múltiplas respostas montam um mosaico de cenários: economicamente instáveis; reféns de uma política autoritária; esperando a volta do Messias; menos laico que nunca. O diretor Gabriel Mascaro (Ventos de Agosto; Doméstica) apresenta uma distopia nem-tão-inimaginável assim em Divino Amor (2019).

Nos créditos iniciais do filme temos a estética do neon  – rastro recorrente na filmografia de Mascaro -, desenhando uma pomba: é um filme de simbologias e metáforas visuais. A narrativa começa sua edificação imagética através de um plano fechado em um casal que dança. Enquanto se divertem, uma voz over contextualiza temporalmente o espectador. É 2027 e a Festa do Amor, substituta do carnaval como celebração máxima brasileira, reúne vários fiéis que esperam a volta de Jesus em um evento estilo rave.

O casal Joana (Dira Paes, excelente no papel) e Danilo (Júlio Machado) são centrais na narrativa. Joana trabalha em um cartório, porém, sua fé atravessa seu ofício, fazendo da personagem uma conselheira amorosa para casais que querem se divorciar. Já Danilo realiza seu trabalho no quintal de casa, montando arranjos de flor para funerais. Evangélicos, ambos frequentam um grupo denominado “Divino Amor”, um antro de fé e lascividade. A voz over anuncia: “Quem ama não trai, quem ama divide”. O casal quer engravidar, mas um problema no sêmen de Danilo reduz o desejo à esperança. A espera pelo milagre da procriação guia a ficção.

O roteiro é caprichosamente pensado para ser completo dentro da proposta. Os pequenos furos se dão mais por falta de uma melhor contextualização dos ambientes, do que de lacunas na construção dos personagens. A fluidez da obra propicia uma experiência de cinema agradável, não se delonga e nem se desgasta. Porém, a forma com que a direção se desenha é pouco inventiva e marcante – dado os planos de Boi Neon (2015), por exemplo, onde a mise en scéne proposta por Mascaro foi construída para ser contemplada -, aqui no filme temos um comodismo e nada de excessos. Nenhum plano memorável.

O filme prende pela possibilidade. Estamos em um momento político delicado, toda e qualquer tentativa de visualização do futuro já não soa tão absurda. Temos um universo diegético simbólico, que se constrói através de signos religiosos atualizados: falar com o pastor já não requer o ritual de ir até a igreja para um encontro demorado, no longa há um drive-thru onde os fiéis podem passar de carro para um breve papo. Simultaneidade da fé. Em um mundo de multitarefas onde o tempo é precioso, nada faz mais sentido que um consumo rápido de palavras de perdão.

Joana, em um momento de desespero questiona se seu pecado é amar demais. Uma provocação das cenas posteriores mostram a dubiedade desse amor cristão. Ao entrar em um lar de abandono, colhe as lágrimas de uma criança órfã para que seu marido as tome, na crença de que isso pode ajudar no processo de gravidez. Em outra determinada cena, ao receber uma caixa com alguns filhotes de cachorro, ela os abandona em um terreno baldio. A personagem permanece muda nos dois atos, a imagem se sustenta como uma ironia triste sobre a compaixão. O silêncio em seu calvário também está em seu choro contido quando é abandonada por Danilo.

Divertido, mas sem deboche, o filme de Mascaro ainda traz cores vibrantes na fotografia, estabelecendo uma relação entre filtros vermelhos e azuis para a construção de erotismo e luxúria. As cenas de sexo são sempre gravadas em planos gerais, fazendo com que os corpos envolvidos no ato sejam parte de um grande propósito. Nada de privado se constrói em uma relação pública entre crença e tentativas de reerguer o casamento. Sexo é negócio de fé.

O diretor realiza um longa eficaz que se conta e se situa como crítica em um cenário de inúmeras denúncias. Projetar no futuro é um movimento divertido, é uma promessa, um será-que-é-possível que nos faz entrar na narrativa com certo temor. Não tão bom quanto os filmes anteriores do realizador, a ficção-cristã-tecnológica adiciona uma pitada de comédia na atual cinematografia brasileira.