O estranho paraíso de Aronofsky em Mãe!

No cristianismo, o pecado original é a doutrina da imperfeição humana, do mal e do sofrimento, é a queda do homem por ele mesmo. Adão e Eva gozavam do paraíso antes da chegada do intruso. A Serpente surge no Jardim do Éden para instigar os dois habitantes da terra a cometerem o único delito que foram advertidos a não fazer. A mulher, criada a partir do homem para satisfaze-lo é quem posterga as ordens divinas.

Em 2017, um tema em comum repetiu-se dentro de alguns filmes: o do intruso. Em O estranho que nós amamos (The Beguiled, 2017), o invasor vem em forma de um homem solitário que foge da Guerra da Secessão, em 1864. No longa Ao Cair da Noite (It Comes at Night, 2017), uma família de três integrantes se hospeda em uma casa que tenta se sustentar em um cenário pós-apocalíptico. Já em Mãe! (Mother!, 2017) é uma multidão, que em uma alusão a todas as pessoas do mundo, invade o ambiente.

O sétimo longa de Darren Aronofsky – que conta com filmes de grande sucesso de público como Cisne Negro (Black Swan, 2010) e Réquiem Para um Sonho (Réquiem for a dream, 2000) -, conta a história de um casal que tem sua ordem abalada com a chegada de estranhos. Mãe (Jennifer Lawrence), é uma mulher que parece feita aos moldes para servir a Ele (Javier Bardem), seu marido escritor que passa por uma fase difícil. Ela tem como principal atividade a conservação da casa, estabelecendo uma relação pulsante com a mesma. A vida dos dois habitantes segue uma rotina que abruptamente é rompida com a chegada do Homem (Ed Harris), sua Mulher (Michelle Pfeiffer, em uma atuação tão provocante quanto em Susie e os Baker Boys) e posteriormente os filhos do casal (Brian Gleeson e Domhnall Gleeson).

Narrativamente poderíamos apontar a chegada do Homem como o pecado original, a serpente que ingressa ao paraíso. Porém, antes mesmo de alguma persona non grata tocar a campainha do casal, aspectos técnicos já indicavam o tom que regeria o filme por suas quase duas horas: o exagero. A câmera de Matthew Libatique – parceiro de Aronofsky em todos os longas -, avulta o suspense em clichês mal trabalhados, como a escuridão em demasia e o excesso de primeiros planos na personagem principal, esse último ainda reforça uma Jennifer Lawrence com dificuldades em segurar o papel. Há momentos em que a câmera, na tentativa de reforçar a opressão sofrida por Mãe, sufoca o público em um rosto sofrido e desesperado, explicitando o que temos que sentir, como se todo o resto já não estivesse trabalhando para isso. É um filme que muda de tom muito rispidamente – flutua entre terror, suspense e drama -, estratégia narrativa que Hitchcock também usava para prender a atenção do espectador. O público tem que estar atento para a história funcionar e para a história funcionar tem que haver alguns imprevistos e mudanças.

Todos os personagens sangram, metaforicamente ou não. A casa, mártir da busca do homem pela inspiração, carrega chagas. Uma extensão de Mãe, que sofre em todos os atos com ela. A figura da mulher é rejeitada como qualquer coisa além de apaziguadora, personifica a casa que sangra, que quebra, que caí, que se sacrifica. Sacrifício. O sacrifício, em geral, consiste em oferecer a Deus uma coisa sensível, e destruí-la de alguma maneira, para reconhecer o supremo domínio que Ele tem sobre nós e sobre todas as coisas. Uma pessoa deve se oferecer para o bem da humanidade, deve ser engolida pela multidão. Em Mãe!, Aronofsky não cansa de insistir no sofrimento, camuflado por uma vontade de posicionar a figura materna como central, evidencia a violência gratuitamente, o ser-mãe objetificado, tudo é muito exagerado. Há quem diga que é um filme feito do diretor para ele mesmo e há outros ainda que defendem que todo filme é uma obra narcisista.

Dificilmente uma análise do filme não vá se deter em algum desses atravessamentos já citados, seja das alegorias bíblicas ou da figura da mulher. É um longa que dividiu opiniões de críticos e público, um marketing perfeito para um filme feito em um estúdio Hollywoodiano que não está em um molde de blockbuster, ponto positivo para obra, considerando a massiva produção de conteúdo sem teor intelectual ou artístico que domina as salas de cinema.

O filme acaba com uma espécie de explicação para algumas ações que até então não se justificavam. Saímos impressionados, de maneira positiva ou não. É uma experiência que aguça os sentidos, por mais direcionados que eles tenham sido. Enquanto a figura da mulher se fecha na trama em uma espécie de Eterno Retorno, implicando em um ciclo infindável de submissão em virtude de um bem maior, que nesse caso é o d’Ele. A ordem continua mantida, pelo menos até a Serpente regressar ao paraíso.

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