O dois em um de As boas maneiras

É automático que se associe o nome da cineasta Juliana Rojas ao cinema fantástico. Em seus trabalhos anteriores, a diretora fez uso de elementos do suspense e do terror para contar suas histórias, em geral com algum comentário pertinente de ordem social. No longa Trabalhar Cansa (2011), parceria com Marco Dutra, o mistério e o drama se unem em um minimercado onde o desemprego, a relação patrão-empregado e fenômenos estranhos conduzem a narrativa. Já em Sinfonia da Necrópole (2014), certo humor surge em um musical que se passa em um cemitério e oferece um discurso claro sobre a especulação imobiliária.

Neste As boas maneiras (2017), Rojas volta a trabalhar com seu parceiro habitual e flerta com o universo dos lobisomens. Na trama, Clara, uma empregada doméstica da periferia de São Paulo, é contratada para acompanhar e auxiliar Ana, mãe solteira de classe alta, em sua gravidez que se mostra arriscada com o passar do tempo. Aos poucos, a necessidade incontrolável de Ana por carne vermelha e seu sonambulismo trazem à tona estranhos e bizarros acontecimentos que antecipam a chegada de uma perigosa criatura.

É positivo que, mais uma vez, o universo misterioso seja também pautado com um humor afiado que aqui surge da relação de ambas e dos tipos sociais que representam. Enquanto Clara se mostra tímida e submissa, Ana é expansiva. A carga maior de humor depende da personagem da patroa, carregada por uma atuação surpreendente de Marjorie Estiano. Seu apreço pela música sertaneja, o sotaque e suas manias de interiorana de classe alta são satirizadas o tempo todo. Contudo, ainda que se costure a personagem com divertidas caricaturas – ela fez curso de etiqueta, o ex se chama Aécio e “top” é certamente parte do seu vocabulário – há profundidade no desenvolvimento da figura mesmo em seus momentos mais fabulescos. Reside nela um dos pontos altos do longa.

Por outro lado, Clara (interpretada pela ótima Isabél Zuaa) é pobre, negra, precisa pagar o aluguel atrasado e seu lesbianismo não é mera sugestão. Não à toa é apresentada ao espectador por trás das grades de um portão de condomínio. Em seguida, é sugerido a ela que use o elevador de serviço. Sua condição segue quando a patroa solicita afazeres muito além do que se espera de uma babá. E ainda assim, uma estreita relação surge entre ambas numa quase típica situação da “empregada que é praticamente da família”. Quase, porque seu papel aqui também é de testemunha de uma série de acontecimentos que vão da sugestão ao gore total.

Em sua impecável primeira parte, As boas maneiras tem tudo muito bem orquestrado e dosado. Relacioná-lo a títulos como O bebê de Rosemary (1968) é praticamente inevitável já que o filme se vale de uma figura que literalmente está em processo de gestação do mal. É também a construção da relação de duas personagens dentro de uma trama fantasiosa, mas que lida com questões de classe, gênero, conservadorismo e sexualidade. O filme ainda se mostra ousado ao flertar com o musical e a animação sem medo dos estranhamentos que o cruzamento de gênero possa causar no público. Contudo, a partir de um sangrento ponto de virada, o trabalho parece perder um aparente frescor que trazia até então, ou pelo menos seus pequenos atrevimentos.

A já antecipada chegada de uma criatura monstruosa, em princípio, eleva o filme a outro nível de riso nervoso. A forma como surge, seus movimentos e design são equilibradamente assustadores e ridículos. O domínio do terror e da comédia é claro: neste momento preciso, não é como se houvesse uma intercalação dos gêneros e sim um movimento concomitante. Entretanto, passada a introdução a essa segunda parte, o longa se entrega a certos lugares-comuns. O humor se dissolve, o musical já não encaixa tão bem e, ainda que as observações sociais permaneçam pertinentes, a narrativa, antes crescente e complexa, não parece mais evoluir. A sensação é de que dois textos distintos se conectaram num mesmo filme. A passagem do original para o protocolar é sentida e as mais de duas horas de projeção, aceleradas pelas boas ideias do primeiro segmento, seguem a passos lentos no segundo.

Ainda assim, a fotografia de Rui Poças entende os espaços e a narrativa, investindo em uma bem vinda artificialidade na primeira metade e buscado um maior realismo na segunda. Assim também é a direção de arte de Fernando Zucolotto que, além de evidenciar os contrastes entre espaços tão distintos, chama atenção em ostensivos objetos de cena no apartamento de Ana, seja em um talher gritante ou em uma lareira virtual. As cores azuladas parecem dizer o tempo todo ao espectador “é tudo fantasia”, e aí é interessante como esse mesmo azul é perpetuado em diferentes situações, seja na tinta que mancha a pele de um personagem, seja diluído entre as tábuas na parede da periferia, indicando que o elemento fantástico maior ali reside.

E por mais que sofra com uma brusca mudança ao longo da projeção, As boas maneiras se mostra louvável como exercício de estilo e sob grande domínio narrativo em sua primeira metade. É tanto que nem sua sequência menos inspirada faz com que o espectador esqueça a experiência anterior, ainda que a dilua. É de se imaginar a força que teria o plano final, já cheio de significado e impacto, caso a condução permanecesse na mesma altura.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *