O cinema no armário em Me Chame Pelo Seu Nome e Beach Rats

Existem duas formas errantes de descobrir o mundo: através de um coração partido ou através da incompreensão. Ambas são uma busca pelo amadurecimento. Através dessas duas estradas, duas recentes produções retratam personagens gays ao trilharem concepções muito particulares sobre um mesmo tema. A primeira é o aclamado e indicado ao Oscar Me Chame Pelo Seu Nome (Call me by your name, 2017) e a segunda é a sensação indie – inédita nos cinemas e festivais brasileiros, mas agora disponível pela Netflix -, o drama Beach Rats (2017). Apesar de caminhos e ambientações muito distintos, as duas produções se encontram em diversos momentos traçando um certo paralelismo. Resumidamente, são filmes que retratam as dificuldades de personagens gays ainda em armários, enrustidos quanto a sua condição e descobrindo maneiras de se relacionarem com outras pessoas e amadurecerem (ou não) nesse processo. Chamada de “estética do armário”, esse filão no cinema queer, para alguns críticos, só perpetua uma visão padronizada dos homossexuais e, no cenário atual, regride o retrato dos gays a um clichê dos filmes dos anos 90, época em que produções com essa abordagem atingiram seu auge. Para outros, porém, é uma maneira de mostrar que independente de ser na Itália de 1983 ou nos Estados Unidos de 2017, ainda existem histórias complexas sobre o tema da autodescoberta e auto-aceitação. Como conclusão breve, é um atestado que persiste ainda a dificuldade de alguns membros da comunidade LGBTQ em sair dos armários devido a preconceitos e estigmas da nossa sociedade.

Ambientado no litoral italiano de 1983, o filme de Luca Guadagnino é uma adaptação do romance homônimo de André Aciman e trata da história do jovem Elio (Timothee Chalamet) que aguarda religiosamente a cada verão a chegada de algum dos alunos de seu pai (Michael Stuhlbarg). Os jovens que chegam são imersos na região litorânea para relaxar e refletir sobre suas teses e, em suma, receber alguma orientação a respeito do trabalho. Acontece que a chegada do americano Oliver (Armie Hammer), de expressões quase monossilábicas e desdenhosas, traz consigo diversas descobertas e desafios para o universo (não tão) ingênuo de Elio. Aos poucos, os jovens se aproximam quase como em uma valsa sensual de ações e desejos. É um filme com abordagem sensorial, de um amor romântico e juvenil. Talvez resida aí a forte avalanche de críticas ao filme por tratar com tons românticos uma história que em outros momentos e contextos foi tida por diretores como tóxica e com muito mais nuances de complexidade. Mas não de Guadagnino construir aqui um Teorema (1968), de Pasolini. Aliás, é uma comparação vazia que é difícil de compreender como alguns críticos chegaram a isso. O filme de Pasolini passa longe das referências do diretor. O único ponto tóxico na narrativa é dificuldade dos personagens em se permitirem. Aliás, essa visão nada permissiva avança para a direção de Guadagnino, repleta de pudores ao não filmar a tão citada cena de sexo entre o casal de protagonistas. Mas retornando à auto-aceitação dos personagens, Oliver e Elio oscilam entre relacionamentos heterossexuais como um reflexo da dificuldade de aceitarem quem são. Oliver acaba permanecendo no armário, mas Elio, bem apoiado por uma família de acadêmicos progressistas, parece encontrar a perspectiva de uma certa plenitude.

Por sua vez, Beach Rats (2017), dirigido pela revelação Eliza Hittman e com belíssima fotografia de Heléne Louvart, caminha nos dias atuais por uma abordagem mais melancólica e não muito otimista. Apesar de tratar do tema de auto-aceitação o seu protagonista, Frankie (Harris Dickinson) não parece decidido a enveredar por essa estrada. Vivendo com a mãe que se desdobra em várias para manter a casa e a família estruturada, o jovem se divide em azarar algumas garotas, caminhar com os amigos pelo Brooklyn e até fazer pequenos roubos. Lembra um pouco das produções francesas dos anos 60 sobre garotos errantes. Acontece que em Beach Rats, Frankie esconde um segredo: à noite ele tira fotos sensuais e posta em uma rede social de encontros entre gays. Acaba optando por homens mais velhos e que não convivem no seu próprio meio. É uma seguridade e uma forma de separar seus desejos da sua vida infelizmente desestruturada e medíocre. O meio não o favorece a alcançar a plenitude de Elio.

É necessário notar em ambos os filmes a maneira como os protagonistas lidam com as relações como veículos de auto-afirmação. Elio, Oliver e Frankie são três homens que usam das mulheres como formas de re-afirmarem sua heterossexualidade. Se os jovens do filme de Guadagnino parecem firmados em uma bissexualidade, o jovem Frankie, por outro lado, parece projetar mais a necessidade de ser hétero e falha constantemente no sexo com sua “ficante”. Acaba frustrado e forçando uma vida que não o completa.

Existe também o contraste entre as produções. Enquanto o diretor italiano explora o sensorial dos toques, olhares e afeto entre seus personagens, o filme de Hittman quase não entrega essa possibilidade devido a contenção em que seu protagonista se encontra. Afinal, Frankie não parece inteiramente disposto a viver a plenitude de uma relação. Não há espaço no ambiente em que vive para isso. Mas é necessário aqui destacar a estrutura familiar de cada um deles e como ela acaba moldando os personagens. Elio possui pais progressistas com uma visão de mundo e rotina anômalas ao padrão e para a época. Frankie vive de maneira errante e numa família e ambiente desmantelado por dificuldades econômicas, sociais e culturais. É emblemática uma das cenas finais em que Frankie observa um casal de garotos se beijando no vagão do metrô. É como se aquele universo ao qual ele pertence, apesar de tão próximo, possa ser tão distante e quase impossível de alcançar.


Nesse contraste que em alguns momentos se transforma em algo em comum, Me Chame Pelo Seu Nome e Beach Rats ganham por retratar a existência de um leque de possibilidades dentro do tão temido armário ao abordar que, independente dos anos 80 ou em 2017, a sociedade ainda tem suas dificuldades a respeito da sexualidade. Se alguns compreendem e incentivam que outros alcancem aquilo que estão destinados a ser, por outro lado, o mundo pode ser um local onde algumas pessoas ainda se sintam errantes dentro do ambiente em que vivem. Enquanto isso o cinema e suas produções, com seus erros e acertos, continuam trabalhando para mostrar que há muito a se fazer como audiovisual e como sociedade, dando espaço e oportunidade para que todos possam enfrentar corações partidos e a própria sexualidade plenamente.

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