Mad Max – A Estrada da Fúria: não precisamos de outro herói

Refilmagens e continuações de filmes cult sempre mobilizam fãs, especialmente se esse cult vem lá do baú nostálgico dos anos 80. Mad Max – A estrada da fúria (Mad Max – Fury Road, George Miller, 2015) é o exemplo atual disso. E nada cheira mais a espírito nerd que ser fã de um filme ou trilogia tosca oitentista. Como nerd dos anos 80 que sou, posso ser categórica: nada mais irrita um fã nerd que uma mudança de paradigma. Especialmente se essa mudança de paradigma envolve mexer direto na tradição macha das narrativas fantásticas dos anos 80. Estrada da Fúria, agora nos cinemas brasileiros, também criou inimigos (entre eles os Ativistas dos Direitos dos Homens) por deixar de lado o protagonismo do ícone do cinemão machista, o cavaleiro solitário e auto-suficiente, e tem tudo para ser classificada com um dos top 10 filmes feministas da década. Se você é um fã de cinema distópico e/ou de ação, vai estranhar. Mas, apesar da polêmica, a “sequência” de Mad Max – Além da cúpula do trovão (Mad Max – Beyond the Thunderdome, George Miller, George Ogilvie, 1985) ainda é sensacional na ação e na distopia, sem falar em atuações fantásticas e fotografia, direção de arte e design de som de primeira.


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Estrada da Fúria finalmente chega às telas 30 anos depois do último filme da trilogia. Talvez por esse vácuo, mas principalmente por trazer um herói repensado em uma narrativa bastante fora da iconologia de ação e ficção distópica daquela década, o filme que nos chega agora é meio sequência, meio remake. Como tal, não renega suas raízes, não busca “refazer” o que nunca pode ser refeito e nem faz um arremedo de sequência para uma trilogia que nasceu obscura e underground por excelência e que acabou tomando o vulto de hoje filme de culto. Estrada da Fúria rememora o melhor da trilogia Mad Max, mas subverte tudo o que já foi posto antes quando centra a narrativa na cooperação entre dois personagens principais, um homem e uma mulher, o que gera uma mudança radical nos rumos de uma sociedade dominada por um Imperador totalitário típico – Immortan Joe. Não, Max não achou sua “namoradinha”. Não, Furiosa não é escada para o heroísmo de Max. Pelo contrário: o herói-guerreiro-cavaleiro solitário dessa saga é que está a serviço da causa de Furiosa. E sua cooperação se dá por crença genuína na justiça dessa causa – que, em última análise, é matriarcal e tem na libertação das mulheres de um patriarcado alegórico e fetichista um dos principais motores. E, pasmem, a tensão entre os dois passa longe de ser sexual.

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A premissa dos filmes anteriores nos leva, agora, à terra arrasada de um universo distópico em que vamos acompanhar a história da desobediência civil num mundo além da civilização. Nesse mundo, Immortan Joe é o imperador totalitário que comanda a Cidadela, controlando a água e outros recursos naturais cruciais em pleno deserto infértil. Seu regime de dominação conta, claro, com a centralização na figura de um líder mítico, escravidão física e laboral de sujeitos mais frágeis, escravidão emocional dos que são mais fortes, massacre de uma população que é condenada à fome e à sede e relações diplomáticas com outros líderes igualmente despóticos e perversos. Nada de novo no universo da distopia oitentista, não? Não. A diferença está no centro da ação nessa jornada de fúria: líderes decrépitos representados por figuras clássicas da dominação patriarcal (pedófilos e perversos sexuais, donos de haréns e cafetões, abusadores do corpo feminino e seus filhos ilustres criados como seguidores acéfalos de uma supremacia bruta) contra mulheres etéreas que insistem em ganhar a materialidade da carne e osso, matriarcas jovens e idosas em um regime de sororidade sem precedentes e uma Imperatriz Furiosa de voz doce e olhar intimidador. Sem as “sacadinhas” machistas por parte dos protagonistas, como cabe ao cinemão do gênero. E Max, onde está nessa história toda? Ajudando as mulheres, que ele não é nenhum louco. Porque, veja bem, ninguém disse que precisávamos de um outro herói. Engole areia aí nerdão!

 

Ilustração de capa: Furiosa, por Gabriel Raatz.

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