Não Devore Meu Coração! ou Até a Derrota

Um animal morto na estrada leva um motoqueiro, até então não entendido como Cauã Reymond, a derrubar sua moto para fora do asfalto – e de quadro. A câmera se movimenta em panorama à esquerda, revelando não um homem acidentado, mas sim ajoelhado, visor do capacete fitando a lente que se aproxima através de um afetado zoom. Uma imagem suspensória, plano inaugural que antecipa uma jornada fantasiosa, aptamente dividida em cinco capítulos [jocosamente entitulados Meninos de Peito Vazio; A Guerra das Lágrimas; Porque Esse Nosso Amor Quebrou Meu Peito ao Meio; A Fuga do Cowboy Covarde; e A Batalha de Ñande Pa (Lágrimas da Menina Jacaré)], onde um inesgotável inventário simbológico dá conta de ilustrar e construir uma mitologia própria, distintamente latino-americana.

É laudável que Não Devore Meu Coração! (2017) ambicione representar a possibilidade de novos caminhos a se trilhar no cinema contemporâneo nacional, quebrando as amarras da unicidade “realista” ao aderir a uma lógica lynchiana, de certa forma também se assemelhando ao recente Mate-me Por Favor (2015), de Anita Rocha da Silveira. O primeiro longa solo de Felipe Bragança após A Fuga da Mulher Gorila (2009) e A Alegria (2010) (codirigidos com Mariana Meliande), porém, acaba se perdendo ao tentar compreender vertentes demais, não decidindo ao certo o que deseja ser – ou para quem se dirige. Inspirado em contos do livro Curva de Rio Sujo, de Joca Reiners Terron, o filme é ancorado por Joca (Eduardo Macedo), pré-adolescente cujo coração é metaforicamente roubado pela jovem paraguaia-guarani Basano (Adeli Benitez), nessa fábula fronteiriça entrecortada pelo rio Apa, que divide as cidades de Bela Vista e Bella Vista.

A intenção é apropriar-se do fantástico como alegoria à herança de tensões provenientes da Guerra do Paraguai, devidamente contextualizada através dos letreiros expositivos e reproduções pictóricas que inauguram a projeção. O antagonismo entre duas nações é representado pela rivalidade entre duas gangues de motoqueiros pop que competem em rachas na calada da noite. O motoqueiro interpretado por Cauã Reymond, Fernando, ou Príncipe, é irmão de Joca e integra a Gangue do Calendário, liderada por Telecath (Marcio Lori), por quem nutre afeto genuíno, imprimindo nele uma figura paterna substituinte a seu pai ausente, fazendeiro e lenda no circuito de rachas (daí o apelido Príncipe para o filho).

Servindo também de ponto de convergência para as inúmeras subtramas, a relação entre os irmãos contrapõe as ressonâncias da masculinidade nas quais o conflito se manifesta, Fernando como força/rusticidade, Joca como amor/inocência, até o momento em que estes papéis se unem em simbiose. Em certo momento da trama, Joca. com o apoio de seus sidekicks, se propõe a lutar “até a derrota” por um beijo prometido por Basano e não cumprido. Durante o filme, Basano é pressionada tanto por seu primo (Mario Verón), membro da gangue paraguaia, quanto por Joca, a cuja “insistência romântica” ela, repentinamente, cede, apesar de anteriormente resistir de maneira ferrenha.  São poucas mulheres no elenco, justamente pelo filme se desenvolver em torno das angústias decididamente masculinas que pintam esse contexto histórico. As mulheres, aqui, estão alheias à retrógrada rivalidade.

Na prática, Não Devore se confunde, elaborando um universo em que nomes como Telecath são proferidos de maneira séria, ao mesmo tempo em que questões sociopolíticas graves são romantizadas como pano de fundo. O notável apreço pela composição de visualidade e diegese características não se estende ao roteiro, que se limita a manter suas nuanças na superfície, abolindo quase completamente o subtexto. Por isso, nem mesmo os atores parecem entender ao certo de que filme participam, provocando uma confusão de regimes dramáticos.

Lançando mão de extenso repertório referencial, o filme parece nortear seus mecanismos pelas possíveis correspondências iconográficas de cada momento, esvaziando o potencial discursivo da trama, à qual a estética neon oitentista serve apenas de invólucro. A memória da Guerra, tão alardeada pelos personagens, se manifesta da mesma maneira que, por exemplo, a trilha musical à la Corrente do Mal (David Robert Mitchell, 2014). São peças de um projeto estético que pretende justificar-se por si. Assim, por mais difícil que seja reduzir uma obra a “estilo sobre substância”, Não Devore Meu Coração! inevitavelmente demonstra-se um dos exemplos mais flagrantes desta prática.

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