Na Vertical – Na terra dos homens

Alain Guiraudie desenvolve um cinema que primordialmente retrata o universo do homem e a sua masculinidade, além dos relacionamentos e sexualidade ambíguos. Dentro desse ambiente essas facetas surgem e se revelam profundas como forma de conforto ou sobrevivência. Na Vertical (Rester Vertical, 2016), selecionado para o Festival de Cannes em 2016, talvez seja o auge do diretor em retratar o conflituoso e dúvido universo de seus personagens masculinos. Misturando o onírico com um tom quase documental, Guiraudie realiza um filme de reações extremas tanto dos personagens como dos espectadores.

Acostumado a filmar a França longe de sua capital, o realizador retorna ao seu universo interiorano após o sucesso de Um Estranho no Lago (2014) e o mote aqui é partir da história de Leo (Damien Bonnard), um cineasta em crise e que encontra dificuldade em desenvolver o roteiro de seu mais novo filme. Vagando pelo interior do país, ele acaba se deixando seduzir pela pastora e mãe de dois meninos, Marie (India Hair), a qual vive com o silencioso e estranho pai (Raphaël Thiéry) em uma pequena fazenda temendo a chegada dos lobos que podem atacar o seu rebanho. Os encontros entre Marie e Leo se tornam regulares e a personagem logo engravida e dá à luz a um menino. Claramente sofrendo de depressão pós-parto (seria por mais um menino posto ao mundo?), Marie abandona o pai, Leo e o seu bebê. Não aceita essa vida imposta e ser sugada por esse universo masculino mais uma vez. Suas justificativas são as mais excepcionais e feministas, dando ao público vários questionamentos e conclusões importantes.

Mas Guiraudie logo deixa Marie de lado e desenvolve seu filme no entorno de Leo e o bebê e em como esse universo entra em total descompasso e desconstrução quando a figura da mulher é tirada de cena. Os homens automaticamente colocam-se em um modo automático, autodestrutivo e de um tipo de sobrevivência bizarra em meio à vida, a morte e o sexo, esse último uma das máximas do filme. Afinal o sexo é o centralizador da própria natalidade e, no caso de Guiraudie, até mesmo a morte.

Entrando em uma busca pelo reconhecimento da mulher pelo recém nascido e para que ela possa criá-lo e assim Leo prosseguir com suas responsabilidades comuns aos homens, o trabalho, o personagem entra em uma espiral de acontecimentos extremos que não deixam de testar a sua própria sanidade. A recusa de Marie em aceitar a criança e colocando sob responsabilidade do pai acende um descontrole no protagonista. Na visão de Guiraudie, compartilhada com o estereótipo quase universal, não é que os homens não possuem a capacidade de realizar multitarefas, eles somente não as executam aguardando que uma mulher se responsabilize por elas sem dar o devido valor.

E entre o erotismo que não se dispõe a corpos esculturais e relações comuns, Guiraudie encaminha a trama para uma espiral de acontecimentos e fuga das diversas responsabilidades de Leo. Descambando em breves momentos de teor onírico da produção, seja no ataque dos mendigos que parece ter saído de um filme de George Romero ou quando o protagonista busca uma curandeira em uma região pantanosa, o realizador apresenta uma obra excepcional. Aliás, esse período de reclusão forçada quando seu agente e curandeira o mantém preso na floresta é no qual a vida do protagonista parece entrar nos trilhos. Mas logo a fuga precisa continuar. Uma fuga que é das responsabilidades e qualquer tipo de estabilidade.

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