Mulheres no cinema: Kathryn Bigelow

Trinta anos separam o seu curta-metragem de formatura na Universidade da Columbia até o Oscar de Melhor Direção, o primeiro a ser entregue a uma mulher na história da premiação. Neste meio tempo, a cineasta Kathryn Bigelow dirigiu sete longa-metragens que foram do horror vampiresco ao drama de época. Na maior parte deles, uma predileção por certa violência e convenções do gênero de ação é notória. Há, porém, espaço para algumas surpresas, caso da personagem de Jamie Lee Curtis em Jogo Perverso (Blue Steel,1989), protagonista feminina em um nicho dominado por machões.

Se o empenho de Bigelow em tratar de questões bélicas e conflitos já se mostra claro em seu patriótico K19: The widowmaker (2002), é a partir de Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2008) que ela passa a firmar uma assinatura autoral em sua direção. Neste microcosmo de desarmadores de bombas americanos em Bagdá, o roteiro do jornalista Mark Boal se pauta mais na vivência cotidiana dos soldados e seus eventuais retornos para os EUA do que na pirotecnia que se espera de um filme de guerra. Com este material em mãos, a diretora opta pelos registros realistas de uma (muitas vezes nervosa) câmera na mão e zooms rápidos e pouco discretos. O resultado é uma obra com ares semi-documentais, onde a urgência de seu conteúdo – a ocupação do Iraque ainda se dava quando da estreia do longa – é amplificada pela linguagem pulsante adotada pela cineasta.

A parceria entre Bigelow e Boal se repete no também urgente e polêmico A hora mais escura (Zero Dark Thirty, 2013), narrativa onde, em meio a uma gama de personagens indispensáveis, a agente Maya (Jessica Chastain), da CIA, traça sua caçada a Osama Bin-Laden. No longa, questionado principalmente por seu retrato dos atos de tortura praticados pela CIA, Kathryn mais uma vez abraça uma estética operacional. A sensação é de que as imagens do filme são fruto de um flagrante e não de uma mise-en-scène pré-estabelecida. A título de ilustração, em seu clímax, soldados do exército norte-americano invadem a mansão do chefe da Al-Qaeda. O que o espectador vê é uma alternância entre imagens de uma escuridão quase total e outras subjetivas, registradas a partir de óculos de visão noturna. O que se ouve são suas vozes, passos e tiros, em ausência total de uma trilha incidental que busque tensão pela artificialidade. À cineasta interessa a crueza.

Jessica Chastain no set de A Hora Mais Escura

A personagem de Maya, a agente da CIA, não está na tela para vestir colants ou ser a esposa de algum militar do alto escalão. A ela é designada a responsabilidade, dentro de certa hierarquia, de encontrar Bin-Laden. Ela tem nome fictício, mas é baseada em um figura real. A protagonista de Bigelow trabalha, é obstinada e não parece ter uma vida pessoal. Sua entrega ao próprio posto a condena à solidão. Não é vítima, não é heroína. Suas fraquezas e fortalezas são estraçalhadas pelo olhar da diretora. Se ao final de sua missão não há planos gloriosos de vitória, nem mesmo suas lágrimas expressam satisfação: da completude de seu trabalho irrestrito e talvez inglório restam apenas a estafa e o vazio.

Da complexidade e do tratamento dado à personagem pela diretora, veio o discurso de gratidão da atriz Jessica Chastain ao receber o Globo de Ouro pelo papel. Na ocasião, disse que Bigelow, ao desobedecer as convenções de Hollywood, faz muito mais pelas mulheres no cinema do que ela pensa fazer. De fato, não somente por suas personagens, mas também por sua postura em assumir um cinema de conflitos que ainda fervem – seu último trabalho, Detroit em rebelião (Detroit, 2017), é a prova disso –, a coragem da cineasta salta aos olhos. Mais do que isso, o approach singular de suas narrativas a destaca dentro de um cinema americano que trata temas desta estirpe sempre preso aos tratados de gênero. Poucos são os que se desvencilham destas amarras. Kathryn Bigelow é uma delas.

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