Mulheres no Cinema: Dee Rees

Formada pela Universidade de Nova York, a diretora e roteirista estadunidense Dee Rees vem se destacando nas principais premiações de cinema do mundo. Negra e lésbica, a cineasta não deixa de abordar raça, gênero e classe em suas obras. Seus filmes são preenchidos por sua vivência, o que os torna tão viscerais e potentes.

Seu primeiro filme Pariah (2011), foi desenvolvido a partir do curta-metragem de mesmo nome produzido em 2007 como obra de conclusão de sua graduação. O longa, que conta a história de Alike (Adepero Oduye), uma adolescente lésbica de 17 anos, moradora do Brooklyn e de família religiosa, aborda a descoberta da sexualidade e os conflitos em busca de aprovação. Inspirada por sua experiência pessoal, Dee Rees partilha com a protagonista a mesma condição; como o próprio título sugere, alguém que não se encaixa na sociedade. Para a realização do projeto, a cineasta contou com a ajuda de Spike Lee, a própria o considera seu mentor.

Adepero Oduye em cena de Pariah

Logo após a realização e êxito de Pariah, Dee Rees realiza Bessie (2015), um filme para a televisão que conta a história de Bessie Smith (Queen Latifah), cantora de blues dos anos 20. Um longa de performance que une a grande atuação de Latifah com uma Rees mais madura e com maior domínio de linguagem. O longa é ganhador da categoria de melhor filme no Critic’s Choice Awards. Em entrevistas, a cineasta conta como trabalhar para a TV é menos desgastante e que considera o espaço mais abrangente. É com o segundo filme que a realizadora se firma como autora.

O mais recente filme a assegurou uma indicação ao Oscar, sendo a primeira mulher negra da história a concorrer na categoria de melhor roteiro adaptado com Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi (2017). O longa foi vendido a Netflix no valor de 12 milhões de dólares e é um drama que narra a história de duas famílias – uma branca e uma negra – vivendo na área rural durante a Segunda Guerra Mundial. É um cenário de racismo no sul estadunidense que acusa uma hierarquia e localiza no ambiente familiar conflitos de raça. Mais uma vez a cineasta se posiciona dentro da trama e adiciona detalhes da vida de sua avó na narrativa adaptada de Hillary Jordan.

Dee Rees dirige a cantora e atriz Mary J Blige em cena de Mudbound

Dee Rees é atenta aos detalhes das histórias que conta. Como roteirista faz o trabalho de buscar identificação com seus personagens. Como diretora tem a insaciável vontade de se desafiar. Firme, a cineasta já recusou convites de estúdios para produzir suas obras, prefere manter-se como artista independente. Seu cinema lembra muito o vigor de Nova York nos anos 90, expoente em filmes como Straight out of Brooklyn (1991), de Matty Rich e Just another girl on the I.R.T (1992), de Leslie Harris, além da influência direta de Spike Lee.

O cinema, a televisão e o streaming são usados além do entretenimento, todos são ferramentas de inclusão e de representatividade. O cinema, na forma independente, garante a liberdade na abordagem de assuntos delicados e muitas vezes velados em discursos conservadores. Os novos realizadores que surgem com a necessidade de voz se fazem potentes em sua linguagem, utilizam do dispositivo para além de criar, se ver, se projetar em conjunto com os frames. Há quem desconfie dos rumos do cinema, os pessimistas, mas há também quem acredita na beleza dos conflitos para gerar histórias.

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