Mulheres Alteradas e antiquadas

A junção de um grupo de protagonistas femininas insatisfeitas com a própria vida, seja ela profissional ou amorosa, é mote desde os primórdios do cinema comercial lá em Hollywood. Não foi invenção de Sex and the City. Por exemplo, o diretor George Cukor já realizava tal feito com As Mulheres (1939) no qual um grupo de amigas descobre a traição do marido de uma delas e uma guerra entre os sexos (e as mulheres) se instala. Logo, é costume do gênero das comédias românticas reunir um grupo de mulheres para desbravar temáticas relacionadas ao universo feminino e também masculino com suas nuances e complexidades. No Brasil, tal feito já ganha um destaque recente, a adaptação dos quadrinhos da escritora argentina Maitena em Mulheres Alteradas (2018).

Em tramas paralelas, as amigas Keka (Deborah Secco), Marinati (Alessandra Negrini), Sônia (Monica Iozzi) e Leandra (Maria Casadevall) desbravam as dificuldades que não são somente problemáticas da mulher moderna, mas que perpassam séculos e gerações: maternidade, casamento, carreira e liberdade. Keka se dedica a um casamento fracassado com um marido insolente enquanto é secretária de Marinati, uma workaholic que não dorme com os homens que transa. Amiga de ambas, Sônia lida com a maternidade e se encontra à beira de um ataque de nervos, é quando sua irmã, Leandra, aparece com a ideia delas trocarem experiências. Leandra é solteira e de súbito decide experimentar com os sobrinhos como é ter uma vida mais maternal enquanto Sônia vivencia a vida de festas de sua irmã.

Dirigida por Luis Pinheiro (das séries Lili, a Ex e a recente Samantha!) e com roteiro de Caco Galhardo, a produção parece seguir à risca o manual de adaptação dos quadrinhos com uma montagem e intervenções na tela que são instigantes e remetem ao tipo de publicação. Infelizmente, Mulheres Alteradas carece de algo bem mais importante que pirotecnia: a diversidade do universo feminino e suas complexidades. As mulheres aqui representadas são estereótipos fracos que destoam do momento que as mulheres buscam com visões de mundo e representação. O filme parece uma daquelas pessoas que temem a palavra feminista e que dirá um feminismo abrangente e acolhedor. Por exemplo, em um país como o Brasil, com uma população tão grande de mulheres negras, elas parecem não ter lugar no universo adaptado da escritora argentina para o nosso país.

Existe sim a química entre as atrizes, que é exemplar e deliciosa de ser assistida. Tanto que a produção é um veículo que transparece as capacidades de transformação e belo timing cômico de Secco e Negrini.  Mas além disso pouco se desenvolve entre as tramas que emergem de um emaranhado de clichês. Talvez a mais interessante, porém pouco desenvolvida, seja a história da personagem de Monica Iozzi e sua bissexualidade. De resto, tudo demonstra ser um tanto antiquado para os dias de hoje, um pouco como as tirinhas de Maitena e a simplificação feita por George Cukor sobre o universo feminino lá em 1939.

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