Mulher-Maravilha: trajetória de empoderamento

Mais de 70 anos foram necessários para Hollywood e, porque não dizer, o mundo entenderem que uma super-heroína poderia estrelar e fazer sucesso num filme baseado em histórias em quadrinhos. É claro que a escolha para tremendo buzz do público e da crítica não poderia ser outra senão a amazona mais conhecida dos nerds e do meio pop. Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017) chegou aos cinemas com elogios rasgados dos espectadores, especializados em cinema ou não, bateu recordes em sua estreia para um longa-metragem dirigido por uma cineasta, foi um ponto de virada para a DC Comics após dois questionáveis filmes e, acima de tudo, trouxe o empoderamento feminino para um meio no qual elas não estão habituadas a serem ouvidas. É uma produção que pode não ser perfeita, mas merece aplausos por todos seus predicados.

A diretora Patty Jenkins teve um hiato de vários anos no cinema (seu último filme como diretora havia sido Monster: Desejo Assassino, de 2003), mas nem por isso perdeu a mão. Muito pelo contrário. No controle de um filme de ação grandioso, com vários efeitos especiais e uma história que gerava expectativas dos geeks tanto quanto a pressão por um grande sucesso, a realizadora mostrou seu talento para conduzir uma trama sensível sem deixar de lado as sequências de batalha que são o grande chamariz do público-alvo. Além disso, recriou para as telonas a gênese de Diana Prince como prova de que não é preciso um sexo específico para que a palavra heroísmo alcance novos níveis.

 

O roteiro capta a essência da personagem que por anos teve sua mitologia recriada nos quadrinhos. Temos a misteriosa Themyscira, ilha isolada dos olhares mundanos com a qual os deuses presentearam suas maiores guerreiras, as amazonas, como ponto de partida para a trajetória da maior heroína da DC. Diana (Gal Gadot) é ensinada desde pequena pela mãe, a Rainha Hipólita (Connie Nielsen) sobre a tarefa principal de seu povo no mundo, enquanto sua tia, a General Antíope (Robin Wright), lhe dá lições de combate para um possível guerra futura. É a chegada do piloto norte-americano Steve Trevor (Chris Pine) à ilha e o combate com os alemães que faz a princesa sair de sua redoma e encarar os olhares externos durante a Primeira Guerra Mundial​, que ela pretende acabar eliminando Ares, o Deus da guerra.

Esta trajetória de Diana é um presente para que o público entenda como ela foi criada em sua visão um tanto ingênua de um mundo cor de cinza. Das cores quentes que remetem à sabedoria criada em Themyscira com seus ideais de igualdade entre todos e o amor das amazonas, a princesa precisa entender como a terra dos homens pode ser preconceituosa e cruel com os outros, seja pela cor de pele ou diferença de gênero. E o tom simplista pode até parecer superficial, mas toca em questões como feminismo e demais batalhas sociais de forma certeira sem precisar ser panfletária. Especialmente quando sabe alternar o drama com o bom humor. Muito deste, inclusive, graças à química entre Diana e Trevor, como se ele servisse como um guia para dúvidas tão ingênuas, porém sinceras, para ela entender como funcionam os casais, porque as mulheres utilizam vestidos em vez de armaduras e, principalmente, as razões pelas quais elas não são ouvidas.

Diana, no entanto, não é burra. Muito pelo contrário. Sua sagacidade e poder tomam forma à medida em que esse conhecimento vai se formando de forma rápida nos poucos dias em que ela convive com tantos seres diferentes e conhece os horrores de uma guerra que nunca termina apesar de milhões já terem morrido por sua causa. É um misto dos ideais do criador da personagem nas HQs, William Moulton Marston, com o desenvolvimento pleno da garota ingênua para guerreira, ilustrado pelas histórias escritas por George Pérez, e até lampejos de ferocidade que atingiram novos patamares com os roteiros de Brian Azzarello nos últimos anos à frente da revista da DC Comics. Um mix do melhor que a personagem já ofereceu aos seus fãs, agora atingindo um público maior ainda com sua versão em carne e osso nas telas.

O filme tem muitos méritos, mas nada seria sem a presença inebriante de Gal Gadot. Na pele de Diana, a israelense mostra que não à toa roubou a cena em Batman Vs. Superman (2016). Mesmo inexperiente na carga dramática, a atriz parece evoluir com sua personagem. Seu apurado timing cômico causa a maior parte dos sorrisos e risadas (especialmente quando divide a cena com Pine) e a ingenuidade da amazona no mundo dos homens parece refletir sua própria busca pela inovação, pelo aperfeiçoamento. Alguns podem reclamar que falta profundidade quando algumas cenas são mais emocionais, mas parece que esta mesma inexperiência em cena casa com as dores que Diana precisa lidar de forma inédita, sejam mortes que lhe atingem pessoalmente até​ a tragédia que ela precisa enfrentar numa guerra de verdade.

Porém, quando já estamos na metade do filme e a protagonista resolve encarar os alemães de frente numa trincheira, se percebe a verdade: Gadot é Diana em estado bruto. Após ouvir vários nãos dos homens à sua volta, seja para se vestir de acordo com a sociedade, ficar em silêncio numa sala onde a testosterona toma conta ou não se meter nas pequenas batalhas e dramas dos atingidos pela guerra, ela entende que é hora da ação e que não é nenhum ser do sexo masculino que vai lhe proporcionar os rumos que precisa. Sem mais disfarce, com seus braceletes, espada, escudo e, principalmente, tiara e laço à vista, ela sobe aquela pequena escada para atravessar a terra de ninguém sozinha. É a metáfora da “voltinha” que Lynda Carter dava na série dos anos 70 para se transformar na Mulher-Maravilha. Mais ainda: é o equivalente ao primeiro salvamento de Christopher Reeve como Superman no filme homônimo de 1978 e que, em toda sua simplicidade, inspirou a diretora Patty Jenkins. É uma sequência crucial que define o heroísmo dentro de cada um na sua interpretação mais romântica e, porque não dizer, verdadeira.

Afinal, o que vemos não é uma mulher que age como um outro super-herói que sai quebrando tudo para salvar o dia. Diana tem sempre o impulso de proteger a todos, até mesmo seus inimigos. Ela é o arquétipo do amor, o que pode até soar brega. Mas, talvez, seja justamente o que um mundo tão cínico precisa: alguém que saiba olhar com empatia para todos, sem exceção​. O filme pode ter algumas falhas. O roteiro, um clímax apressado para concluir a batalha final, vilões caricatos que parecem retirados dos quadrinhos dos anos 40 e até um CGI que soa artificial em alguns momentos. Porém, o recado foi dado sem precisar do laço da verdade: a Mulher-Maravilha faz jus ao seu nome, seja pela força, pelo empoderamento, pelas habilidades na luta e pela inteligência. Principalmente, pela bondade e inspiração que causa a todos ao seu redor. Seja dentro ou fora da tela.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *