A segunda noite de curtas da Mostra Foco, aqui em Tiradentes, trouxe trabalhos onde os espaços desempenharam papel fundamental. No pernambucano Nunca é noite no Mapa, o diretor Ernesto de Carvalho utiliza a ferramenta do Google Maps para criar sua narrativa. O filme mescla documentário dentro de um processo ensaístico enquanto o espectador observa os espaços através do Street View. A sacada do título está justamente na não diferenciação que o mapa faz de tudo que observa. O que ele faz é registrar. Se por acaso flagrou o próprio diretor do curta com uma câmera, flagra também a revista de jovens na periferia por policiais. O texto, em uma narração propositalmente pouco emotiva, traz a frieza e a distância proporcionada pela ferramenta do Google. Durante seus sete minutos de duração, o curta reflete sobre questões como identidade e desapropriação no meio urbano. A apatia do texto e das imagens surte efeito contrário no espectador, que dificilmente fica impassível ao final da projeção.

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O uso do Street View na narrativa de Nunca é noite no Mapa, de Ernesto de Carvalho

O experimental carioca A maldição tropical, com direção de Luisa Marques e Darks Miranda, joga com elementos de registro do Museu Carmem Miranda e do processo de modernização do Rio a partir da construção do aterro do Flamengo. Elementos das obras de urbanização se misturam aos registros de plantas e frutas tropicais, como se nos apontassem para a construção cultural de um imaginário já bem conhecido. Em certo momento, um abacaxi é iluminado por luzes coloridas, como se a fruta fosse um tipo de celebridade. Mais tarde, o fantasma de Carmem Miranda, representação ostensiva do tropicalismo, ronda o museu dedicado a ela. Museu este que agora se encontra temporariamente fechado. Após o aparecimento de discos voadores sobre o Rio, uma voz feminina analisa as obras urbanas modernistas que se mesclam ao verde de uma natureza quase plástica. Um inquieto olhar externo sobre uma terra de contrastantes construções culturais.

Explorando o mundo do “coveiro-escritor” Tico, o documentário paulista Ferroada, dirigido por Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho, vai além do seu protagonista para falar sobre a liberdade e como esta é podada pelo sistema. As referências literárias utilizadas pelo documentário fazem parte do repertório do próprio Tico, com nomes como Vladmir Maiakovski e Fernando Pessoa. Declamações e leituras são, provavelmente, o que o filme tem de menos abstrato. Apostando em devaneios que refletem os pensamentos políticos e criativos de uma figura cujos impulsos são limitados pela sua posição na estrutura capitalista – o cemitério onde ele trabalha, aqui, entra como uma perfeita metáfora –, o curta segue uma narrativa inventiva até seus momentos derradeiros. Um final de festa ambíguo de sentimentos.

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Ferroada, de Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho

Cinemão, curta que encerrou a segunda série da mostra, apresenta o interior de uma espécie de cineclube onde se dão encontros homoafetivos. Não há diálogos, tampouco um único protagonista. A intenção do curta se debruça sobre os desejos sexuais mútuos e sobre o erotismo a partir do corpo masculino. Muito do resultado se deve à fotografia, que aposta em luzes coloridas e espaços dominados pelas sombras. Muitas vezes, o que se vê são silhuetas de homens semi-nus em um circuito de pegação que tem fim no próprio prazer. A direção pouco apressada do cearense Mozart Freire busca nos olhares, e nos esboços de movimento, algum tipo de comunicação que antecede o encontro de corpos e o gozo final.