Tiradentes 2017 | Tempos de ação, reação e reinvenção

No dia 20 de janeiro, na noite de abertura desta edição de aniversário da Mostra de Cinema de Tiradentes, uma apresentação na tela do Cine-Tenda cutucou o público: uma sequência de acontecimentos históricos que marcaram o país desde 1998, ano da primeira edição da mostra, pipocavam na tela em ordem não cronológica. O resultado, e muito provavelmente a intenção, foi de provocar. A plateia presente reagia aos fatos apresentados, em especial àqueles que faziam menção ao quadro político recente.
Tal furor casou perfeitamente com a temática desta vigésima edição, que buscou as reações e reinvenções do nosso cinema em tempos de crise. O curador da mostra, Cleber Eduardo, escreveu um texto sobre a temática que você pode ler aqui, e levou ao seminário de sábado (21/01) alguns dados sobre a edição. Dentre os 157 longas inscritos, três cinemas se mostraram mais recorrentes: os que dialogam com questões de gênero, os documentários em moldes mais observativos e as narrativas que trazem personagens em situações dramáticas em relação aos seus espaços. Outro ponto de grande destaque nesta edição de aniversário são as temáticas, representações e a representatividade feminina no cinema, questão sobre a qual escreverei com mais detalhes em outra matéria durante essa semana de cobertura.


Retornando ao seminário de sábado, no qual era discutida a temática do evento, estavam presentes, além de Cleber, a pesquisadora Patrícia Mourão e o crítico Heitor Augusto, com mediação do também crítico Francis Vogner dos Reis. O curador levou à mesa a questão da reação como uma constatação. Ao comentar a escolha da temática, ele afirmou que o cinema atual está sim reagindo a um quadro político e social. Defendeu o resgate do termo “reação”, que não deve ser exclusividade dos reacionários já que é, em síntese, uma condição física e da própria vida. A provocação, segundo ele, vem com a “reinvenção” presente no título desta edição. Cleber questiona se não há certa sabotagem na premissa dos filmes que se propõem a explorar um conteúdo político sem, contudo, apresentar um formato que faça jus a tal proposta. Qual seria o modo político? Durante esta reflexão sobre “como” abordar e não “o que” abordar, o curador ressaltou a importância dos lugares não alcançados pelo cinema. Trata-se de um desafio: o do cinema não didático, que não ensina, não responde, mas provoca. Para o curador, é no cinema mais deficiente em recursos e feito de maneira mais rápida, que se encontra uma reação e estética mais imediata,  e finalizou afirmando que os momentos de crise, como o que se encontra o país, pedem mais ação dos artistas.
A pesquisadora Patrícia Mourão iniciou sua fala questionando a própria presença na mesa que se propunha a discutir reação e reinvenção, mas também representatividade. Por mais que pesquise o cinema experimental, Patrícia sentiu estar esvaziando um espaço que poderia estar sendo ocupado por alguma militância. Ela se disse pertencente à cota do campo do cinema, composto das “autoridades” que julgam o que vale e o que não vale dentro desta arte. Afirmou que, para alargar o campo do cinema, é necessário que se abrace certo grau de incerteza, tendo em vista que ela provoca a desconstrução de um conhecimento limitado. O campo do cinema não deve agir como determinador do que o cinema deve ser. Se ele próprio entender as minorias como “o outro”, que deve aprender a língua do cinema para pertencer ao mundo cinematográfico, haverá sempre uma desculpa para não ouvir suas urgências e reivindicações. É preciso reinventar a partir das questões públicas e políticas.

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Por fim, o crítico Heitor Augusto ressaltou fazer parte de uma ínfima minoria de críticos negros. Ele questionou se a ênfase da representatividade deve ser só nos filmes, atestar seus méritos e deméritos, ou se também inclui o lugar de onde vemos os filmes. Lugares históricos, de classe, de raça, de gênero. Outro ponto de sua explanação tocou na questão da cegueira trazida por certa exigência de protocolo: enquanto espectador que avalia determinada obra, o simples não alcance de determinados paradigmas formais é suficiente para ignorá-la? Há outra práxis que desvie deste conforto? Observou ainda a necessidade de uma presença maior de minorias não apenas na realização, mas também em processos de crítica, curadoria e debates, para que novos olhares possam apontar questões pertencentes aos filmes.
A Mostra de Cinema de Tiradentes tem programação até o próximo sábado, dia 29, com diferentes mostras de curtas e longas-metragens, além de debates e seminários. Estaremos cobrindo o evento até o seu desfecho com matérias, críticas e entrevistas aqui no site durante e também após o término do mesmo.

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