Militância a 120 Batimentos Por Minuto

Criada em 1989 nos moldes da original nova iorquina, a associação Act Up Paris reúne desde então a comunidade homossexual parisiense em torno da luta contra a AIDS. É uma organização autônoma que realiza atos militantes na capital francesa com objetivo de dar visibilidade às suas causas. Um dos seus membros, o cineasta Robin Campillo recria parte desta luta no início dos anos 90, quando o descaso de autoridades tornava a ação ainda mais urgente. Premiado como Melhor Filme pela Fipresci este ano em Cannes, seu 120 Batimentos Por Minuto (120 BPM, 2017) faz um retrato ficcional da Act Up e daquele conturbado período.

Mesclando momentos de pura militância e outros de ordem pessoal, o filme segue Nathan (Arnaud Valois) um integrante recém-chegado, e seu envolvimento com o grupo e com um dos seus membros mais antigos, Sean (Nahuel Pérez Biscayart), cujo estado de saúde se mostra cada vez mais delicado. O filme se dedica às calorosas reuniões entre os integrantes da associação, revelando os bastidores do seu ativismo. A inação do então presidente François Miterrand frente à questão da saúde no país e a falta de presteza do laboratório responsável pelo tratamento são pontos de discussão, assim como as formas de ação do grupo. Tudo é apresentado de maneira didática ao espectador, o que toma boa parte da narrativa. As manifestações de grande repercussão e a intimidade dos personagens e seus relacionamentos também são componentes de peso na narrativa.

A fotografia, investindo na declarada câmera na mão, e o trabalho de som, que pontua em crescente tensão o agir daquelas figuras, são fatores responsáveis pela enérgica primeira hora do filme. Ainda que a montagem por vezes chame atenção demais pra si – a sequência inicial ilustra bem tal percepção –, 120 BPM é introduzido de maneira positivamente escancarada e, além de apresentar a luta de seus protagonistas, também faz um retrato da condição homossexual daquele momento específico.

As reuniões do grupo, contudo, vão perdendo a energia conforme a projeção avança e soam repetitivas ao longo dos desnecessários 143 minutos. O longa comete outros excessos, como o frequente uso de slow motions e demorados planos de partículas no ar que, de intenções poéticas duvidosas, servem ou como elemento de transição de tempo ou como via de transporte para planos microscópicos de células sendo contaminadas. Nem sempre há uma conexão orgânica entre a infinidade de ferramentas imagéticas e sonoras às quais o filme recorre e, não raro, sua fluidez é dificultada pelas próprias
escolhas do diretor. Quando há uma proposta de militância, outra tarefa complicada é a de evitar o didatismo. O filme de Compillo não o evita, nem tenta. E muito provavelmente não deveria mesmo fazê-lo. A forma como se apresenta demonstra claras intenções informativas e sua urgência é flagrante.

Na acelerada frequência anunciada em seu título, o longa por vezes se antecipa e se deslumbra com o material que tem em mãos. Ainda que certas afetações de estilo sejam difíceis de ignorar, Campillo é competente ao transmitir a força da comunidade homossexual da Act Up e o seu combate à invisibilidade. O espectador deixa a sala sensibilizado por essa mesma luta. E não é essa a intenção do cinema ativista?

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