Já estamos em 2020. Nossa lista chega com um certo atraso. Mas como nunca é bom deixar certos compromissos para trás, divulgamos a nossa lista de melhores de 2019 em um momento em que a avalanche de listas passou. Listas de melhores filmes são importantes, mas nem tanto e o timing talvez não seja perfeito, mas a intenção é das melhores. O ano que passou foi de grandes impactos na nossa cultura e no nosso audiovisual. E quando falamos em impactos, não são nada benéficos. Assistimos a cada dia diversas instituições que são de grande suporte ao cinema nacional serem pulverizadas por questões ideológicas fascistas e nacionalistas travestidas de buscar zero ideologias e zero partidos políticas. 2019 foi difícil. Difícil comentar sobre um filme sem visualizar questões políticas e até mesmo comparar com o nosso presente. Nosso grande escolhido foi Dor e Glória (Dolor y Glória), de Pedro Almodóvar. Um cineasta que sempre trabalhou resistindo a um sistema conservador e reacionário trazendo história de mulheres, transsexuais, travestis, homossexuais e homens sensíveis em meio a homens brutos e violentos. Neste seu mais recente e elogiado filme, acompanhamos o personagem de Antonio Banderas (merecidamente indicado ao Oscar pelo papel) revistando os momentos emblemáticos de sua infância e suas paixões. Um 8 e ½ almodovariano, sensual, melancólico e esperançoso. Esperança de resistir aos golpes da vida. Assim como resistiremos em 2020. Conheça a nossa lista de melhores:

  1. Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
  2. Assunto de Família, de Hirokazu Koreeda
  3. Imagem e Palavra, de Jean-Luc Godard
  4. O Irlandês, de Martin Scorsese
  5. Uma Mulher Alta, de Kantemir Balágov
  6. Bacurau, de Kleber Medonça Filho e Juliano Dornelles
  7. Amanda, de Mikhael Hers
  8. Era uma Vez em Hollywood, de Quentin Tarantino
  9. Parasita, de Bong Joon-Ho
  10. Varda por Agnés, de Agnés Varda

 

A nossa lista reflete as escolhas de foi realizada contando com as participações dos colaboradores do site no ano de 2019: Analu Favretto, Ivonete Pinto, Maurício Vassali, Renato Cabral e Rubens Fabricio Anzolin.

Abaixo confira a lista individual de cada um dos colaboradores:

Analu Favretto
Didi-Huberman se inspira no capítulo inaugural de Ulisses, de James Joyce, para escrever sobre a dialética do visível. Para ele o que emerge da imagem é o que nos falta; o que nos olha é o que, de certa forma, falta no Todo que nos concebe como sujeito. A inelutável modalidade do visível. O Corpo como primeiro alvo. O simples plano ótico transformado em potência visual. Reconhecendo que o que me afeta é o que me tem como ausência, vejo em retrospectiva os audiovisuais menos como lista e mais como momentos específicos de percepção. Um ano marcado por intensas quedas e esperanças pontuais. Mas o que me olha nos filmes que vi? A minha busca por emprego sendo recém formada? O meu país em crise? A minha relação com minha infância? A minha sexualidade? A minha graduação em Cinema? Tudo se torna argumento quando afeta. Por isso, sem mais justificativas, os filmes que me olharam em 2019.

1. Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
2. No coração do mundo, de Gabriel Martins e Maurílio Martins
3. Varda por Agnès, de Agnès Varda e Didier Rouget
4. Assunto de família, de Hirokazu Koreeda
5. Imagem e Palavra, de Jean-Luc Godard
6. Amanda, de Mikhaël Hers
7. Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar, de Marcelo Gomes
8. Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
9. Parasita, de Bong Joon-Ho
10. Temporada, André Novais Oliveira.

 

Ivonete Pinto
Listas não servem para nada, tirando o fato que nos envolvemos com elas durante um mês de nossas vidas. Várias listas, assinadas pela mesma pessoa, podem ter filmes diferentes, pois refletem um estado de espírito momentâneo de quem as elabora. Claro, há títulos que permanecem em todas, mesmo que variem de posição no ranking. Who cares? Importante é que críticos e cinéfilos possam, a partir destes rankings imperfeitos e idiossincráticos, ir atrás de algum filme que ficou perdido na rotina do ano. Uma defesa desta lista de hoje, cuja ordem é mais ou menos aleatória, basicamente teria o seguinte: Assunto de Família, de Hirokazu Koreeda e Parasita, de Bong Joon-ho, estão juntos porque exploram traduções de seus países e desnudam a imagem clichê que temos deles. O primeiro mostra o lado sombrio, pobre, cruel do Japão, e o segundo é a versão debochada deste. Parasita mostra que o capitalismo da Coreia do Sul, tantas vezes usado como modelo de progresso e felicidade, não é bem assim. O realismo poético de Koreeda, e a maestria em usar o gênero não como engessamento, mas como liberdade, tornam estes filmes tão necessários. O argentino Vermelho Sol tem seu maior trunfo em dizer: vejam que o ovo da serpente nasce no meio das “pessoas de bem”. Imagem e Palavra: Godard é Godard. O Irlandês é uma aula de cinema, é um elogio à inteligência, excita nosso espírito. Mise-en-scène, roteiro e performance dos atores que precisam ser revistos (e em tela grande também). Aliás, Dois Papas, que não está na lista não sei por que razão, tem um dos maiores espetáculos da terra (da tela). Fernando Meirelles colocou juntos Jonathan Pryce e Anthony Hopkins. É um espetáculo no nível da interpretação de uma Cate Blanchett em Blue Jasmine (aliás, saudade de um Woody Allen que faz filme adulto, como este). Uma mulher alta, é a Rússia novamente nos lembrando dos efeitos de uma guerra, desta vez na perspectiva das mulheres. Traz um tanto de mistificação do papel da mulher enquanto mãe, afinal, o roteiro e a direção são de um homem (Kantemir Balágov). Mas a essência do filme vem de um livro de uma autora, “A Guerra Não tem Rosto de Mulher”, de Svetlana Aleksiévitch, que definitivamente segue um caminho original das centenas de obras que colocam os homens como protagonistas nas guerras. Bacurau já foi suficientemente defendido e não tenho nada incomum para dizer. Apenas deixo a dica de leitura, o artigo do Enéas de Souza na Teorema 31. Chernobyl é uma série obrigatória para quem quer saber um pouco de geopolítica, de manipulação da verdade, de fake news, de energia nuclear, de como não era nada encantado o reino da União Soviética. Los Silencios foi dirigido por uma jovem brasileira que mostra que é possível evoluir, mesmo mantendo-se fiel a interesses ecléticos. O filme anterior de Beatriz Seigner, rodado na Índia e sobre Bollywood, era bem problemático. Neste, mais uma vez ela sai das fronteiras do Brasil para mostrar um universo que não é o seu, no caso, o conflito armado da Colômbia, que respinga no Peru. Existe nesta diretora uma ânsia pelo diferente, por adentrar culturas e almas que não são dela, mas que ela o faz com o maior respeito e, aqui, com inspiração. Dor e Glória: Almodóvar é Almodóvar. Ah, se é possível um 11º filme, mas não na 11ª posição: Atlantique, da francesa-senegalesa Mati Diop. É um feito ter sido a primeira realizadora negra a disputar a Palma de Ouro. Porém não é por isto que seu filme é relevante. Reparem nas imagens de abertura, reparem no mar como metáfora não romântica, no uso do sobrenatural dentro do realismo etnográfico (com toques de Bacurau). Da África voltamos para o extremo Oriente do Japão de Koreeda e da Coréia do Sul de Joon-ho para perceber que o capitalismo não é só uma questão de travelling.

1. Assunto de Família, de Hirokazu Koreeda
2. Parasita, de Bong Joon-Ho
3. Vermelho Sol, de Benjamín Naishtat
4. Imagem e Palavra, de Jean-Luc Godard
5. O Irlandês, de Martin Scorsese
6. Uma Mulher Alta, de Kantemir Balágov
7. Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
8. Chernobyl, de Johan Renck
9. Los Silêncios, de Beatriz Seigner
10. Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
11. Atlantique, de Mati Diop

 

Maurício Vassali
A sensação de irresponsabilidade no ato de selecionar e ranquear trabalhos é sempre uma constante. O que está dentro talvez não mereça, o que está fora pode estar sendo injustiçado. Assumindo o risco, entendo as listas como forma de (re)consolidação e de provocação. Uma forma de movimentar e de exibir. Levei em conta, ao elencar meus preferidos, os gestos cinematográficos com os quais mais consegui dialogar neste ano. Se o cinema revela o mundo para o homem, ou o próprio homem para ele mesmo (salve Bazin!), nestes dez filmes fui tocado por narrativas que denunciam a violência do capitalismo, do colonialismo, do eurocentrismo, pelos feitos espelhados e pelos gestos de puro cinema. Também pelos corpos, em movimento ou estagnados, e pelas relações entre eles e seus territórios. Pelas imagens de dentro, pelos sons de fora e vice-versa. Acima de todos, fui tocado pelo delicado, o “menor”. Um aceno que, ao explorar o ordinário, oferece a potência do universal. Pra mim, os gestos mais bonitos de 2019.

1. Amanda, de Mikhael Hers
2. Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
3. Synonymes, de Nadav Lapid
4. Assunto de Família, de Hirokazu Koreeda
5. Varda por Agnès, de Agnès Varda
6. Imagem e Palavra, de Jean-Luc Godard
7. O Irlandês, de Martin Scorsese
8. A Vida Invisível, de Karim Ainouz
9. Ad Astra: Rumo às Estrelas, de James Gray
10. Amor até as Cinzas, Jia Zhangke

 

Renato Cabral
Talvez o tema que permeie o inconsciente da minha seleção do ano seja relacionado à filmes que tratam de relações de poder em relacionamentos disfuncionais ou trágicos. O grande favorito do ano, que infelizmente não teve lançamento nas salas de cinema comerciais, História de um Casamento, talvez seja a epítome dessa temática, além de presentear o espectador com um final que não deixa amargor, mas sim esperança numa quebra de ciclos. Baumbach havia visto a separação de diferentes óticas em seus trabalhos anteriores, geralmente com o foco do que se passava na mente dos filhos. Aqui ele vira sua câmera para os pais, como forma de desmistificar que na história de uma separação todos perdem, mas podem reconfigurar isso e encontrar um pouco de esperança e um recomeço.

1. História de um Casamento, de Noah Baumbach
2. Uma Mulher Alta, de Kantemir Balágov
3. A Favorita, de Yorgos Lanthimos
4. Border, de Ali Abbasi
5. Parasita, de Bong Joon-Ho
6. Era uma Vez em… Hollywood, de Quentin Tarantino
7. Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
8. Mormaço, de Marina Meliande
9. Guerra Fria, de Paweł Pawlikowski
10. Dor e Glória, de Pedro Almodóvar

 

Rubens Fabricio Anzolin
2019: ano espetáculo. Para o cinema, pelo menos, essa foi palavra-chave. E talvez seja essa a leitura mais definitiva do universo que cerca o cinema: o espetáculo, o acontecimento. Os filmes, sua matéria em si, ficaram em segundo pano. 2019 foi o ano dos eventos fílmicos: Bacurau, Vida Invisível, Coringa, O Irlandês. O que dá a impressão – via Facebook, portais de cultura pop, revistas de cinema -, que isso os torna, por si só, grandes filmes. Pode ser verdade em alguns casos, em outros tantos, certamente não.

Escolhi dez filmes que vão além do espetáculo, além do seu evento de massa, vão mais para dentro: procuram seus (rein)ventos de autoria (Eastwood, Shyamalan, Almodóvar), seus eventos de deterioração (Tavinho Teixeira, Robert Mitchell, Yann Gonzales), seus eventos de remodelagem (Tarantino, Jon Watts). Enfim, filmes que existem na era do espetáculo, no ponto motriz em que o cinema é muito mais regido por um grande feito que um grande filme. São filmes que, definitivamente, olham para si, na sabedoria e na emancipação da certeza de que, passados os anos, os acontecimentos, eles irão permanecer. Ainda antes: dois curtas e um média que não entraram na lista de longas: Blue, de Apichatpong Wheerasetakul e A Chinesa de Riad, de Leonardo Amaral e Roberto Cotta; Sete Anos em Maio, de Affonso Uchôa.

1. A Mula, de Clint Eastwood
2. Vidro, de M. Night Shyamalan
3. Sol Alegria, de Tavinho Teixeira
4. Era Uma Vez em… Hollywood, de Quentin Tarantino
5. Under The Silver Lake, de David Robert Mitchell
6. Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
7. Faca no Coração, de Yann Gonzales
8. High Flying Bird, de Steven Soderbergh
9. Homem-Aranha: Longe de Casa, de Jon Watts
10. Imagem e Palavra, de Jean-Luc Godard