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Melhores filmes de 2018

Mais um ano acaba e como sempre, realizamos nossa já tradicional listagem de melhores filmes assistidos conforme lançados comercialmente no Brasil. A partir desse ano também iremos considerar os lançamentos realizados exclusivamente por plataformas de streaming. E a abertura para esses filmes distribuídos em larga escala digitalmente tornou possível a entrada de dois títulos em nossa lista: duas produções elogiadas e premiadas em festivais internacionais como Veneza e Cannes, uma mexicana e outra italiana.
O Brasil está em destaque em nossa listagem com quatro títulos (um deles como co-produtor) que refletem muito a respeito da diversidade da cinematografia brasileira contemporânea. Houve ainda espaço para duas produções francesas e mais duas de alguns dos diretores norte-americanos mais importantes das últimas décadas. Em tempos de obscurantismo e retrocesso político, essa lista e a lista individual de todos os envolvidos não deixa de ser ato de resistência. Que venha 2019. Resistiremos.

Confira a nossa lista de melhores do ano e logo em seguida a lista individual de cada um dos colaboradores.

Melhores filmes de 2018

1. Lazzaro Felice, de Alice Rohrwacher
2. Roma, de Alfonso Cuáron
3. Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson
4. Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans
5. Baronesa, de Juliana Antunes
6. Infiltrado na Klan, de Spike Lee
7. Me Chame Pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino
8. Deixe a Luz do Sol Entrar, de Claire Denis
9. Custódia, de Xavier Legrand
10. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra

Participaram da votação: Analu FavrettoIvonete PintoMatheus StrelowMaurício Vassali e Renato Cabral.

Analu Favretto

1. Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans
2. Lazzaro Felice, de Alice Rohrwacher
3. Baronesa, de Juliana Antunes
4. Infiltrado na Klan, de Spike Lee
5. Desobediência, Sebastián Lelio
6. Custódia, Xavier Legrand
7. Aos teus olhos, Carolina Jabor
8. Benzinho, Gustavo Pizzi
9. Deixe a luz do sol entrar, de Claire Denis
10. Visages, Villages, de Agnes Varda e JR

No livro “A Sobrevivência dos vagalumes”, Georges Didi-Huberman faz reflexões sobre o conceito de pequenas luzes, de Pier Paolo Pasolini. Essas luzes se apresentam na forma de
vagalumes, seres minúsculos que brilham, nunca se apagam, resistem embora os holofotes
insistam em queimá-los. Essas pequenas e brilhosas criaturas representam, no pensamento de Pasolini, uma eterna habilidade de suportar. No ano de 2018, essas pequenas e pontuais formas luminosas tiveram que contrastar e opor-se à coisas que pareciam irrealizáveis. Micro-revoluções e tomadas de consciência de alguns, enquanto outros insistiam em obstruir a passagem de qualquer fonte de luz. É nesse viés que pontuo a importância de produções como Arábia, na discussão sobre identidade e classe, o
trabalhador como cerne. Trabalhador como narrativa forte em Lazzaro Felice. O trabalhador como vagalume nesses próximos anos escuros que aparecem se apresentar.

Ivonete Pinto

1. Roma, de Alfonso Cuáron
2. Lazzaro Felice, de Alice Rohrwacher
3. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
4. Infiltrado na Klan, de Spike Lee
5. Sem Amor, de Andrey Zvyagintsev
6. A árvore dos frutos selvagens, de Nuri Bilge Ceylan
7. Uma casa à beira-mar, de Robert Guédiguian
8. As Herdeiras, de Marcelo Martinessi
9. Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi
10. O Outro Lado do Vento, de Orson Welles

A despeito de algumas opiniões que consideram Alfonso Cuarón um pústula porque não teria consciência de classe, Roma é um filme feito de imagens grandiosas e informações sutis. É passível de discussões, por óbvio, como todos os filmes imperfeitos, pois há representações demasiado esquemáticas no filme (como o personagem do namorado de Cleo, a protagonista). Mas parece inegável que Cuarón não tenha querido falar por Cleo porque não poderia fazê-lo. Suas memórias são de um menino, patrão de Cleo, que não enxergava o sofrimento de classe da empregada. Ela trabalhava enquanto estava grávida? Cuarónzito iria se rebelar quanto a esta condição? O honesto a fazer, e o diretor-roteirista-fotógrafo-montador, ou seja, o autor absoluto, fez isto, encerrou o filme com imagens que dizem: Cleo continuará em sua subserviência de classe. O final retoma o começo da empregada servindo aos patrões mesmo com seu heroísmo de se jogar ao mar para salvar uma criança da família, mesmo sem saber nadar. Continuará servindo a família mesmo com o empobrecimento desta. E ali está a consciência de classe do autor. O que os detratores de Cuarón também não observam é que Cleo é de uma etnia indígena, espoliada desde sempre em todos os países latinos, e ter a colocado como protagonista muda, oferece uma carga de simbolismos que não será com palavras de ordem que serão desvendados. As sutilezas em Roma talvez se esmaeçam na grandiosidade da produção, mas estão lá.

Matheus Strelow

1. Deixe a Luz do Sol Entrar, de Claire Denis
2. Em Chamas, de Lee Chang-dong
3. Zama, de Lucrecia Martel
4. O Outro Lado do Vento, de Orson Welles
5. A Câmera de Claire, de Hong Sang-soo
6. Baronesa, de Juliana Antunes
7. Amante Por Um Dia, de Philippe Garrel
8. Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson
9. Lazzaro Felice, de Alice Rohrwacher
10. Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans

É sempre complicado sintetizar a experiência cinematográfica de um ano pelo modelo de ranking qualitativo, afinal o que realmente define a superioridade ou a inferioridade de uma obra em relação à outra? Corre-se o perigo de ser desonesto com os próprios filmes, igualando no mesmo peso esforços das mais variadas naturezas. Claro que essa questão não é inédita, está sempre posta durante o período em que as famigeradas listas começam a sair do forno; cada um que se atreve a desbravar estas águas estabelece seus próprios critérios de afunilamento e avaliação 一 a prática mais comum é à qual aderimos, limitando-nos a filmes propriamente lançados no Brasil. 2018, porém, urge: revejam seus conceitos. Os filmes chegam mais rápido e em mais quantidade, o debate logo descamba nos comentários fugazes de Facebook, Letterboxd e afins, e a cinefilia se aproxima cada vez mais de uma compulsão voraz pelo consumo: “Quantos filmes você assistiu nesse ano?” 一 seria esse o efeito Netflix? A relação subjetiva com o cinema é pessoal e intransferível, ai de mim querer decretar a experiência certa; apenas me pergunto: o que esperamos dos filmes?

Dito isso, minha lista 一 não necessariamente um ranking 一 destaca longas que conseguem jogar todas essas dúvidas ao vento; não há recorrências temáticas ou formais, apenas bons filmes que sabem afirmar suas potencialidades. Ficam de fora First Reformed, de Paul Schrader, e Transit, de Christian Petzold, que parecem ainda não ter sido adquiridos para distribuição no Brasil e podem se perder nas discussões do próximo ano. Vale também destacar o curta-metragem Conte Isso Àqueles que Dizem que Fomos Derrotados, de Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cristiano Araújo e Pedro Maia de Brito, um dos melhores filmes brasileiros da década.

Maurício Vassali

1. Lazzaro Felice, de Alice Rohrwacher
2. Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans
3. Roma, de Alfonso Cuáron
4. Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson
5. Custódia, de Xavier Legrand
6. Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi, de Dee Rees
7. Me chame pelo seu nome, de Luca Guadagnino
8. Baronesa, de Juliana Antunes
8. Desobediência, de Sebastian Lelio
9. Infiltrado na Klan, de Spike Lee
10. Western, de Valeska Grisebach

O cinema deve procurar a verdade. As palavras de Cesare Zavattini, roteirista e um dos proponentes pioneiros do neorrealismo italiano, se mostram mais vivas do que nunca ao se retomar alguns dos destaques cinematográficos deste 2018. Através da figura fabulesca do jovem camponês que jamais envelhece, do operário em sua jornada na busca por trabalho ou do cotidiano de uma empregada doméstica de origem indígena, três importantes obras neste ano flertaram com questões laborais, condições de classe e, em suma, relações de poder. Se a crítica social está presente em todos eles, é inevitável que se frise como cada um o faz à sua maneira. Rohrwacher, diretora de Lazzaro Felice, referencia o cinema de Pasolini e Bresson em seu retrato idílico e recheado de subtextos. Nas imagens formais de Arábia, Uchoa e Dumans investem a musicalidade e a narração em off também como forma de relatar uma tomada de consciência do protagonista em uma espécie de road movie à mineira. No preto e branco e na construção da imagem-tempo de Cuarón, em Roma, acontece o resgate de uma outra Roma, a de Rosselini, no registro solitário e afetuoso de sua protagonista. No México, na Itália ou no Brasil, as narrativas puseram em xeque um sistema. E o fizeram com poesia legítima.

 

Renato Cabral

1. Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson
2. Me Chame pelo seu Nome, de Luca Guadagnino
3. Projeto Flórida, de Sean Baker
4. Roma, de Alfonso Cuáron
5. Tinta Bruta, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon
6. Conquistar, Amar e Viver Intensamente, de Christophe Honoré
7. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
8. Sem Fôlego, de Todd Haynes
9. Lady Bird, de Greta Gerwig
10. Você Nunca Esteve Realmente Aqui, de Lynne Ramsay

Em vários devaneios escritos por E. E. Cummings, o poeta destacou algumas vezes as batalhas travadas para ser quem se é em um mundo que faz o seu trabalho para manter você deslocado e à parte. Da infância até se tornar um adulto é constante o deslocamento até encontrar seu caminho. Mas mais do que isso, nesse processo de busca por si próprio, o outro é muitas vezes o caminho mais certeiro. Talvez seja esse o ponto principal dos meus escolhidos do ano: o outro. Trama Fantasma leva às últimas consequências uma relação amorosa, que não deixa de ser também uma relação poder. Enquanto isso, Me Chame Pelo Seu Nome é sobre a descoberta de um grandioso primeiro amor fadado ao seu frustrante fim. Tinta Bruta, assim como os filmes de Guadagnino e Honoré, é sobre as mudanças e possibilidades que o outro carrega e causa, sobre como o outro pode nos levar adiante. Já Todd Haynes constrói de maneira muito sutil as dificuldades e segredos de família que levam seu personagem à uma busca pelo próprio pai, mas descobre bem mais que esperava em Sem Fôlego. Em resumo, a seleção traz filmes sobre o que os outros causam, mas também sobre corpos e seus espaços em um universo perverso que pode muito bem ser o exterior ou o nosso próprio interior. A Boas Maneiras, da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, e a mais recente produção da cineasta escocesa Lynne Ramsay são provas que às vezes guardamos o nosso próprio inimigo e aliado.

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