Melhores Filmes de 2017

O documentário Martírio é o melhor filme de 2017 pelo Calvero

Com a chegada do final do ano todo crítico realiza a sua religiosa lista de melhores filmes assistidos durante o período. E, claro, não estamos fora desse balaio. Conforme realizado em 2016, nosso site dá continuidade em selecionar os 10 melhores filmes segundo o nosso time. Em 2017 estipulamos como critério a inclusão da lista dos colaboradores mais ativos e como recorte serão selecionadas apenas produções lançadas comercialmente no ano. Anteriormente vivíamos fora da curva, elencando o que havíamos assistido em festivais e mostras, alinhados mais com o circuito estrangeiro do que o nacional. Agora decidimos nos adequar à editoria clássica das listagens que inundam a internet. É o que parece ser o correto, mesmo não sendo a quebra de paradigma que gostaríamos. Mas vamos deixar o teor disruptivo para os filmes selecionados e que refletem cada vez mais a necessidade de destacar direitos e representatividade em diferentes esferas. Que 2018 continue nos tirando da zona de conforto com produções que modifiquem o status quo e abram sempre nossas mentes para debates.

Confira a nossa lista de melhores do ano e logo em seguida a lista individual de cada um dos colaboradores.

Participaram da votação: Analu Favretto, Ivonete Pinto, Matheus Strelow, Maurício Vassali e Renato Cabral.

1.Martírio, de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho, Tatiana Almeida
2.Verão 1993, de Carla Simón
3.Poesia sem Fim, de Alejandro Jodorowsky
4.Toni Erdmann, de Maren Ade
5.Além das Palavras, de Terrence Davis
6.Na Vertical, de Alain Guiraudie
7.Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé
8.Corra!, de Jordan Peele
9.Na Praia Sozinha à Noite, de Hong Sang-soo
10.Eu Não Sou Seu Negro, de Raoul Peck

Analu Favretto

Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé
  1. Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé
  2. Corra!, de Jordan Peele
  3. Martírio, de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho, Tatiana Almeida
  4. Toni Erdmann, de Maren Ade
  5. O estranho que nós amamos, de Sofia Coppola
  6. Corpo elétrico, de Marcelo Caetano
  7. Ao cair da noite, de Trey Edward Schults
  8. A cidade onde envelheço, de Marília Rocha
  9. Rifle, de Davi Pretto
  10. O ornitólogo, de João Pedro Rodrigues

Particularmente, 2017 foi extremamente frutuoso. No geral, os produtos audiovisuais que consumi foram de grande potência, impossível não criar paralelos entre a crise política mundial e o que é retratado em tela. Para muitos, as perdas que tivemos em vários setores foram cruciais para manter o discurso que vem sendo produzido, principalmente no Brasil. Temas relacionados à mulher, ao negro, aos LGBT+ e a questão indígena foram explorados através de várias perspectivas. Na lista estão os filmes que considero mais interessantes, seja na narrativa, direção ou viés político/social.

 

Ivonete Pinto

Martírio, de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho, Tatiana Almeida
  1. Martírio, de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho, Tatiana Almeida
  2. Eu não sou seu negro, de Raoul Peck
  3. Corra!, de Jordan Peele
  4. Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé
  5. Verão 1993, de Carla Simón
  6. Eu, Daniel Blake, de Ken Loach
  7. Toni Erdman, de Maren Ade
  8. No Intenso Agora, de João Moreira Salles
  9. Poesia Sem Fim, de Alejandro Jodorowsky
  10. Rifle, de Davi Pretto

De todas as questões sociais que o Brasil enfrenta, a situação mais vulnerável é a dos índios. Talvez a única em que não se vislumbra uma saída. O documentário Martírio, de Vincent Carelli, expõe o conflito histórico situando o filme nas esferas do poder em Brasília e nas comunidades indígenas. Os políticos têm voz (Carelli simplesmente lança mão de discursos de tribuna) e através desta voz vemos escancarado o descaso, o desrespeito e as decisões criminosas destes políticos. Aos índios, Carelli fornecesse o dispositivo que capta as imagens que ele mesmo não teria acesso: com a câmera emprestada, uma índia grava o ataque armado de brancos que tomam às terras que não são suas. O enredo parece antigo – e é ­–, mas o filme nos mostra que a situação só piora e cada vez menos pessoas se interessam por estes povos. A sensação de batalha perdida é o que torna Martírio necessário, pois evidencia a falência da sociedade, acima de tudo. Nossa falência como civilização.

 

Matheus Strelow

Na Vertical, de Alain Guiraudie
  1. Na Vertical, de Alain Guiraudie
  2. Na Praia Sozinha à Noite, de Hong Sang-Soo
  3. Personal Shopper, de Olivier Assayas
  4. O Filho de Joseph, de Eugène Green
  5. Pendular, de Júlia Murat
  6. Martírio, de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho, Tatiana Almeida
  7. Paterson, de Jim Jarmusch
  8. Nocturama, de Bertrand Bonello
  9. Verão 1993, de Carla Simón
  10. Elon Não Acredita na Morte, de Ricardo Alves Jr.

Os títulos dessa lista representam uma multiplicidade de práticas e poéticas cinematográficas, obedecendo a um critério de relativa disponibilidade aos mais diversos públicos nacionais (todos, exceto Nocturama, foram lançados comercialmente em salas brasileiras). São filmes que se deliciam em expandir as possibilidades da linguagem, que se impõem na epiderme e permanecem muito após a projeção. Cinema sem brincadeira. Ou melhor, que sabe brincar. Em retrospecto, ficam na memória as pequenas evoluções que cada um significa à arte de filmar, ou os mais puros sentimentos urdidos pela hábil articulação destes cineastas. Alguns avanços são mais imediatamente notáveis, como a construção de cenas de sexo (Na Vertical, Pendular e Elon Não Acredita na Morte) ou o implemento de dispositivos tecnológicos na decupagem (Personal Shopper). No mais, a lista é meramente um apanhado de singelas recomendações, filmes nos quais se pode mergulhar e sair satisfeito. Por pouco, ficaram de fora da lista Bom Comportamento, dos Irmãos Safdie, e O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues (já presente na lista do ano passado).

 

Maurício Vassali

Verão 1993, de Carla Simón
  1. Verão 1993, de Carla Simón
  2. Além das Palavras, de Terence Davies
  3. Poesia sem Fim, de Alejandro Jodorowsky
  4. Martírio, de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho, Tatiana Almeida
  5. Na Praia à Noite Sozinha, de Hong Sang-Soo
  6. Paterson, de Jim Jarmusch
  7. Eu Não Sou Seu Negro, de Raoul Peck
  8. A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha
  9. Detroit em Rebelião, de Kathryn Bigelow
  10. Moonlight: Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins

É mais que simbólico o fato de que uma mulher sexagenária seja responsável pelo suor frio do espectador ao retratar um inacreditável evento de violência racista nos Estados Unidos e um cineasta haitiano escancare brilhantemente as questões raciais no mesmo país. É admirável que um dos atos políticos mais contundentes do ano tenha se revelado obra fílmica em uma pesquisa milimétrica sobre a pauta indígena.

E a poesia veio até literal em olhares atenciosos sobre William Carlos Williams, Emily Dickinson e Alejandro Jodorowsky. Partindo de um caso extraconjugal real, o produtivo sul-coreano presentou o público com um retrato melancólico e intimista e, na poesia da amizade e do pertencimento, uma goiana gerou um filme muito mais político do que ele próprio explicita. O trabalho que mais me tocou veio justamente de uma estreante, uma jovem catalã em seu primeiro longa-metragem.  2017 foi o ano em poesia e política andaram juntas, ainda mais que a academia de maior estima entre o público premiou um filme dirigido por um homem negro, sobre personagens negros e homossexuais. É, o cinema ainda pulsa.

 

Renato Cabral

Além das Palavras, de Terence Davies
  1. Além das Palavras, de Terence Davies
  2. Na Vertical, de Alain Guiraudie
  3. Poesia sem Fim, de Alejandro Jodorowsky
  4. Jackie, de Pablo Larraín
  5. Mulheres do Século XX, de Mike Mills
  6. Pendular, de Julia Murat
  7. Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe, de Noah Baumbach
  8. Toni Erdmann, de Maren Ade
  9. mãe!, de Darren Aronofksy
  10. Melhores Amigos, de Ira Sachs

Em tempos obscuros, a resistência das expressões artísticas são uma necessidade. Quando exposições fecham e abrem-se pretextos para censurar, a força dos artistas e suas criações são imprescindíveis de serem lembradas. Na minha lista embarco em uma trajetória de artistas em seu auge ou crise, suas problemáticas e ainda o envolvimento com a temporalidade, suas famílias disfuncionais e relacionamentos amorosos que se constroem e desconstroem. Há ainda a presença forte de mulheres e os retratos que a sociedade acaba pintando delas. O tema ainda avança com as suas relações políticas de espaço e corpo, tema cada vez mais importante de ser destacado e retratado, em especial, por diretoras. Os homens, vistos de maneira fragilizada em meio à crises criativas e soterrados pelo próprio ego também tiveram espaço. Há espaço também para o cinismo da sociedade através dos tempos embalado de uma grandiosa metáfora ou num microcosmo contemporâneo em plena Nova York.

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