Maren Ade e o cinema no qual o inferno são todos os outros

todososoutros12016 foi o ano dela. Apesar de ignorado pelo júri do Festival de Cannes, Toni Erdmann (2016) foi, sem dúvida, o seu grande destaque e não se deve ao fato de que a diretora Maren Ade era exatamente uma revelação. Afinal, o seu primeiro longa-metragem Floresta para Árvores (Der Wald vor lauter Bäumen, 2005) já havia angariado diversas distinções em importantes festivais de cinema independente, com prêmios em Sundance e no IndieLisboa. Todos os Outros (Alle Anderen, 2009), segundo longa de Ade, também se destacou no circuito ganhando prêmio no Bafici e o Urso de Prata em Berlim. Porém com Toni Erdmann, ela esteve no pódio em nove a cada dez listas de melhores do ano, incluindo o primeiro lugar nos rankings das revistas Cahiers du Cinéma e Sight & Sound. Fora uma carreira iniciante, porém sólida na direção cinematográfica, Maren Ade é bastante prolixa no meio da produção, tendo co-produzido os filmes mais recentes de Miguel Gomes, Tabu (2012) e a trilogia As Mil e Uma Noites (2015).

Traçando pontos de contato entre seus três primeiros filmes, podemos começar a pensar em algumas características do seu cinema. Inadaptados, os personagens de Ade carregam em seus corpos a marca da inadequação. Seja uma jovem professora interiorana tentando fazer amigos em uma nova cidade, como em Floresta para Árvores, seja um casal descobrindo as bases de sua relação em Todos os Outros, culminando com a inadaptação personificada, corporificada, de Toni Erdmann, o sentimento patético de estar deslocado de um contexto atinge o espectador em quase todas as cenas que Ade constrói. Esse deslocamento está presente na forma como a diretora estabelece as relações entre seus personagens, e, sobretudo, quanto aos seus corpos. O cinema da realizadora é um cinema físico. É primeiramente, a reação em um corpo a um deslocamento de contexto, e então a segunda característica marcante desses primeiros filmes da cineasta, o humor patético, desconfortável, de sorriso amarelo. À exceção de Toni Erdmann, que leva a comédia às últimas consequências, mas ainda sem abrir mão de uma graça desconcertante capaz de deixar no colo do espectador a decisão de rir ou não de determinadas situações.

Estes deslocamentos do cinema de Ade são também geográficos. Todos os Outros narra as férias de um casal berlinense, Gitti e Chris, na casa da família de Chris na costa italiana, afinal Berlim e interior da Itália são símbolos contemporâneos do progressismo e do conservadorismo europeu. Como diz a diretora em entrevista: “O filme é sobre um casal que ainda não conhece muito bem um ao outro”. Ao se afastarem da atmosfera juvenil e “segura” da noite de Berlim e se defrontarem com uma realidade padronizada na figura de um casal de amigos, a dupla, mas sobretudo Chris arrastado por sua insegurança profissional, começa a questionar o modelo de relação que vem estabelecendo, seus lugares no mundo “adulto” e os papeis de gênero de cada um no jogo amoroso. E é com uma sutil e crescente violência que Chris e Gitti entram num jogo delicado de poder, no qual ele propõe e ela se submete, a fim de adequar a relação a certos padrões. É no corpo de Gitti que vemos as marcas desse processo: na compra do vestido, na postura da coluna e na contenção de suas críticas sociais. O espectador torna-se um “voyeur” dessas pequenas, mas violentas torturas a que o casal se submete, tendo seu ápice na sequência da piscina que termina com a segunda cena de sexo do filme.

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Sob uma perspectiva, a realização é o que acontece entre as duas cenas de sexo presentes no filme: na primeira, uma interação apaixonada e bem humorada do casal, a inversão dos papéis tradicionais de gênero no ato sexual, uma câmera interessada nos corpos e no rosto de Gitti gozando. Na segunda, a imolação da personagem que se atira da janela da casa para chamar a atenção para a série de agressões psicológicas que seu corpo vem sofrendo, e o gozo solitário, quase comovente, de Chris em performance melancólica. É inquietante presenciar estes momentos da forma transparente e sem excessos que Maren Ade propõe. Nem um tom de denúncia, nem uma “forçação de barra” de roteiro, nada que nós espectadores não pudéssemos presenciar em qualquer jantar de família, e, ao mesmo tempo, de uma agressividade dilacerante.

Importante também em Todos os Outros é a relação entre o mundo externo, as condições sociais, e o mundo íntimo do casal, e é no final que Ade nos alenta com uma saída por esse segundo mundo. Isolados em seu idílico paraíso em que Gitti maquia Chris como uma boneca e o casal cultiva como mascote um gengibre falante, a comunicação flui entre desmaios fingidos e lágrimas teatrais. Em vez de um beijo encantado, um golpe de cócegas acorda a princesa da sua letargia. Essas duas pessoas que, tentando se relacionar, criam para si um universo particular facilmente abalado por agentes externos, ainda têm o riso em comum. Mas as férias vão acabar.

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