Coberturas Críticas

A anti-catarse de Manchester à beira-mar

Mais uma vez recorrendo ao tema das relações familiares neste seu terceiro longa como diretor, Manchester à Beira-mar (Manchester by the Sea, 2016), o americano Kenneth Lonergan volta a subverter as regras da narrativa hollywoodiana e escreve um protagonista que parece ter sido criado especialmente para Casey Affleck.

A trama gira em torno de Lee Chandler (Affleck), um faz-tudo que trabalha em um complexo de apartamentos em Boston. Seus dias se resumem a resolver vazamentos, consertar instalações elétricas e auxiliar na manutenção dos prédios. À noite, ele sai para encher a cara pelos bares da cidade e, não raro, sair aos socos com um estranho qualquer. Quando seu irmão mais velho (Kyle Chandler) morre prematuramente, Lee volta à sua cidade natal e descobre que é nomeado tutor de seu sobrinho (Lucas Hedges). Antes solitário, Lee agora precisa conviver com o adolescente, rever a ex-esposa (Michelle Williams) e ainda lidar com o funeral do seu irmão. Mas os espaços e as pessoas ao seu redor trazem à tona um passado de sofrimento que marcou pra sempre a vida do personagem.

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Optando por revelar o íntimo do protagonista mais pelo silêncio do que pelos diálogos, Lonergan procura humanizar Lee em seus olhares e em seu comportamento truculento. Quando o personagem fala, parece falar pra dentro, quando chora, logo se recompõe, se está prestes a encarar um diálogo mais profundo, escapa. Essa opção tem um propósito. Melhor, uma razão. Em determinado momento do longa é revelado ao espectador o trauma sofrido por Lee, algo tão aterrador que imediatamente é possível compreender seu estranho comportamento.

Assim, é muito feliz a escolha de Casey Affleck como protagonista. A fala baixa e lenta, quase sonolenta, e o controle do ator sobre o olhar aqui são potencializados. Suas expressões que muitas vezes parecem completamente vazias mostram claro domínio do personagem em uma atuação de caráter mais introjetado. O elenco de apoio é dirigido de maneira a também manter certa contenção ao revelar emoções, algo imprescindível para a organicidade que o filme atinge.

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E é exatamente nesse tom e nessa recusa de Lonergan em entregar o que se convém chamar de clichê que estão as marcas de Manchester à beira mar. O longa não se permite buscar a redenção dos personagens ou jogá-los em processos catárticos. Ao invés de longos monólogos e choros registrados em close, o trabalho alcança o seu lado humano através de estranhamentos e silêncios. Há ainda um bem vindo humor, tão natural quanto insólito, que auxilia na tradução não só do íntimo dos personagens, mas também do caráter ordinário das vidas retratadas na tela.

A montagem revela às conta-gotas acontecimentos antigos em sequências que alternam momentos diferentes, mas conectados pelo espaço ou sentimento, de maneira pouco usual. Aos olhos muito acostumados aos dramas hollywoodianos recentes ou mesmo não apresentados aos trabalhos anteriores de Lonergan, tais alternâncias podem até causar certa antipatia. É no desajuste às regras, porém, que o cineasta encontra algum frescor ao falar sobre um tema tão explorado como o luto.

 

*Texto integrante da Cobertura Festival do Rio 2016

Maurício Vassali

Cinéfilo e graduando em Cinema e Audiovisual pela UFPel, deixou os estudos de engenharia temporariamente de lado para dedicar-se ao cinema. Colabora também no site Literatortura.

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