Lady Bird – nascido para ser cult

Se a espectadora ou o espectador cresceu em uma cidade do interior, certamente terá uma afinidade maior com a trama. A euforia da ideia de sair de um pequeno lugar e partir rumo ao enorme e desconhecido é meio intransferível. Mas nem só o público que se viu livre do interior é capaz de se aproximar e, eventualmente, se apaixonar pelo filme de Greta Gerwig. Os adeptos podem ser bem cosmopolitas.

Ver Lady Bird (2017) no TIFF (Toronto International Film Festival) depois da sessão de First They Killed My Father (2017), de Angelina Jolie, sobre o genocídio do khmer vermelho no Cambodja, faz do filme de Greta um conto de fadas. Ou, de outra forma, um desdrama burguês de quem não tem do que se preocupar. Ressalte-se que às vezes, como disse Umberto Eco, o “cúmulo de banalidade deixa entrever uma suspeita de  sublime”. Eco se referia aos clichês em Casablanca (1942) e aqui, em Lady Bird,  o problema não são os clichês, as ações e os diálogos são inclusive conduzidas com roupagem de certa inovação, mas isto se dá – o aspecto da inovação – pelo tratamento que a direção dá ao roteiro e como o roteiro trata as coisas cotidianas como invulgares.

Lady Bird, que no Brasil recebeu o pouco inspirado subtítulo de “A Hora de Voar”,  pode ser visto também como o foi Verdes Anos (1984), de Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil nos anos 80: uma crônica singela de algum tempo histórico, onde os personagens falam das suas vidas, independente de ocorrências paralelas. Ou seja, se há uma ditadura militar ou se os Estados Unidos vivem uma instabilidade (Lady Bird se passa durante a crise econômica do início dos anos 2000, o pai está desempregado, enfim, nada que brasileiros considerem o fim do mundo), o centro do enredo toca apenas na angústia pessoal da adolescente de 17 anos que não suporta a vidinha do interior, a suburbana Sacramento, na Califórnia. Ela quer mudar para uma cidade maior quando entrar para a universidade. A personagem autoproclama-se Lady Bird não por acaso: quer voar…. Seu cotidiano é recheado com conversas com as amigas, com os desentendimentos com a mãe e com a preocupação de como ser moderna e fazer o namoro render.

Pessoas comuns podem interessar à literatura e ao cinema; o extraordinário está em fazer do ordinário algo tocante, seja pela identificação, seja pelo distanciamento. Grandes livros, como ”O Homem Sem Qualidades”, de Robert Musil,  e grandes filmes, como o documentário Homem Comum (2014),  de Carlos Nader, e, claro, toda a obra de Yasujiro Ozu, demonstram que tudo depende de quem escreve ou dirige. A trama pode ser secundária. No caso de Lady Bird, o despojamento dá o tom para o desdrama configurar-se como traço de direção da atriz e roteirista Greta Gerwig (Frances Ha, Mistress America).

Christine McPherson, vivida por Saoirse Ronan (Desejo e Reparação), parece a versão mais adolescente de Frances Ha, mesclando humor com crônica geracional. O trânsito de influências e referências não é à toa, já que Greta, além de protagonista, foi também roteirista do cult Frances Ha. Ela acredita no que escreve, interpreta e dirige. Aliás, ela nasceu em Sacramento. É a própria Lady Bird. Já a personagem da mãe de Lady Bird, em performance ao mesmo tempo discreta e carismática de Laurie Metcalf, é dessas mães que têm em todo lugar. Trabalha dobrado como enfermeira e quer o melhor para a filha mesmo que tenha que ser um tanto rabugenta.

Trata-se da estreia de Greta Gerwig na direção solo, mas certamente não será o último filme na função, pois as apostas para o Oscar só crescem, o que lhe rende um passaporte para as produtoras de olho em novos talentos. O termômetro de Hollywood também está atento ao clima de “nem  vi ainda  e já gostei” que rondou  a estreia do filme nos festivais. Em Toronto, a exibição no gigantesco cine-teatro Elgin antecipava o clima cult. Nessa Première do TIFF, de posse de uma sinopse que colocava a personagem como “rebelde” (as aspas são minhas),  a plateia estava ansiosa, nervosa e depois de aplaudir até os créditos iniciais não parava de soltar gritinhos eufóricos. Os risos para qualquer fala um pouco mais espirituosa da Lady Bird eram espontâneos e pouco criteriosos. Mas quem quer saber de critérios numa hora dessas? A recepção do filme é de fato um fenômeno, uma vez que até alcançou a marca da produção  mais bem avaliada da história pelo Rotten Tomatoes, o site americano de maior popularidade para medir a qualidade dos filmes.

Talvez a fama e a glória de Greta Gerwig não dure nem o tempo que precisamos para aprender a pronunciar o nome da atriz de origem irlandesa Saoirse Ronan. Porém, se não surgir nada mais impactante, Lady Bird tem tudo para ser lembrado como o filme da geração da segunda década do século. Se pensarmos que os americanos já tiveram um Hair (1979) para identificar os anos 60 e 70, Lady Bird é quase um insulto sobre o que querem os jovens atuais, para quem a Síria, numa equivalência com o Vietnã, é só o país de onde vem o pão sírio.

É possível, no entanto, esquecer que existem guerras e simplesmente aproveitar o frescor da personagem e embarcar no seu mundinho de dilemas  banais sem maiores pretensões. Apenas relaxar e curtir porque, afinal,  não são todos que querem mudar o mundo. E talvez aí esteja a chave que explique tanta adesão: pra que mudar o mundo?

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